www.publico.ptpublico@publico.pt - 8 dez 10:16

Parar é viver

Parar é viver

Conheço quem tenha medo de estar. Quer apenas fazer, falar, deixar feito, cumprir, atender, safar. Tudo isto são coisas mais importantes que meros verbos. É importante parar e convém fazê-lo antes que seja tarde demais.

Tenho a sensação de que há um número reduzido de pessoas que gosta de parar. Parar não significa desperdiçar tempo, embora muitos acreditem que parar é morrer. Mas parar poderá ser exactamente o contrário. Faço parte de uma geração rodeada de estímulos, sejam eles digitais ou outros. Faço parte de uma geração que hoje gosta de uma coisa e amanhã poderá desprezá-la. E as gerações posteriores à minha terão essa atitude ainda mais vincada. O telemóvel não vibrou mas eu senti qualquer coisa. Fui buscá-lo para ver as horas e acabei por fazer de tudo menos saber que horas eram. A nossa sala de estar costuma ser o espaço preferido da casa e há quem precise do som da televisão porque o silêncio em demasia incomoda. 

���Há quem tenha algum receio do próprio silêncio, esse empecilho constrangedor. Imagine-se um jantar de família ou de amigos em que a conversa já vai longa e um de nós está calado há mais de 15 minutos. Para os outros, estaremos a apanhar uma seca, seremos uns acanhados ou até uns empata-cavaqueiras. Quando às vezes poderemos estar apenas a desfrutar. ”

Dentro do bombardeamento de conteúdos, estímulos e informações vindas das mais variadas direcções, sabe bem parar. Parar, em silêncio, aproveitá-lo. Há quem tenha algum receio do próprio silêncio, esse empecilho constrangedor. Imagine-se um jantar de família ou de amigos em que a conversa já vai longa e um de nós está calado há mais de 15 minutos. Para os outros, estaremos a apanhar uma seca, seremos uns acanhados ou até uns empata-cavaqueiras. Quando às vezes poderemos estar apenas a desfrutar. 

A minha avó tinha muitos momentos desses. Chegavam a perguntar-lhe: "Mas porque é que não dizes nada?" A resposta era sempre a mesma: "Não tenho nada para dizer." Silêncio não tem que ser o vazio, mas pode ser o absoluto. O encontro de equilíbrios. O apaziguador de estímulos repentinos, a lufada de ar fresco que faz diferença ao ponteiro do relógio.

Há uns meses faleceu a mãe do meu melhor amigo. Fomos jantar os dois a um restaurante nepalês. Estávamos sentados às 20h30 e saímos às 23h. Pouco falámos. As palavras que saíram foram meras informações ao simpático e sorridente empregado. Dois chicken tikka masala e um garlic cheese nan de entrada. O resto? Foi estar. Uma amiga em comum estava presente no restaurante, noutra mesa, e dias mais tarde encontrou-me. Sabia o que tinha acontecido e acabou por partilhar comigo: "Foi bonito o que ali aconteceu. Percebi claramente que era preciso aquele jantar praticamente em silêncio." Às vezes não é preciso falar, é preciso estar. Apenas estar. E isso envolve muita coisa. Chegar a casa depois de um dia de trabalho e estar. Seguir viagem sem rádio, viajar sozinho, caminhar, encontrar um espaço. Estar. E esse espaço não tem que ser físico. 

Conheço quem tenha medo de estar. Quer apenas fazer, falar, deixar feito, cumprir, atender, safar. Tudo isto são coisas mais importantes que meros verbos. É importante parar e convém fazê-lo antes que seja tarde demais, porque nos momentos de colapso, de descarga ou de desespero, vamos sempre perguntar "em que altura parámos para estar?". 

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Parar não é morrer. Parar é viver. Encontrar o silêncio é fazer as pazes com o tempo. E esse traz sempre rasteira porque não pára. 

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