rr.sapo.ptOpinião de Graça Franco - 7 dez 00:00

​Estado de emergência

​Estado de emergência

Na sociedade civil os protestos sobem de tom um pouco por todo o lado. Cabe perguntar porquê agora. Ou talvez: porquê só agora? Ou melhor ainda: porquê todos agora e ao mesmo tempo.

Entre um doente com fratura exposta e um doente oncológico de ortopedia, segundo a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, “cabe ao cirurgião escolher quem opera”, em tempo de serviços mínimos e greve dos enfermeiros. Não sei como tal escolha pode ser possível.

Se a escolha se coloca assim e os enfermeiros têm a razão do seu lado (e eu acredito que sim!), então está na hora do Governo fazer alguma coisa mais. Ou está disposto a negociar um acordo, ou assume a sua incapacidade e avança para a requisição civil. A falta de dinheiro não explica a falta de coragem.

No SNS vive-se o estado de emergência. Só falta declará-lo. O bastonário da Ordem dos Médicos teme que comecem a morrer doentes, fruto de cirurgias adiadas. Entre os utentes com cirurgias programadas os casos de adiamento acumulam-se e deixa de haver escolha possível ou reprogramação que os salve. Os desastres de automóvel não deixam de acontecer por ser dia de greve. Às situações graves somam-se as gravíssimas e o sistema que falta para as segundas não consegue absorver as primeiras.

Os números sobem a ritmo alucinante. Na Manhã da Renascença Carlos Martins, presidente do Centro Hospitalar Lisboa Norte, dizia esta sexta-feira que a situação é “dramática” e acrescentava que desde 22 de novembro, quando a greve começou, “não foi possível operar uma única criança” na cirurgia pediátrica do Hospital de Santa Maria.

A afirmação de Carlos Martins vale por si. Quando num só hospital, fim de linha e altamente diferenciado, foram canceladas “sensivelmente 50 cirurgias” e adiadas “outras 500”, o que significa afetar crianças vindas de todo o país e da diáspora, mesmo que se tenham conseguido realizar outras 250 cirurgias sobretudo oncológicas, o impacto é avassalador.

E não se fica pelo hospital de Santa Maria, em Lisboa. O São João ou o Hospital de Santo António, no Porto, e uma série de outras unidades estão também a ser afetadas um pouco por todo o país.

Há cirurgias reprogramadas em casos tão graves quanto a retirada de tumores cerebrais de origem desconhecida, em jovens. Alguém acredita que duas semanas a mais ou a menos são indiferentes em quadros como este? E se os tumores se mostrarem malignos? Quem garante que é o mesmo um mês a mais ou a menos quando uma semana de espera parece uma eternidade?

A exaustão e “stress” extremo a que estão sujeitos quase todos os enfermeiros, dos mais jovens aos mais experientes, é de tal forma evidente que ninguém, mesmo fora dos meandros da gestão hospitalar, pode ignorar, pelo menos, boa parte da razão subjacente aos grevistas. Não resolve o problema colocar a “culpa” do lado dos trabalhadores à beira de um ataque de nervos, condenados ao “burnout” e que não podem evidentemente cumprir a missão que se espera dos cuidadores do Serviço Nacional de Saúde.

Basta passar uns minutos num serviço hospitalar para perceber que talvez seja apenas um problema de gestão. Mas as escalas não funcionam, os horários não encaixam e os médicos estão evidentemente sobrecarregados, a braços com as funções de enfermagem, enquanto é patente que os enfermeiros se desdobram em tarefas de auxiliares que acumulam com as próprias.

Faltam equipamentos, faltam materiais, falta tempo, faltam até ajudantes da limpeza. Os enfermeiros vão-se arrastando num atendimento multi-funções, que os desgasta para além do razoável.

Há países em que o direito à greve em certas profissões se faz comparecendo ao trabalho com uma tarja de luto. Talvez em Portugal, face ao estado calamitoso do SNS, não seja possível de momento fazer mais do que essa medida simbólica. Porque o trabalho envolve literalmente “questões de vida ou de morte” cuja gravidade não se compadece com os doentes esperarem ainda mais tempo.

Tem de haver alguma coisa que leve esta gente formada para salvar vidas a dizer alto e bom som que agora chega, já basta de pedir sem dar.

Os jovens que resistiram à emigração nos tempos da “troika” envelheceram prematuramente nas mesas de triagem hospitalar a que não conseguem dar vazão. Há demasiados enfermeiros a contactar prematuramente com a morte que ronda as macas espalhadas, sem tempo para dar a mão aos moribundos.

Não se trata apenas do caso dos enfermeiros literalmente à beira do colapso. É também o caso dos médicos frustrados que não conseguem dar resposta aos doentes, cuja saúde se degrada. Mas na sociedade civil os protestos sobem de tom um pouco por todo o lado. São os juízes, os estivadores, os presos e os guardas prisionais, os bombeiros, os professores, e muitos outros corpos profissionais.

Cabe perguntar porquê agora. Ou talvez: porquê só agora? Ou melhor ainda: porquê todos agora e ao mesmo tempo. A resposta de ser este um ano eleitoral é escassa para explicar a revolta fininha que de repente parece começar a sair por todas as costuras.

Não pode ser só o efeito do Bloco a mover os cordelinhos da revolta social e do PCP a fazer prova de vida das suas divergências com a esquerda socialista, enfarinhada com o mesmo pó branqueado da direita austeritária. Tem de haver mais alguma explicação adicional. No cansaço acumulado, na esperança que se esgota na última gota de suor de muitas noites mal dormidas. É melhor prevenir. A França que diz basta, não augura nada de bom.

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