rr.sapo.ptOpinião de Henrique Raposo - 7 dez 00:00

Nunca foi tão difícil ser pai (ou mãe)

Nunca foi tão difícil ser pai (ou mãe)

Em 2018, ser pai ou mãe é um trabalho esgotante do que não tem o reconhecimento merecido junto dos avós que foram pais há décadas, junto dos eternos trintões sem filhos, junto dos média que destratam o tema como "lifestyle".

Bem sei que estou a falar em causa própria, bem sei que posso estar na arrogância do presente. Aliás, a grande objecção que se pode fazer à minha tese (ser pai nunca foi tão complicado) está logo na geração dos nossos avós. Os meus avós viveram um tempo sem vacinas, de fome, de pandemias. Na minha árvore genealógica, tenho familiares que morreram de doenças que hoje são consideradas relíquias. O trabalho braçal era hediondo, passava-se fome. Portanto, ser pai ou mãe para os meus avós não terá sido mais difícil? Não. Sobreviver era mais difícil, sem dúvida, mas, precisamente por causa da dureza da vida, não se esperava muito do papel de mãe ou pai. Criar um filho era colocá-lo fora do perímetro da alta mortalidade infantil. Quando dizia "criei dez", a minha avó estava a dizer que tinha conseguido salvar dez. Perder um bebé ou criança era normal. Esta quota mínima mudou com o progresso das últimas décadas. A meu ver, mudou em demasia. A bitola da paternidade subiu para níveis insuportáveis. A perfeição, e só a perfeição, é uma exigência que a sociedade impõe aos pais de hoje. Têm de ser profissionais perfeitos, têm de ser maridos e mulheres perfeitos, na rua, na cama, no restaurante, nas viagens, e, além disso, também de ser pais perfeitos educando filhos perfeitos. Neste contexto, o divórcio só pode ser tão comum como a mortalidade infantil no passado.

O peso da paternidade começa neste culto da perfeição, que, por sua vez, está relacionada com a falácia do controlo absoluto da nossa vontade ou intelecto. Se a criança faz uma birra no supermercado, cai o carmo e a trindade, toda a gente olha com espanto ou censura, como se uma birra fosse o fim do mundo, como se aquilo que define o bom pai fosse a inexistência de birras (algo impossível) e não a forma como se lida com as birras inevitáveis. Como salienta Sara Rodi, esta obsessão pelo controlo total e racional lança uma exigência demoníaca sobre os pais. Assume-se que a criança é um produto, uma tabula rasa onde se pode colocar tudo o que quisermos; é como se a criança não fosse uma entidade sagrada e criada por algo superior ao nosso intelecto, é como se a criança fosse um carrinho telecomandado, e não um ser humano com carácter próprio. Portanto, se a criança está a fazer alguma coisa considerada errada, fala muito, fala pouco, más notas, notas demasiado boas, birras, drogas, aprende devagar, aprende demasiado depressa, fuma, não come, come muito, é muito gordo, é muito magro, come doces com açúcar (Vejam só!), come pão de trigo (Que escândalo!), bebe leite (Que coisa medieval!), se a criança faz alguma coisa errada, dizia eu, assume-se logo que o erro deriva dos pais. Pode não ser assim. A educação é fundamental, claro, mas não é infalível e há sempre uma margem de liberdade da criança que nunca desaparece. As crianças não são barro inerte ou folhas de excel à espera dos "inputs" certos; são seres humanos autónomos, com vida própria. Dêem uma folga aos pais.

As dificuldades continuam.

No tempo antigo, os pais batiam, davam palmadas e estalos com naturalidade. Hoje, uma palmada dá remorsos para um ano. É uma evolução positiva, quero ser um pai, digamos, constitucional e não um pai tirano. Mas, como se sabe, a democracia é mais caótica e trabalhosa do que a tirania.

No tempo antigo, havia algo que garantia a sanidade dos pais: a rua. Ainda nos anos 80 e 90, nós podíamos brincar o sábado e o domingo inteiros na rua sem nenhum adulto por perto. Se nos dava liberdade, responsabilidade e calo, a rua dava sossego aos pais, que podiam ficar sozinhos em casa. Isso desapareceu. Hoje, os fins-de-semana podem ser sufocantes. Os pais têm de andar com os filhos de um lado para o outro. A rua tem de se recriada em espaços fechados e vigiados pelos adultos. Claro que este cerco à vida adulta desgasta, claro que adia o primeiro ou o segundo filho, claro que torna o terceiro num acto heróico. Fiquemos na rua. No tempo antigo, havia sempre alguém na rua para tomar conta das crianças, uma tia, uma avó ou prima, um avó, um tio. Os familiares estavam perto uns dos outros. Ir ao médico ou ir ao cinema não era um drama nem uma operação logística (babysitter). As famílias eram grandes e apoiavam-se. Hoje, as famílias são minúsculas, envelhecidas e fragmentadas. Uns estão em Coimbra, outros em Lisboa, outros no estrangeiro. Mesmo pensando apenas numa área metropolitana, as distâncias são enormes. Viver em Lisboa e ter o irmão em Loures é impraticável para o dia-a-dia. O tio de Loures não pode apoiar o dia-a-dia do sobrinho de Lisboa, e vive-versa.

Termino com uma confissão. Os pais de crianças (plural; dois ou mais) sentem-se sozinhos, isolados, sem reconhecimento, sem compreensão dos outros. Os mais velhos, os nossos pais e avós, não percebem bem as nossas dificuldades, porque medem as coisas pelos anos 80 e 60. Mas, como já vimos, não há comparação possível. O grau de exigência de 2018 não tem comparação com o de 1988 ou 1968. Além da inflação perfeccionista na escola e nas actividades (da piscina ao karaté), além das obsessões médicas e alimentares, além do turismo das festas, além da ausência da rua, há ainda outro ponto fundamental: o inferno de estímulos visuais que é o tandem tv cabo - internet. Um miúdo em 2018 recebe mais estímulos visuais num dia do que eu recebia numa semana ou mais. Como não têm este factor em mente, os avós muitas vezes são injustos com os pais. Por outro lado, os pais de hoje olham para a sua própria geração e vêem muita gente a não partilhar o fardo. Por uma série de razões, a minha geração não abraçou a família como valor central. Às vezes, confesso, fico a remoer, Estamos pra'qui quase sozinhos a levar o barco às costas? Estamos pra'qui a fazer sacrifícios enquanto tudo à volta está na vidinha descansada sem filhos? Bem sei que tenho de ser como o filho mais velho da parábola, tenho de aceitar e passar à frente. Mas custa.

Em 2018, ser pai ou mãe é um trabalho esgotante do que não tem o reconhecimento merecido junto dos avós que foram pais há décadas, junto dos eternos trintões sem filhos, junto dos média que destratam o tema como “lifestyle”, junto do estado que não respeita o pai contribuinte, junto da segurança social que nunca colocará os pais à frente dos não-pais no cálculo das reformas. Podem berrar, podem espernear, mas velhos e novos têm de ouvir: ter filhos (plural) nunca foi tão difícil. Quando passarem ao pé de um pai ou mãe com dois ou três filhos à ilharga, tenham por favor a humildade para dizer, Obrigado!

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