visao.sapo.ptMiguel Araújo - 6 dez 08:21

Porque não devemos gostar d’Os Quatro e Meia

Porque não devemos gostar d’Os Quatro e Meia

Se forem tocar à sua terra, não faça caso, evite, tape os olhos e os ouvidos. Não vá, por algum azar, calhar de entrar e ficar arrepiado do princípio ao fim

D.R.

Quem? Os Quatro e Meia. São uma banda de Coimbra. Decore este nome, caro leitor, pois deverá esquecê-lo urgentemente. Porque é uma banda, um conjunto de música popular portuguesa, digamos assim, que deverá merecer o nosso mais ativo e altivo desprezo. Eles são o Tiago, o Ricardo, o João, o Mário, o Pedro e o Rui. A maioria deles são médicos do Hospital de Coimbra, mas também há por lá engenheiros, gente cujos ofícios a tempo inteiro lá lhes permitem algum tempo livre para brincarem às cantigas. Irritante, portanto. Mas não é tanto por isso que devemos desprezá-los. Têm um disco editado, apenas um, chamado Os Pontos nos Is. Há dias, subiram ao palco do Coliseu do Porto, uma das mais prestigiadas e cobiçadas salas deste país, cujo acesso por mérito próprio representa o dourado Shangri-la a que todo o artista nacional, íntima ou abertamente, ambiciona ascender um dia. Isto, sim, já é bastante irritante. Fizeram-no sem o apoio das rádios, sem o apoio da imprensa (pouca, cada vez mais pouca) especializada deste país, sem pertencer à “engrenagem”. Apenas com um punhado de canções, de apenas um só álbum, o de estreia, que foram cantadas do princípio ao fim por uma legião de pessoas de várias idades que acorreu a essa sala, esgotando-a como poucas vezes vi, vinda de vários pontos do País, sabe-se lá como, sabe-se lá porquê. Isto vai contra todos os cânones.

Não era suposto. Repito: Os Quatro e Meia fizeram, com um só disco, o que a maioria dos artistas portugueses não chega a fazer nunca. Decore este nome para se lembrar de o esquecer de imediato. Nós, caro leitor, somos pessoas sofisticadas, urbanas. Sabemos tudo que há para saber sobre o Tony Wilson e a “Madchaster” Scene, recitamos de cor a história da Sub Pop Records, sabemos tudo sobre a cena de e, pior ainda, reconciliar-se com a infância que passou a adolescência toda a querer não ter tido. Como se de repente lhe pusessem um espelho à frente e, de súbito, como que por milagre, a imagem devolvida não fosse tão hedionda como a gente passou a vida toda a supor.

(Crónica publicada na VISÃO 1343 de 29 de novembro)
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