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Portugal, a China e a síndrome do “bom aluno”

Portugal, a China e a síndrome do “bom aluno”

Não tenhamos ilusões: a geopolítica tem horror ao vazio e a China já está a assumir hoje a liderança em várias frentes.

Flaubert, no seu livro Bouvard et Pécuchet, que é uma alegoria premonitória da impotência política e apatia que estamos a viver, põe uma das suas personagens a dizer que quando a Europa for atingida pela impotência será “regenerada pela Ásia”. Portugal já experimentou isto: quando em 2011, na sequência da crise financeira e da dívida soberana, o país entrou em bancarrota e sofreu uma intervenção externa, todos os investidores fugiram menos a China. Os chineses compraram ativos na banca, seguros, energia e imobiliário. A China sabe o que faz, pensa a longo prazo, é a segunda economia do mundo e em breve será a primeira e é hoje um parceiro de primeiro plano no xadrez internacional.

Quando, no princípio do século XXI, a hierarquia chinesa anunciou que o país se ia “abrir ao mundo”, isso foi recebido com ceticismo no Ocidente. No entanto, é um dos grandes acontecimentos geopolíticos deste século. A China extraiu todas as ilações do declínio que o país sofreu a partir do século XV quando, no auge das navegações chinesas no Pacífico, no Índico, no Golfo Pérsico e na Costa Oriental de África, a dinastia Ming decidiu fechar o país ao exterior e virar-se para dentro. Com isso terminou o comércio e as viagens da frota chinesa, comandada por Zhang He, uma das grandes figuras da história náutica a par de Vasco da Gama e de Ibn Majid. Essa decisão catastrófica lançou a China, então a grande potência económica do planeta com um PIB que representava 25% do PIB global, num ciclo de empobrecimento brutal.

Os chineses sabem que decidir bem e pensar a longo prazo é crucial para o sucesso dos países. E se analisarmos a história recente, a China tem saído como vencedora das crises e dilemas geopolíticos. O programa de 1978 das quatro modernizações de Deng Xiaoping revolucionou a agricultura, a indústria, a economia e lançou a China num ciclo de desenvolvimento económico sem precedentes. Quando a União Soviética colapsou em 1991, Deng viu aí uma oportunidade de ouro para acelerar o desenvolvimento e começar a ganhar protagonismo no plano internacional. Reorientou a utilização dos recursos, até então concentrados na fronteira com a URSS, para acelerar no litoral as Zonas Económicas Especiais. Em 2001, quando se deu o ataque às torres gémeas em Nova Iorque, os chineses estudaram a reação dos EUA, que erigiram o terrorismo como o inimigo a abater. Compreenderam este erro estratégico: o terrorismo é uma tática e converter uma tática no inimigo não dá bom resultado. Com os EUA focados na “guerra ao terror” e fazendo intervenções desastradas, como a do Iraque, a China expande o seu protagonismo no mundo, amplia as suas redes comerciais, políticas e diplomáticas e entra para a Organização Mundial do Comércio. Este é um facto capital.

A China usa como ninguém o seu “soft power” e levou a novos patamares a fórmula de Deng conhecida como a dos 28 caracteres: ”Observar com calma as situações; enfrentar a mudança com confiança; manter um perfil baixo; evitar posições destacadas; nunca tomar a dianteira.” Esta é uma súmula da astúcia política e estratégica e da dissimulação. Só que hoje isto não chega. A crise financeira e económica do Ocidente em 2007 e 2008 descredibilizou o paradigma político e económico liberal junto de muitos países. Com a chegada de Trump à Casa Branca, os EUA cometem outro erro estratégico ao promoverem o “nacionalismo” exacerbado, as guerras comerciais, a destruição das instituições multilaterais e a erosão das relações com os aliados. A China compreendeu que tudo isto a empurra para um papel cada vez maior na cena internacional.

Não tenhamos ilusões: a geopolítica tem horror ao vazio e a China já está a assumir hoje a liderança na luta contra as alterações climáticas, no comércio mundial, na reconfiguração das rotas marítimas, na reformatação das plataformas logísticas e das cadeias de produção e abastecimento que sustentam a economia mundial. O Ocidente ainda não percebeu a extensão desta mudança. Existem preocupações legítimas porque a China tem um regime autoritário que funciona com base na ditadura de um partido e restringe as liberdades cívicas. Além disso, a China é uma potência revisionista que, como a Rússia, quer reformatar a ordem internacional para servir os seus interesses. Mas isto não pode ser confundido com as relações comerciais e económicas que os países têm de dinamizar para assegurar a sua estabilidade e prosperidade. Nesse sentido o que é que Portugal vai fazer em relação à China no âmbito da visita do Presidente Xi Jinping?

Portugal prepara-se, sucumbindo às pressões da Alemanha, da França e da UE, para dizer que não vai aderir ao projeto chinês da Rota da Seda. Isto é um erro trágico. O Projeto da Rota da Seda tem uma dimensão terrestre e outra marítima e destina-se a ligar a China à Ásia Central, Golfo Pérsico e Europa. É um projeto gigantesco que cobre cerca de 65% da população mundial, mais de 30% do PIB do planeta e mais de 30% do fluxo de bens e serviços. Não se trata de um mas de 12 Planos Marshall. O interesse da China é evidente: reformatar o comércio mundial de acordo com os seus interesses; ter acesso a recursos minerais e estratégicos para alimentar a sua economia; construir e gerir uma imensa rede de infraestruturas. É um projeto para estabelecer o paradigma da conetividade neste século. Portugal não deve ficar de fora.

As questões geopolíticas vão resolver-se com a interação da China com as outras grandes potências. Para Portugal, o importante é assegurar a centralidade dos seus portos como o de Sines e outros nesta rede mundial; é inserir o país nas rotas comerciais, energéticas, financeiras e logísticas; é abrir o imenso mercado chinês às exportações portuguesas e dar escala às nossas empresas; é atrair novo investimento chinês mas produtivo para setores como a tecnologia, as energias renováveis, a robótica, a ciência dos materiais, as nanotecnologias, as ciências da saúde, a exploração de recursos nos oceanos, a engenharia marítima, a mobilidade elétrica. A China quer instalar fábricas na Europa para veículos elétricos, é uma aposta estratégica porque sabe que este conceito, se triunfar, rompe com o paradigma existente. A cooperação com a China pode elevar o Porto de Sines a um papel de primeiro plano no comércio mundial porque é um porto de águas profundas. Novos terminais serão necessários. Outros portos portugueses beneficiarão e seguir o comércio é seguir a riqueza. Os chineses estão interessados nos Açores, o Presidente Xi já visitou a ilha Terceira, que pode vir a ser um grande centro tecnológico para investigar os oceanos, o clima, o desenvolvimento sustentável e ser uma âncora para explorar os recursos marinhos. São oportunidades de desenvolvimento económico, de diversificação da economia, de criação de novos motores de riqueza.

Será uma pena se o país voltar a vestir a pele do “bom aluno” e sucumbir às pressões europeias, como o fez na negociação da integração e sacrificou a agricultura, a indústria, as pescas. Convém não repetir este erro. A Alemanha e a França estão preocupadas com o investimento chinês em Portugal? Mas a China investiu quatro vezes mais na Alemanha e três vezes mais na França. Eles estão preocupados com a estratégia europeia de conectividade? Quando visitam Pequim, celebram pactos comerciais, fazem negócios, telefonam para Lisboa? Portugal é um país comprometido com a UE, com a aliança transatlântica, com os EUA, com a NATO. Não tem nenhuma lição a receber a esse nível.

Meus senhores: não confundam as coisas e nesta fase não basta assinar um memorando de entendimento com a China. Quando a visita terminar e os holofotes se apagarem os chineses farão o seu balanço, manterão as aparências, farão algumas coisas, poucas, com Portugal e há o risco de apostarem no porto do Pireu, nos portos do norte da Europa, nas rotas terrestres, nos países da Europa Oriental e Central que já aderiram à Rota da Seda, na fábrica de veículos elétricos em Espanha. Isso será muito triste para o “bom aluno” que pode falhar de novo o seu encontro com a história.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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