visao.sapo.ptAntónio Lobo Antunes - 6 dez 08:24

O meu avô e eu Nós – 1 (crónicas pequeninas)

O meu avô e eu Nós – 1 (crónicas pequeninas)

A nossa viagem de volta a casa passou-se num silêncio absoluto. As últimas palavras de André Brun foram – Não deixes que me façam uma estátua equestre, quero uma estátua divanestre e piscaram o olho um ao outro ao imaginarem André Brun estendido num divã de bronze, todo repimpadinho

Ilustração: Susa Monteiro

Eu moro no último andar de um prédio muito alto, de traseiras encostadinhas à Penitenciária de Lisboa, de maneira que vejo a cadeia quase toda e oiço os gritos dos presos durante o futebol dos recreios. Foi ali que o meu avô, . Já no carro, de volta a casa, disse-me

– O André é um homem a sério

e falou-me de vários actos de bravura dele. Espero do coração que a estátua divanestre de André Brun esteja numa praça de Lisboa, com ele, de chinelos, confortável no seu sofá. De chinelos mas de bronze, é claro. Chegámos em silêncio e o avô instalou-se numa cadeira do jardim a olhar os peixinhos do lago, de mão espalmada no meu ombro:

– Não há nada mais importante do que um amigo

com as pupilas tão grandes dentro das minhas. Nunca nos tínhamos olhado assim. Só eu para si, avô, quando morreu. Morreu o tanas. E há-de ter a sua estátua divanestre mesmo que eu a pague sozinho. Você com a sua boquilha nos dentes e a gente a olhar um para o outro, cheios de amor.

(Crónica publicada na VISÃO 1343 de 29 de novembro)

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