visao.sapo.ptAntónio Lobo Antunes - 8 nov 08:23

A gente os três

A gente os três

Numa das ocasiões em que lá foi espreitou a minha turma pela janela e voltou aterrada porque eu me achava sentado ao contrário na carteira, a olhar para o tecto. Segundo ela a setora de Francês perguntou-lhe – Como é que eu podia chumbar aqueles olhos azuis? e a minha mãe chegou a casa capaz de estrangular-me, a repetir advérbios de modo que levou a minha infância a atirar-me à cara: – Francamente

Ilustração: Susa Monteiro

Eu fui o filho que deu sempre mais problemas aos meus pais, ou seja o único que não parava de dar problemas aos meus pais. Era mau aluno

(os meus irmãos eram brilhantes)

não me interessava pelas aulas, não estudava, tinha sempre nota de mau comportamento, não falava às amigas da minha mãe que não me interessavam, as minhas notas eram miseráveis, não reprovei porque o meu avô tinha dois camaradas do Colégio Militar que eram professores no Camões e arranjavam maneira de eu receber, no último período, as classificações que precisava para não chumbar, de modo que acabei o secundário aos dezasseis anos sem nunca ter estudado. A minha mãe foi algumas vezes ao Camões e voltava sempre deprimida com o que lhe contavam de mim.

e recordo-me de a ouvir dizer ao meu pai, julgando que eu não estava na sala

– Se ao menos ele fosse estúpido eu ainda compreendia

comigo a sentir-me um bicho esquisito que passava o tempo a ler e a escrever e, nos intervalos, a fazer asneiras, como por exemplo usar as jarras de flores para fazer chichi, espalhando pela casa um cheiro horrível, às vezes difícil de localizar. Uma ocasião, para aí com treze ou catorze anos, o meu pai, ao acordar, descobriu-me a dormir no meu quarto com as portadas fechadas. Abriu-as de rompante, furioso, eu descerrei um olho, perguntei

– Veio assistir ao acordar de um génio?

ele ficou a olhar-me, de boca aberta, e muitos anos depois ainda me falava neste episódio, com uma cara esquisita que me parecia ter lá dentro, escondido, uma espécie, que estranho, de orgulho. Mas suportou em silêncio, ele que era bravo e colérico, os três anos que passei sem pôr os pés no hospital, depois de me matricularem em Medicina, ocupado com um poema longuíssimo que devia ser fresco e acabou no cesto dos papéis como tudo aquilo que eu produzia, furioso com a bodega dos resultados. Mas continuava, certo de que iria conseguir obras primas se persistisse nas minhas pobres tentativas. Estou para saber de onde me vinha aquela fé. E, a fim de resolver o problema dos estudos

(enquanto tentava resolver o problema da escrita)

chantageei a minha pobre mãe

– Se me der a carta de condução eu faço as cadeiras todas na primeira época.

Ela, coitada, aceitou

(o que são as mães)

E disparei até ao fim do curso como um foguete, surpreendido por aquilo ser tão fácil. Até tive alguns dezoitos pelo meu meio, palavra, banzado

– Afinal nem demora muito tempo e é canja

genuinamente banzado que ser médico fosse uma questão de caracacá. Depois da volta da guerra, com o balanço, pulei os concursos todos na broa, entrei sempre nas vagas a que concorri, fiquei um doutor da mula ruça do caraças, cada vez ia gostando mais da Medicina, acho que fui um médico competente mas os cabrões dos livros não me largavam de modo que tive, com pena, de deixar tudo o resto por eles. Espero que os meus pais os leiam lá no Céu, eles que se calhar os leram cá na Terra mas isso era um assunto de que nunca me falaram. Nem eu com eles.

A merda do pudor, a merda da distância, e logo comigo que tenho tantas saudades vossas e me sinto tão arrependido de vos ter inquietado. Mas, entendam-me por favor, o que podia eu fazer, não é? E agora não sei se assine António ou Ovelha Ronhosa. No fundo é igual ao litro. Quando chegar onde estão prometo-vos que não faço chichi em nenhuma jarra, antes que São Pedro vos venha com a conversa do costume:

– Esse vosso filho é incorrigível, não é?

E se calhar sou, paizinhos. Se calhar sou.

(Crónica publicada na VISÃO 1339 de 1 de novembro)

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