observador.ptobservador.pt - 10 nov 17:46

Carpool. “Nenhum deputado do Bloco de Esquerda tem a password dos outros”

Carpool. “Nenhum deputado do Bloco de Esquerda tem a password dos outros”

O líder parlamentar do Bloco, Pedro Filipe Soares, distancia-se da polémica Silvano garantindo que essas práticas não existem no Bloco. Sobre o relacionamento com o PS, até cita Cavaco Silva

O líder parlamentar do Bloco de Esquerda mora perto da sede do Partido Socialista e foi de lá que partiu o Carpool, com Pedro Filipe Soares a seguir no carro do Observador até ao pavilhão do Casal Vistoso, onde decorre a Convenção do Bloco de Esquerda.

Pedro Filipe Soares diz que a ida do Bloco de Esquerda para um Governo não depende de ter os 20% apontados por Louçã como fasquia, mas sim do equilíbrio de forças e de compromissos para a concretização de políticas. Mesmo assim, lançou nomes de vários possíveis ministros com a marca “Bloco”: Mariana e Joana Mortágua, na Educação, Mois��s Ferreira, na Saúde, Jorge Costa, na Energia, Luís Monteiro, no Ensino Superior ou José Soeiro no Trabalho.

Veja aqui o vídeo:

Dá-se a coincidência de estarmos a sair de perto da sede do PS, com quem o Bloco acabou por ter um relacionamento muito mais próximo do que pensou quando entrou nestas andanças, no final dos anos 90.
Nós sabemos que a política é feita de parte de uma realidade dinâmica, faz parte aprendermos e ajustarmos a política e as nossas escolhas ao que o contexto nos permite. E em 2015, temos uma decisão que eu creio que é acertada, de pertencer a uma maioria parlamentar que viabilizou um Governo do PS. Mas não o fizemos nem de forma acrítica, nem sem garantir um conjunto de avanços que foram determinantes para fazer essa escolha política.

Faz hoje precisamente três anos que foram assinados esses textos de entendimento entre os vários partidos e o PS. O balanço que faz é positivo. Sem hesitações?
Sem hesitações nenhumas. É positivo. Não sem crítica. Há coisas que podiam ter sido diferentes e melhores. Mas sem hesitação. Em primeiro lugar, é preciso não esquecermos como estava o país em 2015 e de onde estávamos a chegar. Foram quatro anos de governação da direita que, de facto, colocaram em causa direitos fundamentais, cortaram salários, cortaram pensões. Foi o Tribunal Constitucional que assumiu um papel que nunca lhe tinha sido visto na condução quotidiana das políticas. Ora, neste contexto, e com essa realidade muito presente, avaliámos logo de início que tínhamos de mudar essa página. E conseguimos  mudar essa página, iniciar um processo positivo para o país, as contas públicas hoje estão melhores, mas também a economia, as pessoas vivem melhor. E conseguimos mostrar outra coisa também importante para o Bloco de Esquerda: muitas das propostas que diziam que eram irrealizáveis, inconsequentes, que trariam o caos ao país, na prática tornaram-se não só aceitáveis para a necessidade do país, como virtuosas para a economia e para os direitos das pessoas. E isso é muito positivo.

Há dias, a secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, que dizia que nestes três anos o Bloco de Esquerda e o PCP se renderam ao rigor das contas públicas. Reconhece-se nessa afirmação?
Creio que ela é mais sintomática de uma perspetiva do PS do que da perspetiva do Bloco de Esquerda. O que nós percebemos é que existiram estímulos à economia que ajudaram a equilibrar as contas públicas, estímulos que eram negados também pelo próprio PS. Lembrar-se-ão que, nas eleições legislativas, o Partido Socialista não propunha fazer qualquer tipo de aumento do salário mínimo, como nós fizemos para os 600 euros. Propunha congelar pensões. Por isso, matérias fundamentais que são a base da política de distribuição de riqueza, que assistimos ao longo dos últimos anos, não eram tidas em conta no cenário macroeconómico do PS. E pior do que isso: eram negadas por essa visão económica. O que nós vemos é que elas foram fundamentais. Basta olhar para os economistas que são mais desempoeirados, e mesmo outros mais empoeirados não conseguem negar, perceberam que foram essas as políticas relativas à distribuição de riqueza que ajudaram o mercado interno e esse foi um dos pilares fundamentais da retoma da economia.

Nos últimos tempos, a relação entre o PS e o Bloco de Esquerda – e o Bloco não disfarça isso -, tem sido um pouco mais tensa. Que leitura faz disso?
O Pedro deve ter visto as declarações de Cavaco Silva, agora a apresentar o livro no Porto, e que não foram desmentidas. Elas dão pistas para perceber o que vai na cabeça de alguns dirigentes do PS. Não de todos, mas de alguns. Dizia ele, em relação às legislativas de 2015, “eu soube que era possível um governo das esquerdas quando quatro dias depois das eleições, Fernando Medina me disse que essa era a intenção de António Costa. E mais do que a intenção, era uma necessidade, porque, se o PS fizesse um acordo com o PSD, iria perder votos para o Bloco de Esquerda. E o PCP não poderia ficar fora de um acordo desses porque senão ia definhar”. Esta era a análise que o PS fazia. Isto demonstra de certa forma este medo, o medo que os sucessos do Bloco possam ser os insucessos do Partido Socialista. Nós não olhámos para a política nesta forma matemática, não o vemos assim, mas percebemos que algumas pessoas o fazem. Isso ajuda a explicar esse medo, que os sucessos do Bloco está a demonstrar, quer na repercussão das políticas que ajudou a influenciar tem, quer na economia que as suas propostas afinal são válidas, são consequentes, são responsáveis e são necessárias para o país, isso assusta alguns dirigentes socialistas.

Acha que o PS está preocupado também em não perder votos para o BE? Ou que está preocupado, pelo contrário, em ir buscar votos que podem ir para o Bloco de Esquerda nas próximas legislativas? A teoria da maioria absoluta, no fundo.
Acho que o PS está, e isso parece-me mais ou menos óbvio, à procura de todos os votos, de onde quer que eles venham para chegar a esse objetivo. É o sonho que têm para cumprir. Do lado do Bloco de Esquerda, vemos com naturalidade essa ambição.

Mas é mais fácil ao PS ir buscar votos ao Bloco do que ao PCP?
Essa é a análise clássica da política e vivemos muito dessas análises, por isso é que em 2015 se dizia que era impossível a “geringonça”. Infelizmente não há uma atualização do pensamento político tão rápida como devia existir. O que diz a análise clássica do cenário político português? Que o Bloco de Esquerda tem um eleitorado muito mais fluído e, por isso, mais roubável pelo PS, e que o PCP tem um eleitorado mais fixo, mais fiel ao partido, independentemente das circunstâncias do partido.

E não concorda com isso.
A realidade tem demonstrado que as pessoas são mais inteligentes do que isto. Um exemplo concreto: esta mesma análise foi apresentada para resultados possíveis nas presidenciais. Nesse cenário, a Marisa Matias não tinha tido o resultado que teve. Isso mostra bem como a análise política tem de ser atualizada. As pessoas, todas, estão muito mais exigentes com a democracia e com os partidos políticos e não hesitam em mudar de partido político com mais facilidade do que no passado. Isso é bom, porque nos coloca a todos num grau de exigência muito maior do que no passado. Já não estamos a falar naquela clubite, em que muitas vezes as pessoas diziam: eu sou deste partido desde pequenino. Isso já não existe, as escolhas agora são mais racionais. Vivemos bem com essa pressão, mas é uma pressão constante com que os partidos têm de lidar e têm de saber fazer por merecer essa confiança constante.

E admite um cenário, também falado em análises clássicas, em que há eleitores do Bloco de Esquerda que muitas vezes votaram à direita. Também existe essa fatia do eleitorado?
Já não é de agora. Em 2009, a primeira vez que fui eleito, nessa campanha eleitoral, contactei com dezenas de pessoas que me diziam estar indecisas entre o Bloco de Esquerda e o CDS na altura.

E isso é normal?
Não consigo responder nesses termos. Mas compreendo algumas das escolhas que motivaram as pessoas a pensar assim. Nessa altura, vivíamos um governo de maioria absoluta de José Sócrates e era a escolha de um dos dois partidos, que as pessoas achavam que mais afrontavam esse Governo. Era esta a motivação, temos de respeitar.

E as circunstâncias entretanto mudaram.
Mudaram muito.

É também essa capacidade que admite que o Bloco tem, de ir buscar outros eleitores, que vos faz admitir ir para o Governo, mas com uma expressão de votos suficiente? Francisco Louçã falava ali na casa dos 20%. Acha que essa é a fasquia?
A política é feita dos contextos e, dependendo dos contextos, a participação num Governo pode ser feita com uma fasquia eleitoral muito diferenciada. O que não muda nessa lógica é que não é só uma questão matemática, mas sim a força que se tem para impor determinadas políticas, determinado programa. As duas variáveis em causa são a força para ter uma presença, e para isso votos, e um programa político que um acordo para a participação de um governo mostre que é favorável.  Isso varia muito consoante o contexto. Conseguimos em 2015 um programa de mínimos com o PS. Hoje, esse programa teria de ser muito mais completo do que foi nessa altura. A realidade mudou, nós já não estamos só a falar de reverter as maldades que a direita fez ao país, porque nós próprios hoje já aprofundámos o pensamento num conjunto de matérias diferentes e o PS também. Aprovámos um conjunto de soluções em matérias económicas que o PS negava na altura. A entrada do Bloco num Governo depende muito da conjuntura ou do contexto, sendo que nós nunca quereremos ser o um penacho de um governo qualquer para dizer que temos um ministro, sem o peso para fazer a diferença e sem um programa para continuar a fazer a diferença. Essa é que é, creio eu, a baliza política.

Diz que houve evolução do pensamento do PS, mas essa evolução está a prosseguir ou houve um travão agora?
Eu creio que o desafio principal para a criação de um Governo de esquerda é não estarmos sempre na expectativa perante o PS. Um governo de esquerda não tem de depender de um partido, seja ele o BE ou o PS. O que tem de existir são políticas. Um governo faz-se de escolha de política de fundo. E um governo de esquerda tem de corresponder a um défice fundamental, que é o défice dos serviços públicos, que é o défice dos direitos laborais. E sobre essa matéria o PS tem dito que está mais próximo das intenções de Bruxelas, não quer colocar em causa cumprimento de défices, mesmo que isso signifique sacrifício na qualidade dos serviços públicos e não querer alterar as leis do trabalho, mesmo que isso signifique manter a troika no Código Laboral. Ora, temos aqui questões de fundo que nos separam do PS e não estamos a falar de situações matemáticas, mas sim de matérias concretas que afetam o essencial da vida das pessoas.

E essas têm de ser decisivas para esse Governo ou pelo menos para um programa?
Antes de falarmos de resultados eleitorais, são decisivas para escolhas eleitorais. As pessoas hoje já sabem que o BE é capaz de influenciar positivamente a governação, que é consequente, que é responsável. Uma linha política que tem um projeto para o país. Levaremos esse projeto às eleições e é com a força que resultar dessas eleições que nós conseguiremos ter maior ou menor capacidade de influenciar a política.

Falámos aqui sobre esta possibilidade de Governo e há também uma declaração, voltando a citar Francisco Louçã, que dizia que o Bloco é um partido que tem a preocupação de formar ministros. Deu o exemplo de Mariana Mortágua como uma eventual ministra das Finanças. Que outras figuras é que vê como ministeriáveis no Bloco? E pergunto-lhe a si se tem esse perfil.
Não é uma pretensão que tenha. Até porque a exigência dessa atividade política é ainda maior do que aquela que nós temos. Há um sacrifício pessoal imenso, que não me parece que esteja disponível para ter. No que toca às escolhas dentro do Bloco de Esquerda, essa foi uma das vantagens que tivemos ao longo destes últimos três anos. Provámos que temos deputados e deputadas capazes, que muitos desconfiavam, com algum paternalismo, por causa da idade. A Mariana Mortágua, por exemplo, tem 32 anos, a irmã, a Joana, que está com um peso importante do Bloco de Esquerda, que é a questão da Educação, tem 32 anos também. O Moisés Ferreira tem 33, está com a Saúde, algo estruturante e, no fundo, conseguiu pegar no legado de João Semedo e dar-lhe continuidade e temos aqui exemplos de deputados muito jovens face ao panorama geral.

Seriam desses exemplos que Francisco Louçã falaria quando falava de ministeriáveis? Mariana Mortágua nas Finanças, Joana Mortágua na Educação, Moisés Ferreira na Saúde…
… Jorge Costa na Energia. Podemos continuar por aí fora. Luís Monteiro no Ensino Superior, José Soeiro no Trabalho. Não estamos aqui no Carpool a discutir um futuro Governo. Eu não tenho funções de primeiro-ministro, nem almejo ter para fazer essas escolhas.

Isso dependeria de negociações e daquilo que seria a correlação de forças de que o Bloco fala. Era um cenário apenas hipotético, mas queria tentar perceber…
…nós temos pessoas capazes. Contra muito preconceito, contra muito paternalismo, temos pessoas capazes.

O Pedro foi um dos protagonistas do debate na última convenção, era o adversário de Catarina Martins e do rumo proposto pela moção que defendia. Muito até devido ao relacionamento com o PS. Estávamos em 2013, houve um crise política e a moção que o Pedro Filipe defendia, acusava alguns setores, Catarina Martins e João Semedo, de ter ido bater à porta do PS e não concorda com isso. Acha que se enganou ou que estava certo e a realidade é que mudou?
Esse momento comprova as virtudes melhores que o Bloco de Esquerda tem: uma grande pluralidade interna. E dessa pluralidade ganha força a mensagem geral do Bloco de Esquerda. O debate, na altura, era um debate contextualizado, datado. O que conseguimos alcançar desde esse período, foi que, por um lado, a Catarina Martins como coordenadora cumpriu os objetivos e superou-os. Está a provar ser uma coordenadora do partido capaz de dar voz a uma direção colegial e que consegue, nos debates internos, fazer sempre uma síntese que é mais forte que as opiniões individuais. E essa era uma das provas mais difíceis que tínhamos de ultrapassar. O Bloco de Esquerda passou no crivo da democracia interna e superou sem cisões. Provámos que temos maturidade para saber enfrentar as escolhas difíceis, polarizadoras dentro do partido, ultrapassá-las sempre com uma síntese que reforça quer o partido, quer a atuação da esquerda.

Neste momento não tem nenhuma hesitação em dizer que está completamente alinhado com a direção do partido?
Sim. Fiz parte das escolhas fundamentais que foram feitas. Subscrevo com a Catarina, com a Marisa Matias, com a moção à Convenção. Nós não pensamos todos da mesma forma, e é salutar que assim seja. Discutimos as ideias e conseguimos chegar a entendimentos que têm mostrado ser fortes e têm feito a diferença no país. E espero que continue. Vivemos num bom momento de convivência interna do partido e isso é muito positivo.

Como líder parlamentar do Bloco de Esquerda, também lhe acontece alguns deputados sentarem-se no seu lugar, usarem a sua senha para ir consultar documentos?
Ninguém tem nem o meu username, nem a minha password. Que eu saiba, nenhum deputado do Bloco de Esquerda andou a trocar usernames e passwords. Eu tenho um passado ligado até às novas tecnologias que valoriza muito os dados pessoais, quer os dados pessoais meus, quer os de outras pessoas. Nesse aspeto, sou bastante dacroniano. A informação mais relevante que um deputado tem é o username e a password que servem não só para validação de presenças em plenário, mas também para votações eletrónicas. Portanto, estamos a falar de votos que são feitos naquele espaço, naquele computador. No Bloco sempre dissemos a todos da importância que tem essa realidade. Não temos a prática de andar a fazer distribuição de usernames ou passwords. Utilizamos ferramentas colaborativas de trabalho, como é normal.

Fala de quê, Google Docs?
Não quero estar a fazer aqui publicidade. Mas há vários: Google Docs, Dropbox, iTransfer. Nós trabalhamos dessa forma, sem pôr em causa, o espaço individual, mesmo que virtual, de cada um.

Estamos mesmo a chegar. Está otimista quanto às próximas eleições?
As próximas eleições vão ser o momento de balanço deste período de quatro anos.

Acredita que o Bloco vai conseguir capitalizar este período de experiência e muitas das políticas?
A análise clássica da política diz que não, que são os maiores partidos que comem os mais pequenos neste tipo de acordos e eleições.

As sondagens têm demonstrado um bocadinho isso.
Não têm colocado o Bloco de Esquerda em perda, está mais ou menos no mesmo patamar que estava.

Mas também não teve as conquistas que, provavelmente, esperavam.
Mas nós olhamos para outras experiências históricas e normalmente o que acontece é que o partido mais pequeno é abocanhado pelo partido maior. Não está a acontecer isso. Acreditamos que conseguiremos responder às pessoas na altura das eleições dizendo porque é que fizemos as escolhas que fizemos, como é que conseguimos influenciar e com que medidas. Poderemos fazer mais se nos derem força.

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