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Adaptação ou insucesso e abandono: As primeiras semanas no Ensino Superior

Adaptação ou insucesso e abandono: As primeiras semanas no Ensino Superior

Se algumas fragilidades dos estudantes estão associadas à sua origem sociocultural e percurso académico anterior, então as instituições têm a responsabilidade de implementar respostas diferenciadas.

Completados dois meses de frequência do Ensino Superior (ES), os estudantes fazem agora o seu balanço mais ou menos positivo quanto à forma como superaram e se estão a ajustar aos desafios e exigências académicas. Entre várias exigências, o ES requer dos estudantes um pensamento crítico face à diversidade de matérias a estudar, uma capacidade de auto-regulação face à diversidade de horários e de solicitações académicas, ou uma maior autonomia, pois, afastados dos pais, têm que assumir a gestão dos seus recursos financeiros e tarefas quotidianas.

O tipo de aulas, a mancha semanal de horários, a semestralização das unidades curriculares, o relacionamento mais distante dos professores ou os modelos de ensino e de avaliação são situações não vivenciadas no Ensino Secundário, requerendo dos estudantes maior responsabilidade na presença e participação nas aulas, maior iniciativa pessoal no contacto com os professores e os colegas para esclarecer dúvidas ou completar apontamentos e trabalhos, ou maior organização dos seus materiais de estudo pois na generalidade das unidades curriculares não existem manuais.

Por outro lado, tomando algumas caraterísticas dos estudantes, podemos antecipar desfasamento entre objetivos de carreira e o curso que se frequenta quando o ingresso é gerido por um sistema de numerus clausus (no presente ano letivo 40% dos estudantes, segundo dados oficiais, não frequentam o par curso/instituição de primeira escolha). Vários destes estudantes acabam por se adaptar, explorando possibilidades de carreira no curso em que foram colocados, e, quando as aulas, docentes e colegas lhes são favoráveis, mais fácil se torna ultrapassar desilusões pela não-frequência do curso inicialmente desejado.

Aspeto importante na sua adaptação é a rede de suporte social construída. Para todos os estudantes, mas particularmente para aqueles que saíram de casa dos pais ou se afastaram dos amigos da adolescência, é fundamental construir novas amizades e relacionamentos seguros que possam ajudar a ultrapassar saudades e sentimentos de solidão, assegurar colegas que ouçam confidências e respondam às necessidades sociais e afetivas tão importantes na vida destes jovens-adultos em processo de conquista da sua identidade e autonomia.

Uma outra área a merecer referência é a das competências cognitivas, assim como os conhecimentos adquiridos no Ensino Secundário. Nalguns cursos, as unidades curriculares do 1.º ano estruturam os seus conteúdos pressupondo percursos de sucesso no Ensino Secundário, e a adaptação e sucesso dos estudantes pressupõem níveis adequados de conhecimentos prévios. Por outro lado, o ES confronta os estudantes com fórmulas, diversos pontos de vista ou várias teorias alternativas, requerendo deles um pensamento crítico e, ao mesmo tempo, a superação de um pensamento dualista que procura ler a realidade separando o certo e o errado, para iniciar um pensamento mais relativista e conciliador de prós e contras na ponderação dos novos conhecimentos a estruturar.

As dificuldades na adaptação académica dos estudantes são frequentes e a generalidade dos estudantes superam-nas com sucesso. A investigação aponta que a sua não-superação está na origem do insucesso e do abandono precoce do ES, registando-se internacionalmente taxas mais elevadas de abandono no decurso do 1.º ano.

Neste sentido, a par da responsabilização dos jovens pela aquisição dos níveis de autonomia e competência necessários para fazer face às exigências próprias do ES, importa que as instituições e os docentes saibam compreender a situação e facultem formas de apoio que ajudem os estudantes mais fragilizados. Ao insucesso académico segue-se, com frequência, o abandono sendo vários os prejuízos para os jovens, famílias, sociedade e, também, para as instituições de ES. Nesta linha de pensamento importa que, a par da maior democratização que hoje se observa no acesso ao ES em Portugal, se democratizem também as condições de permanência e de sucesso dos estudantes uma vez ingressados. Se algumas fragilidades dos estudantes estão associadas à sua origem sociocultural e percurso académico anterior, então as instituições têm a responsabilidade de implementar respostas diferenciadas que favoreçam a adaptação e sucesso académico dos seus estudantes!

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