visao.sapo.ptMiguel Araújo - 8 nov 08:26

Operários

Operários

Dentro das casas não se vê (mas vê-se), pessoas lutam contra a entropia do mundo e aspiram, limpam, mantêm, resistem, descascam tubérculos, tiram aqueles autocolantezinhos das cascas das maçãs com a unha

José Caria

Visto de cima, da janela do hotel: guindastes movimentam baldes e cargas pesadas pela boca, homens com capacetes amarelos levantam edifícios, carros-vassoura esfregam as bermas da estrada, pessoas passeiam cães e cadelas pelas trelas (cães e cadelas puxam pessoas pela trelas?), uma mãe respira quente para as lentes dos óculos da filha e limpa-os com a manga, uma montra tapou-se de papel bege, como quem diz “desisto”, na porta ao lado, outra, maior, talvez até melhor, com aspeto de que abriu agora, como que a render a vizinha do lado, a da montra que se tapou de papel bege, abre-se ao comércio com orgulho e pompa, dentro das casas não se vê (mas vê-se), pessoas lutam contra a entropia do mundo e aspiram, limpam, mantêm, resistem, descascam tubérculos, tiram aqueles autocolantezinhos das cascas das maçãs com a unha, a pontinha da língua de fora, veem o Preço Certo sem som, crianças descem para cima com os polegares nos ecrãs dos telemóveis dos pais, velhotes de roupão engolem comprimidos, mulheres arrumam coisas, há retratos velhos a serem embrulhados em mortalhas de jornais velhos, imprestáveis senão para amortalhar tralha que já não serve, condenada a caixotes de cartão condenados a sótãos e arrecadações, antecâmaras do oblívio último a que tudo se destina, gatos tossem bolas de cotão que escaparam aos aspiradores, condóminos chamam elevadores, ainda na rua passam dois ciclistas vestidos à Volta a Portugal a beber bebidas energéticas de cantis de cores garridas, vai um homem de fato a fumar em andamento, daqueles que ainda carregam jornais debaixo da cova do braço, há coisas a serem transportadas dentro de sacos de plástico, coisas que nem sonham onde vão parar, talvez uma escova que há de acabar na Austrália, talvez uma moldura que há de acabar encaixotada num sótão sabe-se lá onde, se na Galiza, se no Brasil, com certeza amortalhada dentro duma folha de um jornal que com certeza algum engravatado algures carrega neste momento, sabe-se lá onde, debaixo da cova do braço, no retrato aqueles sorrisos duros de quem reage automaticamente à ordem do “sorriam”, pessoas que os futuros nem sequer hão de saber de quem se trata daí o encaixotamento em sótão, antecâmara do oblívio último a que tudo se destina, as abelhas carregam pólen de um lado para outro e as pessoas espalham coisas por este planeta afora, somos abelhas a aspergir tralha em todas as direções, tralha que há de dar em pó que aspiradores futuros hão de tragar, em bolas de cotão que outros gatos hão de tossir, da janela do hotel vê-se também um daqueles mórmones de camisa branca e gravata que andam pelo mundo não a espalhar tralha mas a espalhar ideias, algum conceito de salvação, terá 20 anos e tem à frente dele o que parece ser um ice tea, ainda nem lhe tocou, deve estar pensativo, ou então a ruminar algum pensamento de nada, pelo menos daqui parece, quando uma pessoa pensa nos outros a pensar, pensa sempre que não estão a pensar em nada, se calhar está a pensar olha aquele camelo ali na janela daquele hotel Turim, em que pensará ele, pois fica sabendo, amigo mórmon, que estou a pensar, porque daqui da janela vê-se bem, que Deus não fez o mundo, como tu dizes aí nesses teus panfletos, Deus vai fazendo, ou melhor, vem fazendo, daí esta azáfama toda de guindastes, capacetes amarelos, carros-vassoura, cães, pessoas e gatos e coisas de um lado para o outro a tentar limpar, fazer, manter, resistir.

(Crónica publicada na VISÃO 1339 de 1 de novembro)

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