visao.sapo.ptMafalda Anjos - 7 dez 15:56

A força dos Jacques Bonhommes

A força dos Jacques Bonhommes

Enquanto as elites, fechadas nos seus carros elétricos e escritórios de design, se mantiverem surdas às dificuldades do cidadão comum, maior será a revolta dos Zés-Ninguém

Difuso. Explosivo. Transversal. Imparável. O movimento dos coletes amarelos começou como uma pequena contestação e, como um furacão, acabou por crescer e varrer tudo à sua passagem. As elites ainda estão a digerir o que se passou e a tentar fazer sentido de um movimento difícil de qualificar por ser tão heterogéneo, e já Emmanuel Macron tinha sido obrigado a emendar a mão e a ceder às reivindicações perante a atmosfera de pré-guerra civil. Os coletes amarelos não tomaram a Bastilha, mas tomaram o Arco do Triunfo: as imagens das palavras garrafais “Macron démission” gravadas a graffiti ficarão para a História como o símbolo da vitória dos contestatários. “Agora é tempo de diálogo”, afirmou dias depois o Presidente, metendo a viola no saco e suspendendo o aumento fiscal dos combustíveis por seis meses.

Por todo o mundo ecoou o sonante grito de raiva do povo francês. Macron, o jovem líder que foi eleito, antes de fazer 40 anos, como uma alternativa refrescante ao statu quo, é hoje vítima do próprio discurso de contestação que o elegeu. Afinal o statu quo é ele, pensam agora, menos de dois anos depois, os franceses das classes mais desfavorecidas, da França rural, dos operários, da classe média empobrecida, das segundas gerações de emigrantes. Nada se pôs “em marcha”, como ele prometia. Tudo continua na mesma, e o ressentimento e a frustração estão mais fortes do que nunca, tal como a taxa de rejeição do Presidente.

Este movimento não se parece com as mobilizações dos anos 80-90, em torno do preço da gasolina, que foram organizadas pelos sindicatos dos transportadores e camionistas, nem tão-pouco com os “bonnets rouges” que assolaram a Bretanha com os seus gorros vermelhos em 2013. Os coletes amarelos não têm uma organização política nem sindical nem um rosto – têm apenas a força do descontentamento que usa as redes sociais como amplificador da cólera comum.

Bem-vindos à política nos novos tempos digitais, em que a tolerância com os dirigentes e as suas medidas é muito menor, e em que as vagas de indignação assomam proporções avassaladoras na net e saltam para a rua em forma de manifestações, contestação ou votos de protesto.

A força dos coletes amarelos será mais semelhante às “jacqueries” do século XIV, como sublinhou numa entrevista ao Le Monde o sociólogo francês Alexis Spire. Durante a Guerra dos 100 anos, uma insurreição camponesa, iniciada de forma espontânea, que ficou conhecida como a Revolta dos Jacques, opôs o povo no Norte de França contra a nobreza reinante, espelhando o desespero em que viviam as camadas mais pobres da sociedade depois da peste negra. Para a História ficou a força coletiva do “Jacques Bonhomme”, a expressão francesa que equivale ao “Zé-Ninguém” e que deu nome a este tipo de protestos, cuja ameaça assombraria as elites durante séculos.

À época, a revolta foi esmagada em menos de um mês, morrendo mais de 20 mil camponeses. Só que hoje os Zés-Ninguém têm uma força incomensurável: a do passa-palavra digital, que faz libertar os roncos de descontentamento dos povos que passam ao lado de grande parte das classes dirigentes. Enquanto estas, fechadas nos seus carros elétricos e escritórios de design, se mantiverem surdas às dificuldades do cidadão comum, gerindo países por quadros de Excel e planos estratégicos desenhados por consultores high profile das melhores universidades, maior será a revolta dos Zés-Ninguém. Sejam eles os coletes amarelos em França, os que desejam o Brexit no Reino Unido, os eleitores de Trump nos Estados Unidos da América ou os adeptos da AfD, na Alemanha, que não querem acolher refugiados. A revolução digital do século XXI não é apenas tecnológica – é com toda a certeza também política: dispensa intermediários e empodera como nunca o Zé-Ninguém.

(Editorial da VISÃO 1344, de 6 de dezembro de 2018)

16
1