24.sapo.ptAlexandra Lucas Coelho - 7 dez 17:35

Viagem a um povo que já não existe (e ninguém sabe como se chamava)

Viagem a um povo que já não existe (e ninguém sabe como se chamava)

Anos antes de Cristo nascer, um povo bem moreno, cabelo negro, subiu até aqui, olhou em volta, entre o vulcão e o lago: ficou. Mil e tal anos depois ...

1. No 1º de Dezembro de 2018 — dia da “quarta transformação” no México, anunciavam os media, porque tomava posse o esquerdista Andrés Manuel López Obrador —, uma portuguesa, dois baianos e frescos pedaços de cana-de-açúcar foram conduzidos por um mexicano chamado Omar até um povo que já não existe, e que ninguém sabe como se chamava.

Coisas que acontecem no México.

2. Era um dia de quase-Inverno, porém quente, e nós, que não comíamos havia muitas horas, tínhamos comprado uma “torta ahogada” para o caminho, sabendo que essa “torta” era uma sanduíche, mas não que era a pior sanduíche da Mesoamérica, talvez porque não a quisemos com “salsa”, ou seja molho, já que por alguma razão, claro, se chamava “ahogada”. Originalmente afogada no seu molho, o que o carro de Omar não merecia, muito menos o próprio Omar (um encanto de pessoa, ia eu a dizer, mas isso é quase sinónimo de ser mexicano no México). Foi aí que a janela do carro se abriu e o saco cheio de frescos pedaços de cana-de-açúcar fez a sua entrada: não se mastigam, chupam-se, para que o suco desça como um soro.

Picos de açúcar no sangue, rolando entre plantações de agave azul, sempre debaixo do vulcão.

3. O agave azul é aquela planta milenar de onde vinha o “pulque” dos antigos “nauhuátl”, e agora vem a “tequila” e o “mezcal”. Estávamos mesmo numa das casas dela (planta): estado de Jalisco, a uma hora de Guadalajara. Do lado de lá do vulcão havia até uma povoação chamada Tequila. O próprio nome do vulcão era Tequila. Haveria algum vulcão Mezcal, lá para os lados de Oaxaca? Fosse como fosse, são todos anteriores à triste descoberta da ressaca. Este vulcão de Tequila distingue-se pela bossa no topo, como um sinal de nascença. Há mais de 200 mil anos que não está activo. As plantas decidiram cobri-lo. As pessoas trepam por ele. Ele deixa que lhe façam tudo. Mas um vulcão é um vulcão é um vulcão.

E do lado de cá do vulcão estava Teuchitlán, o nosso destino.

4. Teuchitlán quererá dizer “lugar dedicado ao divino”. Agora é um “pueblecito” com jardim, pracinha, murais a anunciar um clube de leitura, nem vivalma à vista. Mas há dois mil anos passavam por aqui dezenas de milhares de pessoas. Ainda não conhecemos o nome desse povo. Os arqueólogos escrevem apenas “tradição de Teuchitlán” quando identificam as peças daqui. Começando pelo americano Phil Weigand, o pioneiro das escavações, todas elas bastante recentes. Até fins do século XX, os vestígios da antiga Teuchitlán mantiveram-se abandonados, pedras foram levadas para a construção de igrejas, caminhos-de-ferro, casas. Por isso, o sítio arqueológico ainda não é muito famoso, como bem dizia Omar ao volante, espantado até de o conhecermos. Tequila é famosa, mas este sítio não, insistia ele.

E o sítio, em si, por cima do “pueblo” de Teuchitlán, chama-se Guachimontones.

5. É um sítio de círculos. Pirâmides redondas, em degraus, únicas não só na Mesoamérica como no mundo, acreditava o arqueólogo Phil Weigand. Ele morreu em 2011, mas o novíssimo museu na base do sítio tem o seu nome. Os visitantes passam por lá primeiro, vêm murais com belos gigantes arcaicos a jogarem “pelota” (o futebol arcaico da Mesoamérica), têm um primeiro vislumbre da paisagem, de como este povo de nome desconhecido, anterior aos aztecas, soube fundar o seu lugar sagrado entre o vulcão e o lago lá em baixo, que a esta hora parece de ouro. Uma harmonia entre o natural e o humano crente no divino que lembra Delfos, por mais diferentes que sejam a flora, o grau de inclinação do terreno, a água (que lá é mar), os templos gregos.

Em Guachimontones, no 1º de Dezembro, sábado, havia, de facto, poucos visitantes, todos pareciam mexicanos, e tudo estava cuidadíssimo. A partir do museu eram 350 metros a subir por um caminho de pedra, entre arbustos e pequenas árvores. Soube bem a paragem nas ruínas do antigo “juego de pelota”, um grande rectângulo com uma árvore na ponta, e estupenda vista sobre o lago.

Chegavam a ser maiores do que campos de futebol, os campos de “pelota”. E a bola era mesmo de borracha.

6. O que resta das pirâmides, ou “guachimontones” está no fim da subida. A pirâmide maior continua coberta de mato. Por isso, a segunda maior é que funciona como centro de tudo. Há muito que os locais lhe chamam La Iguana. Muda de cor e consistência conforme as estações. Hoje está verdinha, cheia de erva degrau a degrau. Treze degraus, mais quatro no topo, como socalcos do rio Douro, só que redondos. Nem princípio nem fim, a forma perfeita, eterna.

Uma corda a toda a volta impede-nos de trepar por ela acima (embora eu tenha visto pelo menos um pequeno mexicano tentar, até um dos guardas vir). Se chegássemos lá acima veríamos que há um buraco a meio. Era onde este povo de que não sabemos o nome espetava o poste para a cerimónia dos “Voladores”, uma oferenda dos humanos ao deus do vento, Ehecatl. Ainda hoje o ritual dos “Voladores” é praticado em alguns lugares da Mesoamérica: cinco homens sobem a um poste altíssimo; um fica no topo a tocar flauta enquanto os outro quatro, com cordas atadas aos tornozelos, se lançam no vazio e começam a rodopiar em torno do poste, até perfazerem, juntos, 52 voltas, equivalentes às 52 semanas do ano. Arrepia.

E, mais uma vez, vejo América e Oceânia ritualmente unidas. Pois, se aqui havia, e ainda há, os “Voladores”, na Ilha de Pentecostes continua a haver o “Salto do Gol”, homens que se lançam no vazio do topo de uma estrutura de madeira, também presos pelos tornozelos. Só não rodopiam. Apenas saltam.

7. Além do voo dos sacerdotes, o deus também recebia oferendas de milho queimado. Em volta das pirâmides redondas, todas as construções e plataformas se dispunham igualmente em círculo. E dois mil e tal anos depois dava vontade de ficar aos pés de La Iguana, a mirar aqueles socalcos concêntricos, aquele mistério verde a caminho do céu, azulíssimo. Um velho guarda passava lento com o seu chapéu de palha. Outro usava-o para se deitar à sombra. Eu deitei-me ao sol sem chapéu, como se não houvesse amanhã, os voos da Iberia se tivessem extinguido, e o mundo fosse pois um pouco menos mau.

Anos antes de Cristo nascer, um povo bem moreno, cabelo negro, subiu até aqui, olhou em volta, entre o vulcão e o lago: ficou. Mil e tal anos depois desapareceu, talvez vencido por outro povo. Não sabemos bem que língua falava (Weigand sugeriu totorame, chibcha; nauhuátl, não). Trabalhavam a terra, tinham sofisticados sistemas de irrigação. Usavam o cobre, o ouro, a prata, a malaquite, sobretudo a obsidiana, pedra vulcânica que os antigos poliam até ficar um espelho, e nele julgavam ler o futuro.

Já não me lembrava que a obsidiana nem sempre é negra, de quantas cores pode ter, e quantas se ocultam quando a luz não bate nela. Pode ser dourada, rosa, ter várias espécies de arco-íris dentro.

Coisas que acontecem no México.

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