www.publico.pt3raposos@sapo.pt - 10 nov 06:27

Touradas e património cultural

Touradas e património cultural

Se convivo aceitavelmente com as touradas, o mesmo não posso dizer do meio taurino, repleto de marialvas de pacotilha e damas de companhia, quase todos reaccionários.

Não sou caçador, mas não tenho nada contra a caça e os caçadores. Pelo contrário, sei bem que somos fruto de mais de 90% de existência na condição de caçadores-recolectores. E, além disso, partilho com os caçadores o gosto pelo cheiro a orvalho, ao raiar da aurora. Não sou treinador de animais, mas não tenho nada contra circos onde cãezinhos façam malabarismos e cavalos volteiem (teria se falássemos de animais selvagens). Pelo contrário, ficarei triste quando este Natal não os puder aí ver com os meus netos. Não sendo aficionado, não tenho também nada contra a milenar, primeiro sagrada e depois profana, relação de medir forças entre homens e touros, onde se inclui a tourada. Assisti a três ou quatro na vida e terei alguma pena quando um dia, certamente próximo, elas deixarem de existir, sobretudo se pudessem entretanto prescindir de picadores e bandarilhas.

Mas dizer isto seria dizer pouco. E sobretudo rejeito o velho modelo de “desenvolvimento” rural que trouxe a miséria e a repressão ao operariado rural ribatejano e alentejano, modelo baseado no pacote do sequeiro extensivo e inculto, tido como necessário à criação do touro bravo, em propriedades geridas ou alugadas por latifundiários absentistas, sentados em cima das rendas da cortiça. Fossem os aficionados todos ou maioritariamente como Hemingway ou Lorca, só para citar dois, talvez até pudesse apreciar o meio. Mas não: são o que são, salvo excepções que apenas confirmam a regra.

A distinção entre touradas e meio taurino faz em mim todo o sentido. Declaro-me patrimonialista, mas não conservador ou tradicionalista. Sei bem que a tourada constitui ainda agora tradição. Mas, como tantas outras no passado, pode e eu creio que vai deixar de existir um dia. “Tradição”, na raiz latina do termo, é aquilo que se traz até ao presente. Muito ficou pelo caminho: as venationes romanas, os combates entre ursos, cães e homens, as lutas de galos ou do queimar do gato, que veio praticamente até nós. Nada disto lamento ter acabado. Mas tenho pena, sim, que a tourada minoica tenha acabado, mesmo muitos séculos antes da extinção dos auroques (embora o seu sucedâneo parcial, baseado em bezerros, mais do que touros, ainda subsista sobretudo no Sul de França). Lamentar ou não, aceitar, tolerar ou proibir... Tudo depende daquilo que em cada época forem considerados os valores civilizacionais dominantes, os quais começam nos corações das pessoas e mais tarde passam para a lei, onde adquirem dimensões totalitárias. Sempre foi e sempre será assim. Por mim, muito mais do que das touradas, terei pena se um dia o colapso do antigo mundo rural levar a que deixem de existir adufeiras na Idanha ou migas no Alentejo.

Mas a relação entre touradas e património cultural possui no nosso País ainda outra e muito mais chocante dimensão, algo que dá pelo nome de Conselho Nacional da Cultura. Já aqui denunciei a insuportável governamentalização de um órgão que deveria ser de audição da chamada “sociedade civil”, mas é composto nas suas secções maioritariamente (em certos casos, esmagadoramente) por nomeados do Governo e chefias da administração pública ( “Retórica e realidade”, PÚBLICO, 20.11.2013 ). Acontece, como se isto não bastasse, que tal Conselho possui desde 2013, quanto um aficionado o conseguiu impor, uma secção de tauromaquia... sem, contudo, possuir nenhuma autónoma de cultura popular, que quanto muito se vislumbra como apenso na de museus, conservação e restauro. Claro que a afición convive bem com isto, porque, no seu tradicionalismo, reaccionário na maioria ou progressista ocasionalmente, prefere preservar “a festa”... de “feios, porcos e maus”, que podem até ser subversivos quando em turbamulta. Em face de tudo o que vai dito, percebe-se bem como me soa risível este debate sobre o IVA das touradas. Arqueólogo

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