observador.ptJoão Marques de Almeida - 11 nov 00:03

Sim, os liberais existem e defendem a tourada e a caça

Sim, os liberais existem e defendem a tourada e a caça

Obviamente, não ocorre a Graça Fonseca fazer uma distinção entre as suas opiniões e o exercício do cargo de ministra, o que de resto mostra a sua impreparação para o lugar.

Nas últimas semanas, tem-se assistido a uma preocupação emocionante com o “estado” da direita liberal. Muitos dos cronistas que, durante os anos de Passos Coelho em São Bento, atacaram com um zelo feroz os “neo-liberais” lamentam agora o “fim da direita liberal.” Não se preocupem e poupem as lágrimas. A direita liberal está viva e recorre ao seu liberalismo para defender as touradas e a caça, actividades distintas da história e da cultura portuguesa.

Devo dizer que é muito raro estar de acordo com Manuel Alegre, mas desta vez concordo em absoluto com o nosso socialista conservador. Indignou-se, e cheio de razão, com os ataques da nova ministra da Cultura à tourada. E a indignação de Alegre resulta da sua defesa da liberdade, e este é o ponto central. Alegre reconheceu que o governo socialista, por vezes, ameaça a liberdade dos portugueses. Bem vindo ao clube dos liberais portugueses.

Devo dizer que não costumo assistir a touradas. Não sou um aficionado. Via quando era mais novo – quando os canais de televisão transmitiam touradas – e tinha uma grande admiração pela arte dos cavaleiros e pela coragem e valentia dos forcados. Julgo que nunca irei a manifestações a favor das touradas, mas sei muito bem que fazem parte da cultura e das tradições portuguesas. Um dia, trabalhava na Comissão Europeia, e participei numa discussão sobre as touradas em Portugal e em Espanha. Colegas meus, dos países do norte da Europa, descreviam a tourada como uma manifestação bárbara e não conseguiam entender como é que alguém que trabalhava em Bruxelas podia gostar de touradas. Se pudessem, proibiam as touradas em toda a Europa como um sinal de “progresso”. Não dei muita importância à opinião de suecos e holandeses, sobretudo porque a Comissão Europeia não tem o poder para acabar com as touradas (e espero que nunca tenha para bem da Europa).

Tudo isto vem a propósito da recusa da nova ministra da Cultura de reduzir o IVA das touradas, descriminando em relação a outros espetáculos. O mais extraordinário foram os argumentos usados para justificar tal decisão. Graça Fonseca recorreu a dois argumentos: a sua opinião pessoal sobre a tourada e a sua concepção sobre a ideia de “civilização.” Não evocou jurisprudência, não apontou ameaças à sociedade ou à segurança dos portugueses, nem citou estudos credíveis e independentes. A sua decisão está sustentada apenas na sua opinião. Do alto da sua arrogância e dos seus instintos totalitários, disse aos portugueses: “não gosto, não acho civilizado, por isso discrimino.”  Não deixa de ser irónico, e muito triste, que uma ministra que terá sentido o peso da discriminação não sinta qualquer problema em tomar uma decisão discriminatória.

Seria um erro julgar que esta intolerância ideológica se limita às touradas. O problema é a cultura política, anti-liberal, das esquerdas radicais. Hoje são as touradas, amanhã serão outras actividades. E aqui poderíamos perguntar por que razão pessoas de esquerda, como Manuel Alegre e outros (por exemplo, Miguel Sousa Tavares), não seguem uma linha consistente na relação entre políticas públicas e liberdade individual. Se a imposição de gostos civilizacionais, excluindo a tourada, é uma ameaça à liberdade, por que razão a imposição de políticas de educação e de saúde que limitam ou impedem as escolhas individuais, não é igualmente uma violação da liberdade? No caso da tourada, os argumentos de Alegre e de Sousa Tavares colocam a liberdade individual num patamar anterior e mais fundamental do que o poder do Estado. É uma posição tipicamente liberal. O pensamento socialista recusa essa visão, afirmando que compete ao Estado definir a liberdade individual, pela simples razão de que não olham para a liberdade como um direito natural. A condição natural é de exploração e de conflitos individuais.

Desconfio que a caça será o próximo alvo dos ataques das esquerdas radicais. Não caço, nem nunca cacei. Mas venho de uma família com caçadores e grandes apaixonados pela caça. Ouvi dezenas de histórias sobra caçadas e vi o entusiasmo genuíno de quem conta essas aventuras. Curiosamente o meu gosto pelo surf ajuda-me a entender o gosto pela caça. Uns apanham ondas, outros caçam animais. Mas o despertar cedo, por vezes ainda de noite, guiar pela estrada fora com amigos para encontrar as melhores ondas ou a melhor caça, partilhar as ondas ou os trilhos da caça e, depois, uma boa refeição e uns bons copos com os cúmplices do mar ou do campo, e o regresso a casa com aquela maravilhosa mistura de cansaço e satisfação; tudo isto é comum ao surfista e ao caçador. Só quem surfa, ou quem caça, é que sabe que se nos tiram isto, tiram-nos muito do que vale a pena na vida.

Mas este modo de viver nada diz às esquerdas radicais. Estão demasiado ocupadas a tentar conquistar o poder, para impor os seus gostos e as suas ideias aos outros. Esta gente constitui uma ameaça permanente à liberdade dos portugueses. A tourada e a caça são importantes, mas há outras coisas tão ou mais importantes, onde a nossa liberdade de escolha também está ameaçada. Seria óptimo que nessas questões, os socialistas que amam a liberdade estivessem ao nosso lado, ao lado dos liberais, em vez de nos acusaram de “neo-liberais.” Não tenham dúvidas, as esquerdas radicais, e algumas estão no PS, tudo farão para impor a sua ideia de ‘liberdade’ a todos os portugueses.

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