www.cmjornal.ptCarlos Moedas - 7 dez 00:30

A Política da destruição

A Política da destruição

Não fomos capazes de construir uma globalização que beneficiasse todos os segmentos da sociedade. - Carlos Moedas, Correio da Manhã.
No fim de semana passado estive em Paris e senti de perto os tumultos criados pelos chamados "coletes amarelos".

Nunca tinha visto nada assim na minha vida: carros virados ao contrário na avenida Kleber, idosos a correrem assustados pelas ruas, lojas a saque em que os criminosos, com desdém pelas autoridades, exibiam orgulhosamente aquilo que tinham roubado.

Este tipo de manifestações violentas não augura nada de bom para o nosso futuro e deixa-nos naturalmente inquietos. A antiga dicotomia "esquerda" e "direita" parece estar a mudar para uma nova dicotomia entre um mundo aberto ou fechado. Em que aquilo que divide não é uma ideologia, mas a revolta contra o sistema. É sempre mais preocupante quando o que divide não são ideias, mas sim a rejeição de todo um sistema.

Aquilo que vimos em Paris este fim de semana foi isso mesmo. Os grupos de vândalos tanto podiam ser de extrema-esquerda como de extrema-direita. Mas partilham o objetivo de destruir o regime.

Para mim este fenómeno e esta violência não têm justificação, mas têm algumas explicações, tanto económicas como políticas.

A verdade é que no mundo ocidental não fomos capazes de construir uma globalização que beneficiasse todos os segmentos da sociedade.

Nos nossos países, principalmente as classes médias têm perdido poder de compra nas últimas décadas. A Europa tem que ser mais firme na imposição de regras mais equitativas no comércio internacional.

Há demasiados países que apenas são competitivos face à Europa porque não cumprem os mínimos em termos de padrões ambientais, de qualidade, concorrência leal ou direitos de trabalhadores. E isso gera destruição de emprego e estagnação de salários nos nossos países.

Por outro lado, o sistema político tem que evoluir mais rapidamente para um padrão de maior envolvimento dos cidadãos. Num mundo digital as pessoas não aceitam ser comandadas.

Têm informação suficiente nas mãos para tomar as suas próprias decisões. Mas, ao mesmo tempo, um sistema não pode funcionar sem decisões coletivas. Em Paris, vários jornalistas perguntavam aos manifestantes o que eles queriam alcançar ao vir para a rua.

Um dizia que estava ali porque tinham fechado a maternidade ao lado da sua casa; outro porque queria substituir o atual primeiro-ministro por um militar. Fica-se com a sensação que cada manifestante tinha a sua frustração individual, a sua queixa, a sua causa de revolta, muitas delas louváveis.

O único ponto em comum era destruir em vez de reformar.

As virtudes do compromisso
Na passada sexta-feira em Bruxelas, entrei no edifício do Conselho de Ministros da UE com grandes expectativas em relação à reunião de Ministros na qual iria participar. Debatia-se a minha proposta ‘Horizonte Europa’, futuro programa europeu de investigação e inovação, com vista a uma primeira aprovação dos 28 países.

A Comissão Europeia, representada por mim, defende o interesse geral e ajuda a construir pontes entre as diferentes posições. Trabalho inglório, já que qualquer compromisso nunca é plenamente satisfatório para todas as partes.

Houve drama e emoção. Por várias vezes, foi necessário interromper a reunião para conversas paralelas e para tentar acomodar as pretensões deste ou daquele.

Ao fim de mais de 8 horas chegámos a um acordo. Foi uma vitória para a ciência e inovação, mas também para o peculiar, por vezes frustrante, mas sempre construtivo processo de decisão da UE.

Muitos exasperam-se com reuniões intermináveis e tensões entre as delegações. Eu fico sempre agradavelmente surpreendido quando 28 países tão diferentes conseguem aliar os seus legítimos interesses com a solidariedade, e em que o resultado é superior ao que cada um conseguiria sozinho. É esse o espírito da UE.

Escolas de negócios a dar cartas 
Na lista das melhores esco- las do Financial Times marcam presença qua- tro escolas de negócios portu- guesas: Católica-Lisbon, Nova SBE, Porto Business School e ISCTE Business School. É de louvar esta visibilidade com origem numa aposta interna- cional, na qualidade e na empregabilidade destes cursos.

Corbyn a brincar com coisas sérias
Após meses de hesitações, o líder trabalhista Jeremy Corbyn disse que irá chumbar o acordo do Brexit e ameaça agora com eleições antecipadas caso Theresa May não consiga a aprovação do Parlamento. À imagem de parte dos conservadores, Corbyn usa e abusa do Brexit para fins partidários e pessoais. Sentido de Estado, nem vê-lo.

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36 milhões é o número de postos de tra- balho na UE ligados às ex- portações europeias para o res- to do mundo. Um aumento de 2/3 em relação a 2000. Portugal é dos países que mais benefici- ou (+172 %). Foi certeira a apos- ta que fez nas exportações para fora da UE, inclusive no auge da crise. Semeou-se exportações, hoje colhe-se emprego.n
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