visao.sapo.ptMafalda Anjos - 8 nov 16:49

No reino do “entãoeaquilismo”

No reino do “entãoeaquilismo”

A memória é curta, e o apelo para o autoritarismo eterno – a democracia dá muito mais trabalho e exige muito mais sofisticação

Então e a Venezuela de Chávez e de Maduro? Então e as ditaduras de esquerda? No mundo polarizado de hoje, é praticamente impossível debater fenómenos como Trump ou Bolsonaro sem que venha de lá uma voz de uma direita cada vez mais extrema e menos envergonhada a atirar com o clássico contra-argumento do “então e aquilo?”. Em inglês, a técnica de desviar o assunto, acusando de hipocrisia sem refutar os argumentos originais, merece uma expressão deliciosa: “whataboutism”, que em português se traduz para qualquer coisa como “entãoeaquilismo”. Donald Trump, o autointitulado “Hemingway dos 140 caracteres”, já sabemos, é mestre neste mecanismo retórico de não discutir o ponto que não lhe interessa, desvalorizando as suas falhas ao compará-las com outros factos alheios igualmente graves. Em Portugal, há uma direita simpatizante com as vias autocráticas ao estilo Bolsonaro que, nesta sua saída do armário impulsionada pelo l’air du temps, se tem especializado no “entãoeaquilismo”. Há spin doctors de agências de comunicação a fazer afincadamente este trabalho (serão pagos para isso?, por quem?), tal como há gente comum pouco pensante que, à falta de melhores argumentos, acusa de “esquerdalhos” e de “perigosos comunistas” todos os que criticam as investidas antidemocráticas do Presidente eleito brasileiro. É tão curioso como os extremos se tocam: hoje é a direita mais conservadora que usa e abusa da técnica estalinista de propaganda que marcou a era soviética.

Estes tempos estão, mais do que nunca, propícios a que as pessoas se coloquem de um dos lados da barricada. Criticam-se Bolsonaro e a sua retórica radical autocrática? És um “comuna”. Diz-se que 57 milhões de brasileiros têm razões para estar descontentes com o estado da política atual brasileira e com os tempos do PT? .

Se há uma lição que devemos retirar de tudo isto é que tanta falta faz mais cultura democrática, melhor educação para a cidadania e maior conhecimento sobre a História recente e os valores e princípios fundamentais conquistados. Nas condições certas, qualquer sociedade pode virar-se contra a democracia. Em Portugal, alegada terra de brandos costumes, estamos tudo menos imunes a isso.

(Editorial da VISÃO 1340, de 8 de novembro de 2018)

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