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Web Summit: Mais vale um carro na mão do que dois a voar

Web Summit: Mais vale um carro na mão do que dois a voar

Pura excentricidade ou uma realidade próxima? Não sei, mas consigo antecipar as mudanças que advêm deste projeto-piloto, literalmente. - Opinião , Sábado.

"Os carros voadores serão uma realidade em 2025", ouviu-se na Web Summit. Quem o disse foi o fundador da Lilium Aviation, Remo Gerber, cujo primeiro nome ironicamente até remete mais para o transporte marítimo do que para o aéreo.

Pura excentricidade ou uma realidade próxima? Não sei, mas consigo antecipar as mudanças que advêm deste projeto-piloto, literalmente.

Desde já, assusta-me o alvoroço em que vão colocar a minha mãe. Se já é tamanha a sua aflição sempre que pego num carro convencional, imagino quando tiver de me descolar por aeromóvel: "Ai filho, vais tu a pilotar? Não queres antes apanhar um uberCOPTER? Cuidado, o céu à noite é tão perigoso. Vai baixinho. Manda mensagem quando aterrares".

Vamos lá ver, a ideia até é boa: facilitar a mobilidade nas grandes cidades. Mas uma pessoa até já se habituou a ouvir na rádio que a circulação está condicionada no nó do Freixo e que há trânsito lento nos acessos à CRIL no sentido Lisboa-Algés. Não estou preparado para que me digam que há complicações na troposfera devido a um voador ligeiro que colidiu com o outdoor do CDS a dizer "EUROPA" porque achou que Espanha era naquela direção.

E já que estamos nisto de facilitar a mobilidade, a ideia resume-se ao transporte particular ou estará o Sr. Remo a ponderar ampliar a coisa aos transportes públicos? Se sim, temo o pior em Portugal. Não me surpreenderia se em cada paragem efectuada com sucesso, os passageiros do autocarro voador batessem palmas na aterragem.

Estará o próprio GPS familiarizado com esta mudança? Estaremos nós preparados para lidar com um "Siga em frente e o seu destino fica três nuvens à direita"? E a EMEL, onde é que fica no meio disto? Em vez da já famosa bota amarela no pneu, irá antes colocar um brinco na asa do infrator? Sendo honesto, não antevejo grandes vantagens nisto sem ser a menor probabilidade de gravitarem fezes de gaivota no pára-brisas.

Até chegar esse longínquo 2025, tenho alguns anos para me habituar à ideia. Até lá, vou treinando e cimentando novas maneiras de insultar os demais condutores. Porque atirar um "Oh palhaço, passa por cima!" ao condutor de trás, via aérea, perde alguma força. Mesmo um "Olha-me este armado em pato-bravo!", sendo o pato um animal dotado tanto de locomoção terrestre como aérea, pode bem passar de insulto para piropo.

A minha pouca esperança num volte-face reside no facto de esta poder ser apenas mais uma das muitas start-ups com ambições megalómanas. Começa por anunciar que se vai lançar nos carros voadores, mas após o primeiro ano de operações afinal vai apenas lançar-se nos carros, após o segundo afinal vai apenas lançar-se nos carros telecomandados, e após o terceiro afinal vai só vender pilhas para o comando.

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