www.publico.ptpgarcias@publico.pt - 8 dez 03:19

Mais vinho, se faz favor, que a festa não pode parar

Mais vinho, se faz favor, que a festa não pode parar

Quem gosta de vinho, percebe esta ânsia de provar tudo, de beber o mundo num só dia, se for preciso. É uma bebida fascinante e, à medida que vamos sabendo um pouco mais sobre os seus mistérios, mais vontade temos de provar coisas novas e diferentes.

Feiras, mercados, apresentações, experiências temáticas, encontros, provas cegas, jantares vínicos… Ufa! Até cansa só de lembrar o frenesim que se vive por esta altura no mundo do vinho português (parecido, só mesmo a euforia patriótica em torno dos chefs e dos restaurantes com estrela Michelin). O frio e a proximidade do Natal ajudam, mas este fenómeno é a prova de que o vinho e toda a cultura que o rodeia estão mesmo na moda em Portugal.

O tempo em que havia só uma ou outra feira no país e os apreciadores de vinho eram atraídos sobretudo por meia dúzia de marcas conhecidas parece já demasiado distante. Agora, é preciso ter uma agenda para poder ir acompanhando a temporada de provas; e cada evento é um desafio, um exercício de descoberta que obriga a longas horas de degustação, tantos são os produtores e os vinhos novos que vão emergindo um pouco por todo o país.

Não é fácil, mesmo para quem está no vinho de forma profissional, seja como jornalista, seja como produtor, acompanhar as novidades. Há sempre um novo vinho fora do baralho, uma experiência “nunca antes feita”, um devaneio, um qualquer novo truque de marketing a desafiar a nossa curiosidade. É incrível o dinamismo e a criatividade que se vivem no sector. Parece que estamos no meio de uma grande festa a beber de um tonel sem fim.

Corre vinho a rodos por todo o lado. Nunca consumimos tanto como hoje. Andamos inebriados com os aromas a flores, frutas e especiarias e intrigados com a salinidade e a mineralidade dos vinhos. Já não compramos guias, porque temos aplicações nos telemóveis e tudo o que acontece passa no Facebook. Quase em tempo real.

O Facebook é, na verdade, a maior garrafeira do país. Está lá tudo. Impressiona o número de garrafas e de grandes vinhos que se bebem todos os dias em Portugal, com base nos registos que vão surgindo naquela rede social. A mim, impressiona-me também a resistência de alguns enófilos e bloguers, a avaliar pelos vinhos que publicam. Ainda terão fígado?

O nosso percurso no vinho é mais ou menos este: começamos por gostar apenas de tintos e depois vamos descobrindo que há mais vida para além dos tintos e que o prazer pode estar num copo de um branco; começamos pelos novos, mas a seguir descobrimos que a felicidade está afinal num branco com alguma idade; no início, fazemos cara feia à acidez, depois convertamo-la numa espécie de mantra, até que um dia percebemos que a acidez não é tudo e que o mais importante num vinho é o equilíbrio; começamos a desdenhar dos fortificados e acabamos devotos; partimos de uma região favorita, normalmente aquela onde vivemos, e vamos estendendo os nossos horizontes de prova mar e terra adentro; ao fim de algum tempo, já estamos a beber de tudo, sem freio, e já somos especialistas. É então que nos tornamos verdadeiros enochatos. Quando finalmente nos cansamos de fazer figurinhas tristes e já provámos o suficiente, tornamo-nos de novo civilizados e passamos a beber menos e melhor (talvez porque nessa altura já começamos a estar velhos).

O enófilo sábio é aquele que não espera pela velhice para beber com critério. Não é fácil, porque os encantos do vinho são poderosos e demoníacos. Mas é bom ter presente que, por mais dinheiro e capacidade de “destilação” que se tenha, uma vida não chega para provar todo o vinho bom que há no mundo.

Uma simples garrafa de um bom vinho pode fazer mais pela nossa felicidade do que cinquenta grandes vinhos provados a correr, que é muitas vezes o que fazemos nas feiras (não há boca, nem memória, que aguente tanto vinho) ou em almoços e jantares com amigos do meio. É como provar vinte pratos de um menu de degustação num restaurante Michelin. Ao fim de meia dúzia, já não nos lembramos do que comemos antes.

Com os vinhos, chega a ser pior. A dada altura empolgamo-nos e queremos colocar a garrafeira toda na mesa, como se não houvesse amanhã. Fazemos a mesma figura de um viciado em tabaco que acende um cigarro com outro. Ainda estamos a estruturar a memória de um vinho e já temos outro no copo.

Há umas semanas, o meu amigo Marcos Lagoa voltou a fazer um dos seus jantares épicos no restaurante Panorâmico, de Marlene Vieira, no Tagus Park, em Oeiras. Éramos 18 à mesa e, desta vez, abriu mais de 40 garrafas. Só brancos e todos de 2008. Como sempre, a França domina nestes jantares. Não há volta a dar: nenhum outro país faz brancos tão bons.

Não se beberam os vinhos mais caros do mundo, mas beberam-se alguns dos grandes brancos do mundo. Vinhos de produtores reputados como Dauvissat, Raveneau (Chablis), Dagueneau (Pouilly Fume), Granevat, Domaine Macle (Jura), Alphonse Mellot (Sancerre), Coche-Dury (Mersault), Ramonet, Pillot (Chassagne-Montrachet), entre outros.  

Beber aqueles vinhos numa vida já é uma sorte. Numa noite só, é….. Bem, não quero ser ingrato para o promotor do jantar. Estas noites são sempre memoráveis. Além de muito didácticas (porque os vinhos são servidos às cegas), ajudam-nos a colocar em contexto os vinhos que nos são mais familiares. Como entram sempre alguns vinhos portugueses, dá para perceber que estamos a fazer cada vez melhor mas que ainda temos muito que andar, porque, sobretudo nos brancos, o nosso histórico é insignificante.

Claro que no dia seguinte é necessário rever as fotos das garrafas, para se perceber melhor o que se bebeu. Com frequência, constatamos que passamos ao lado de vinhos monumentais. E é nesse momento que nos assolam sentimentos contraditórios: de satisfação, pelo privilégio de termos provado grandes vinhos; mas também de alguma tristeza, por não termos dedicado a cada um o tempo e o respeito que mereciam. Com menos vinhos, tínhamos na mesma uma grande noite e o meu amigo Marcos Lagoa poupava na garrafeira.

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