www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 10 nov 01:00

Estranhos mundos

Estranhos mundos

Tancos alterou as regras do jogo. E o Presidente, desafinando do coro oficial, começou a pedir demasiadas explicações, o que se entende: Marcelo é Comandante Supremo das Forças Armadas e sabe que um crime destes, acima da linha do Equador, costuma determinar o fim de governos - Opinião , Sábado.

Marcelo Rebelo de Sousa permitiu três anos de sonho a António Costa. E este, com indesmentível manha, aproveitou: para capturar as esquerdas sob o seu mando; para distribuir benesses por reformados e funcionários do Estado ao mesmo tempo que deixava degradar os serviços públicos; e até para se despedir confortavelmente de Passos Coelho e receber no sapatinho um presente de Natal antecipado, na forma de Rui Rio.

Claro que, aqui e ali, havia "atritos", para usar a palavra simpática do comentador Mendes: os incêndios, e a incompetência geral do Governo perante a tragédia, foram um deles. Mas, enterrados os mortos e tratados os feridos, Marcelo e Costa voltaram a abrigar-se sob o mesmo guarda-chuva.

Tancos alterou as regras do jogo. E o Presidente, desafinando do coro oficial, começou a pedir demasiadas explicações, o que se entende: Marcelo é Comandante Supremo das Forças Armadas e sabe que um crime destes, acima da linha do Equador, costuma determinar o fim de governos.

Azar. O Governo, que vive da opacidade desde a sua inesquecível génese, não gostou da melodia. E rapidamente apareceram notícias severas que envolviam Belém no encobrimento de Tancos.

Perante o lodaçal, Marcelo jurou que não se deixava calar; e acrescentou que as Forças Armadas não estão "ao serviço de jogos de poder".

Não é preciso dizer mais nada para compreendermos a dimensão desta crise política. Mas há uma pergunta que importa fazer: se António Costa, em situação minoritária, diz que o problema de Marcelo com Tancos é uma "ansiedade" incontrolada, o que fará o mesmo Costa se tiver a maioria absoluta?
Marcelo que pense um bocadinho.

ENQUANTO MARCELO PENSA, registamos com agrado que António Costa também pensa. Para sermos exactos, no seu futuro governo. Facto: há umas eleições primeiro, a que o homem lá terá que comparecer. Mas esse pormenor entediante não arrefeceu o entusiasmo do nosso António, que tenciona manter velhas caras e trocar outras.

Revela o Público que Augusto Santos Silva fica. Mário Centeno, enquanto for útil na Europa, também. E Graça Fonseca, que chegou à Cultura sem saber ler nem escrever, continuará por lá a debitar as suas sentenças sobre a civilização (onde ela vive) e a barbárie (onde vivem milhares de trabalhadores portugueses afectos à tauromaquia).

Tiago Brandão Rodrigues, que nunca realmente existiu, deixará de existir. E Marta Temido, recém-chegada, será recém-despedida (bom trabalho até lá, dra. Temido).

Um nome, porém, não consta no rol do futuro governo: Rui Rio, obviamente. Nem sequer como ministro adjunto? Parece que não, embora não seja de excluir uma secretaria de Estado (quem não vai a ministro adjunto pode ir a secretário de Estado Adjunto e não se fala mais nisso).

O próprio Rio, aliás, parece contar com um convite. Só isso explica o comportamento displicente do senhor perante um secretário-geral que, mesmo quando não está sentado no hemiciclo, figura no registo de presenças como se estivesse.

Em condições normais, estes comportamentos fariam disparar o alarme de um líder. Não fazem porque o líder não está propriamente interessado em liderar. Se houver uma secretaria de Estado no próximo governo de António Costa, os deputados do PSD até podem começar a pintar as unhas no parlamento (desde que o façam de cor-de-rosa).

AQUI HÁ UNS TEMPOS, li e diverti -me com um livro de Jason Brennan, já editado em Portugal. Intitula-se Contra a Democracia (Gradiva) e a tese do autor, na boa tradição platónica, é simples: a democracia não presta; precisamos de uma epistocracia (tradução: só os sabedores devem poder votar).

No livro, Brennan propõe vários esquemas para realizar o seu plano. Um deles consiste na realização de um exame "técnico" por todos os candidatos a eleitores. Exactamente como acontece nos exames de código para quem deseja tirar a carta.

O livro é interessante – como exercício filosófico. Mas é também delirante pelo motivo mais óbvio, que escapou ao autor: uma epistocracia só seria possível à lei da bala.

Curiosamente, esta evidência também não ocorre aos nossos "democratas", que nas suas prosas anti-Bolsonaro suspiram por um regime onde só vota quem pensa como eles.

Estranho mundo, este, em que os defensores da democracia sonham com a instituição de uma ditadura.

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