www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 8 nov 12:55

Velhos hábitos nunca morrem

Velhos hábitos nunca morrem

A queda para a corrupção tem sido uma constante nos presidentes da FIFA. Começou com João Havelange, ainda nos anos 70, passou para Blatter e continua com Infantino - Opinião , Sábado.


Os brasileiros têm uma expressão que mostra bem o modus operandi da FIFA: "Muda a coleira, mas não muda o cachorro". A queda para a corrupção tem sido uma constante nos presidentes deste organismo ao longo das últimas décadas. Começou com João Havelange, ainda nos anos 70, passou para Sepp Blatter e continua no mandato de Gianni Infantino. Não há muitas diferenças entre o actual líder da FIFA e os dois homens que o antecederam.

Quem o diz são aqueles que trabalharam perto dele, como o português Miguel Poiares Maduro, afastado em 2017 do cargo de presidente do Comité de Governação da FIFA depois de impedir o vice-primeiro-ministro russo, Vitaly Mutko, de ser reeleito como membro do órgão governativo da FIFA. Mutko, acusado de esquemas relacionados com doping nas Olimpíadas de Inverno de 2014 (realizadas em Sochi, na Rússia), acabou por cair. Mas Poiares Maduro não resistiu à impopularidade da decisão. Hoje não tem dúvidas em afirmar: "Infantino é fruto da mesma árvore que Blatter." Uma relação que não é difícil de fazer. Basta lembrar que Infantino cresceu dentro da UEFA sob o comando de Platini. E este é um discípulo de Blatter que mais tarde se virou contra o criador e acabou por cair com ele.

São produtos da mesma escola. Ou utilizando uma linguagem mais popular: farinha do mesmo saco. Membros de uma organização alérgica aos princípios do Estado de direito que insistem em reger-se pelas suas próprias regras, conseguindo impunidade durante anos a fio. O objectivo é sempre o mesmo: tornar os ricos ainda mais ricos ao mesmo tempo que se tentam eternizar no cargo, esvaziando os poderes daqueles que os podem controlar, como acontece com o comité de ética da FIFA (o tribunal da organização). Este organismo foi chefiado pelo jurista alemão Hans-Joachim Eckert, responsável pelo afastamento de Blatter e Platini. O que aconteceu a Eckert? Acabou dispensado em Maio de 2017, pouco mais de um ano após a eleição de Infantino. "Transparência com Infantino? É para esquecer. Ele só quer ser reeleito",
diz Eckert.

Os recentes documentos do Football Leaks dão razão a quem tem este discurso. Infantino, depois de tantas promessas de transparência, depois de tantos discursos sobre uma nova era na FIFA (longe dos escândalos do passado recente), afinal é mais do mesmo. Protegeu o Paris-Saint Germain e o Manchester City de serem punidos pelo Fair Play Financeiro da UEFA
quando era secretário-geral… da UEFA. Afasta aqueles que o podem pôr em causa e prepara-se para a anunciar um negócio (o maior na história da FIFA) de 25 mil milhões de dólares, através de capitais de investidores da Arábia Saudita, China, Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos, sem que o mesmo tenha passado pelas instâncias competentes da FIFA. Ou seja: sem se perceber quais as contrapartidas dadas pela FIFA. Neste caso, ainda segundo a documentação do Football Leaks, teve a ajuda de dois portugueses: o advogado José Luís Arnaut, membro dos órgãos sociais da FPF, e o banqueiro António Esteves, ambos com ligações ao grupo Goldman Sachs. É caso para dizer que fica tudo em família.

Para Infantino a música continua a ser a mesma. O dinheiro, mais o dinheiro e novamente o dinheiro. À custa da paixão de milhões. À custa do futebol. Um futebol que, por vontade dos poderosos, será apenas para alguns. Como os 11 clubes que se preparam para criar uma Superliga Europeia, deixando de fora muitos países, incluindo Portugal. Se tal vier a acontecer, é apenas mais um passo gigante para cavar a desigualdade no desporto. De um lado os ricos, do outro lado os restantes. Como acontece em tantas áreas da sociedade. E como muitas vezes, dentro de campo, o futebol jogado conseguiu superar. A ideia, porém, não é a de um futebol de todos e para todos. É a de lucro imediato e pornográfico. Para poucos, mas à custa
de todos. Com consentimento, patrocínio e participação do actual presidente da FIFA. A tal história da coleira…

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