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Festival de Filosofia de Abrantes: Entre o humano, o natural e o artificial

Festival de Filosofia de Abrantes: Entre o humano, o natural e o artificial

Vivemos “à beira de um ataque cardíaco (a guerra nuclear), uma esclerose múltipla (a crise global do ambiente) e a morte do humano (a inteligência artificial)”. Em Abrantes, os desafios do futuro são respondidos pelo pensamento. Na conferência de abertura do Festival de Filosofia organizado pela Câmara Municipal, Viriato Soromenho-Marques propôs uma solidariedade operativa e global. E Xavier Silva, de 10 anos, uma ilha “diversa”, baseada na harmonia entre o humano, o natural e o artificial

“O que pode acontecer se nem tudo correr como planeado?”. É natural que num Festival de Filosofia, como o que a Câmara Municipal de Abrantes promove até ao próximo dia 18, surjam muitas perguntas. Esta é de palmo e meio. Com 10 anos, Xavier Silva interessa-se pela Inteligência Artificial, tema desta segunda edição do festival, e sabe que é coisa do futuro. Também já percebeu que neste campo de grandes avanços tecnológicos são tantas as possibilidades, quantos os perigos. É por isso que, a convite da sua professora Lurdes Martins, da Escola do Ócio da Associação da Palha, que organiza atividades de complemento curricular, e acompanhado por uma dezena de colegas, foi à conferência de abertura do Festival de Filosofia, este ano a cargo de Viriato Soromenho-Marques.

A conferência não podia ter vindo em melhor altura. Com o entusiasmo e o olhar de um curioso, Xavier Silva explica. A partir do tema do fantástico, que permite convocar vários ramos do saber, da geografia à História e à Filosofia, Lurdes Martins desafiou os alunos a criar uma ilha imaginária (mas com uma âncora na realidade).

A do pequeníssimo filósofo será “muito diversificada” e “com bastante inteligência artificial”, garante entre sorrisos. Qual jangada de pedra saramaguiana, a ilha de Xavier Silva situar-se-á a meio do Atlântico, com características, na fauna e na flora, de três continentes: Europa, África e América. “Com exercícios como este, entre o estudo e o lúdico, o importante é levar os alunos a fazer perguntas e a desenvolver o pensamento crítico”, explica Lurdes Martins.

Perguntas e pensamentos críticos (e ousados) não faltaram na intervenção de Viriato Soromenho-Marques. Numa desafiante conferência de uma hora, o professor universitário e ensaísta, colunista do JL, cartografou os desafios e dilemas da Inteligência Artificial. Apresentando a filosofia precisamente como a arte de fazer perguntas e da navegação do nosso tempo, começou por recordar a decisão anacrónica dos samurais japoneses. No século XVII, já com acesso às armas que os portugueses lhes apresentaram (e venderam), os soldados imperiais decidiram combater apenas com a espada e o arco. À luz do progresso, sobretudo do mais mortífero, foi certamente um retrocesso. Hoje, pelo contrário, quando talvez seja necessário abrandar alguns avanços, não seremos capazes de tomar uma decisão desse género, sugere Viriato Soromenho-Marques. O que nos leva a uma pergunta: “Por que razão a sociedade atual se assemelha tanto a um comboio sem travão?”.

Seriam necessárias muitas edições do Festival de Filosofia de Abrantes, que também conta com a participação das autarquias de Mação e do Sarboal, para encontrar as respostas que a pergunta reclama. Nessa impossibilidade, o ensaísta avançou para um voo panorâmico à Inteligência Artificial e à sua articulação com a Ecologia, uma importante área da sua intervenção intelectual e cívica. “A Inteligência Artificial, na sua versão mais leve, já esta no nosso dia a dia. Nos telemóveis, em algumas áreas de trabalho, na saúde, na defesa e até na justiça”, defendeu. “É obviamente um instrumento ao nosso serviço. Mas de outra ordem. Não tem nada a ver com as ferramentas tradicionais, como uma enxada ou um aqueduto. Por isso, lança-nos novos problemas”.

A principal ameaça é a que George Orwell descreveu no seu famoso romance 1984: a criação de um Big Brother. “A questão que se coloca hoje é perdermos o controlo das nossas vidas”, adianta Soromenho-Marques. E exemplifica: recentemente, a China criou um “social credit system”, que poderá vir a qualificar cidadãos, abrindo ou fechando portas consoante o respectivos “desempenhos”.

“A Humanidade já viveu melhores dias”, lembrou o conferencista. O pessimismo, que na sua opinião por vezes é outra forma de arrogância, pode levar-nos a considerar o momento histórico em que nos encontramos como um período ultrapassado, apenas um meio para um fim ainda desconhecido. “Somos hoje criadores de natureza”, lembrou, citando Hannah Arendt. “Com a fusão nuclear, deixámos de ser predadores para nos transformarmos em produtores de novas e inesperadas combinações físicas”.

Com a automatização do trabalho, não são só os muitos milhões de postos de trabalho que estão em causa. Os sistemas políticos também. Não é um problema que decorre da Inteligência Artificial, mas que se confunde com ela. Financiamento ilegais de campanhas, falta de autonomia dos Estados na definição dos seus orçamentos, bolhas digitais que impõem novos olimpos politeístas. Tudo isto exige um enorme esforço de “decisão e de regulação”. Até porque este não é um problema exclusivamente social. “A Gaia, a mãe terra para a mitologia grega, está a contra-atacar", alerta Viriato Soromenho-Marques. “Estamos a lutar contra moinhos de vento, mas continuamos a viver na terra. E as alterações climáticas agravam-se. Como a Inteligência Artificial, também já fazem parte da nossa vida. Se não agirmos agora estaremos condenados a uma terra quente e sem vida.”

O que fazer, então, nesta época de tanta mudança? O que dizer a um jovem como o Xavier Silva? Viriato Soromenho-Marques responde na conclusão da conferência. “É verdade que estamos entre um ataque cardíaco (a guerra nuclear), uma esclerose múltipla (a crise global do ambiente) e a morte do humano (a inteligência artificial)”, afirma. “Mas estamos aqui, na luta, a História ainda não terminou. Temos muitas adversidades, mas muitos meios à nossa disposição”.

Na sua opinião, a solução para alguns dos problemas atuais pode passar por uma partilha federal de soberania, uma “governança global”, com leis vinculativas para todos os estados. “Temos de encontrar uma solidariedade operativa para a casa comum da Humanidade”, defende, recordando o projecto que tem vindo a desenvolver com outros intelectuais europeus, o SOS Treaty. “É uma cooperação compulsória, obrigatória, premente, porque o que cada Estado consegue fazer sozinho está à vista. É muito limitado”.

Neste contexto, a tecnologia não pode, como no passado, tentar substituir ou aumentar a nossa força. Pelo contrário, tem de ter “consciência da nossa fragilidade”. A mensagem final é forçosamente positiva: “Com o apoio da Inteligência Artificial, podemos dedicarmo-nos não só ao que conhecemos, mas sobretudo ao que sabemos que desconhecemos, o que é sempre uma fonte de esperança, e o que podemos (e devemos) fazer. Só assim conseguiremos afirmar, no futuro, que estes tempos de mudança foram os melhores de toda a História da Humanidade, aqueles em que conseguimos vencer os nossos piores fantasmas”.

Para Xavier Silva, o otimismo também é o caminho, mas as suas reservas, tão parecidas com as de Viriato Soromenho-Marques, mantêm-se. Preocupa-o a imagem de uma terra aquecida, descontrolada. “Se não fizermos nada e as alterações climáticas continuarem, podemos ficar todos debaixo de água, o que não é nada bom”. Talvez na sua ilha, que aos poucos começa a definir com a ajuda da professora Lurdes Martins e dos seus colegas, encontre, como deseja, o equilíbrio entre o humano, o natural e o artificial. Essa é, ao fim e ao cabo, a principal resposta que a Filosofia equaciona. E o futuro exige.

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