rr.sapo.ptOpinião de Francisco Sarsfield Cabral - 8 dez 00:00

A extrema-direita em Espanha e Portugal

A extrema-direita em Espanha e Portugal

As eleições na Andaluzia, há uma semana, mostraram que a extrema-direita tem em Espanha mais adeptos do que se pensava.

No domingo passado o partido espanhol de extrema-direita Vox conquistou doze lugares no parlamento regional da Andaluzia, tendo recebido quase 400 mil votos, 11% do eleitorado que votou. Foi uma surpresa, pois havia a ideia de que, na Península Ibérica, espanhóis e portugueses estariam “vacinados” contra o extremismo de direita, depois da ditadura franquista e do nada democrático Estado Novo.

Pelo menos quanto a Espanha essa ideia foi agora desmentida. O Vox foi fundado em 2013, por gente vinda da ala mais à direita do PP de Rajoy. O partido é nacionalista espanhol e está contra as autonomias, a imigração (sobretudo de muçulmanos), as leis que punem a violência doméstica (é antifeminista), etc..

Aliás, os adeptos de Franco sempre se manifestaram publicamente – e ruidosamente… – na Espanha democrática. A sua presença no espaço público foi recentemente estimulada pela decisão do governo socialista de Pedro Sanchez de exumar os restos mortais do ditador, colocados no Vale dos Caídos, onde Franco foi sepultado em 1975, para os transferir para outro local, menos monumental. Os franquistas espanhóis têm protestado furiosamente contra essa decisão, ainda não concretizada.

Entre nós nada de semelhante alguma vez se viu em relação a Salazar. Este mandou ditatorialmente durante quatro décadas, usando a censura e a polícia política, mas era menos sanguinário do que Franco (que pouco antes de morrer ainda mandava fuzilar inimigos políticos). E a sua sepultura, em Santa Comba Dão, é modesta.

Essa diferença tem muito a ver, também, com a guerra civil espanhola (1936-1939), onde se registaram inúmeras atrocidades, nem todas do lado de Franco, que ganhou a guerra. Nessa guerra participaram ativamente, ao lado dos franquistas, forças militares alemãs e italianas – basta lembrar a horrível destruição de Guernica, bombardeada pela aviação militar alemã, para testar a sua eficácia; e, do outro lado, o apoio da União Soviética foi notório.

Unidos no extremismo

Claro que o Vox não é igual a outros partidos europeus de extrema-direita: todos têm as suas características específicas - uma especialidade do Vox é ser contra o feminismo. Mas não há motivo para o classificar de outra maneira que não seja de extrema-direita.

Segundo o diário espanhol “El País”, Steve Bannon, antigo chefe da campanha eleitoral e ideólogo de Trump, aposta nos partidos situados no que ele chama “far right” (extrema-direita) para se aproximarem entre si, tendo nomeadamente em vista as eleições de maio de 2019 para o Parlamento Europeu. S. Bannon também promoveu a criação de um “think tank” para coordenar as mensagens de cada uma dessas forças políticas. Este “think tank” já funciona e está sediado em Bruxelas – a partir daí dinamiza “o movimento”. Desde há um ano e meio que S. Bannon está em contacto com o Vox e lhe fornece apoio, muito apreciado no partido.

As primeiras felicitações ao Vox pelos resultados eleitorais obtidos na Andaluzia vieram de Marine Le Pen. Também vieram de Salvini, o “patrão” do governo italiano. E de um simpatizante nazi e membro do Ku Klux Klan, chamado David Duke.

São claras, por outro lado, as semelhanças do Vox com o que Trump proclama. Nos EUA é o “America first”, em Espanha o partido Vox tem como lema “Españoles primero”. Este partido não gosta do estatismo do “Agrupamento Nacional” (antes “Frente Nacional”) de M. Le Pen, mas alinha com ele na hostilidade à imigração e ao Islão, bem como na crítica às elites políticas.

Afirmou ao “El País” um dirigente do Vox: “Trump é indiferente ao que dizem dele – e a nós também. Chamam-nos fascistas. E então?”.

As exceções de Portugal e Irlanda

Em Portugal a extrema-direita tem escassa expressão. Historicamente coube ao CDS integrar a direita portuguesa no regime democrático, tarefa patriótica em larga medida conseguida. E é ridículo classificar de “fascista” o CDS de Assunção Cristas.

Juntamente com a Irlanda, parecemos, assim, imunes à atração desse sector político, que cresce na Europa. Mas é conveniente não pensar que tal imunidade funcionará eternamente. Por isso será útil reparar no que fazem os partidos europeus da direita democrática perante a ameaça da extrema-direita.

Há anos atrás o mais frequente era a direita democrática não estabelecer quaisquer entendimentos com a extrema-direita. Depois, em França, com Sarkozy, prevaleceu “roubar” algumas causas à extrema-direita, para não perder votos. E em países como a Áustria e a Finlândia a extrema-direita está no governo, ao lado de direitistas democráticos.

Julgo essa estratégia muito perigosa, pois só beneficia os extremistas, descaracterizando a democracia e os seus valores. A prazo, ganham os extremistas. Na Alemanha nenhum partido democrático se aproxima da “Alternativa para a Alemanha”, de extrema-direita e que já entrou no Parlamento federal. Na Bélgica e na Holanda prevalece o “cordão sanitário” em torno da extrema-direita.

O essencial, porém, em Portugal como em qualquer outro país, será defender os ideais democráticos e os valores civilizacionais que representam, sem paternalismos elitistas.

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