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Carta Aberta a Graça Fonseca

Carta Aberta a Graça Fonseca

Já era tempo de termos no Governo uma figura-chave capaz de assumir perante a sociedade que algo está errado na forma como a indústria tauromáquica tem sido privilegiada pelo poder estabelecido em Portugal. - Opinião , Sábado.

Sra. Ministra da Cultura, escolhi hoje este título para acompanhar o ciclo de cartas abertas que circularam pela imprensa esta semana. Espero que não se importe, porque na verdade já tinha pensado em escrever este texto depois da sua intervenção no debate na generalidade do Orçamento do Estado para 2019

Irei, pois, falar sobre Tauromaquia. E para que não haja quaisquer dúvidas sobre a minha visão política, reitero: já era tempo de termos no Governo uma figura-chave capaz de assumir perante a sociedade que algo está errado na forma como a indústria tauromáquica tem sido privilegiada pelo poder estabelecido em Portugal. Temos Ministra, finalmente, e quero agradecer-lhe pessoalmente por isso. 

Confesso que já estava à espera de reacções bafientas vindas desse mesmo poder estabelecido. O que eu não esperava era que elementos históricos do poder estabelecido usassem o espaço público a que têm (e bem) direito para propagar reacções irresponsáveis que comparam o debate nacional em torno do fim dos apoios à tauromaquia à ascensão de pessoas não democratas, do populismo ou da extrema-direita. Não estamos a falar da mesma coisa, lamento. E lamento também que tenhamos chegado a este estado tão rapidamente, logo após um posicionamento importantíssimo da parte do Governo sobre esta matéria, ao aceitar uma simples, mas determinada proposta de justiça fiscal do PAN para o fim da isenção do IVA atribuída à actividade tauromáquica.

Concentremo-nos: no que toca ao sector mais violento da nossa sociedade, não está em causa o gosto de cada pessoa, a liberdade individual ou o direito à cultura. Estão em causa as enormes implicações na vida de terceiros, na vida de seres que são sensíveis, que sentem dor, que sentem sofrimento. À luz dos padrões de civilização do século XXI, a sociedade portuguesa não aceita mais a utilização de animais para divertimento. Aliás, exemplo disso foram as decisões tomadas pelas comunidades estudantis ao optarem pelo fim das garraiadas nas festas académicas. Nos últimos dois anos milhares de estudantes do Porto, Coimbra, Tomar, Setúbal ou Évora afastaram a violência dos seus festejos.

Estamos a trilhar o caminho social que dita o fim de todas as manifestações de violência e cabe ao poder político perceber e acompanhar esta evolução nas suas mais diversas ramificações. Nem vou escrever outra coisa, porque é mesmo como disse a Sra. Ministra da Cultura: "Não há uma cultura de gosto. Isto não é individual. Todas as políticas públicas têm na sua base valores civilizacionais que partilhamos e perfilhamos e as civilizações evoluem".

No final, não posso deixar de apontar o seguinte: Manuel Alegre deixou claro que achava que o PAN não estava a contribuir para uma democracia pluralista. Contudo, basta uma rápida leitura pelos comentários às palavras da Ministra, às petições em seu apoio ou às nossas publicações pelo fim desta violência para se perceber que os apoiantes da tauromaquia são os especialistas na partilha de comentários afundados em ódio e apelo à discriminação, homofobia, sexismo ou especismo. Não queria provocar, mas não resisto: cheira a totalitarismo.

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