24.sapo.ptPaula Cordeiro - 8 nov 14:09

A aldeia global que é só assim-assim global

A aldeia global que é só assim-assim global

Quando nos anos de 1960, McLuhan escreveu que o nosso sistema nervoso estava globalmente interligado, num contexto que abolia o tempo e o espaço, cunhou um termo que serviu, ...

A pergunta que mais ouvi esta semana procurava resposta à minha ausência da Web Summit. Nem texto, nem instastories, nem reportagem na rádio, nada. Silêncio. A quem perguntou, respondi que estava demasiado ocupada com a minha própria startup, que não depende de financiamento, apenas de trabalho. Efectivamente, estou dedicada a um novo projeto mas não foi isso que me impediu de participar nesta meca mundial da tecnologia. Foi a sua dimensão esmagadora que me afastou.

Se é certo que há temas incontornáveis e admiráveis oradores, também é verdade que, quando estive na Web Summit, senti-me uma barata tonta a correr de sessão em sessão, pavilhão em pavilhão, perdendo boa parte do que pensava que queria ver. Encontrar pessoas não é fácil e o networking nem sempre é garantido porque, muito embora tenhamos todos uma identificação, nem sempre acertamos na pessoa com quem deveríamos, efetivamente, conversar. Além de que encontros mais pequenos são, por definição, mais específicos e concretos. Desses encontros ficam sempre boas recordações e conseguimos registar ideias interessantes.

Não deixa, contudo, de ser uma bolha que se cria temporariamente em Lisboa e nos distrai do que está a acontecer no mundo: pessoas que morrem na travessia do estreito de Gilbraltar, tiroteios nos Estados-Unidos; corrupção e pequenas falcatruas cá no burgo, menorizadas em relação ao seu real significado e dimensão; gestão ambiental danosa ainda por comprovar; fome (muita fome) em África; moradas falsas que picam o ponto de forma virtual (que é o mesmo que dizer que não picaram); guerras e conflitos que se arrastam à demasiado tempo para lhes conhecermos a origem; pobreza endémica sem solução à vista e os pobres envergonhados que a escondem, passando mal; candidatos que ganham eleições depois de terem morrido ou um défice maior do que o previsto, com a nossa total indiferença em relação a tudo isto, que resulta de uma bolha na qual nos enfiamos, para nos protegermos e que, em última análise, não nos deixa, afinal, conhecer o mundo.

Estaremos melhor assim?

A promessa da informação na aldeia global e a da igualdade na internet não se concretizaram. Foi aliás, Berners-Lee, criador da World Wide Web, que há dias colocou o dedo na ferida, começando por dizer que é o criador da web e não da internet, ou seja, daquilo que nos permite aceder à  informação que está disponível na rede, a internet. Depois, relembrou que esta promessa de estarmos todos ligados ainda não se concretizou. É um facto que estamos todos ligados, mas não estamos porque há uns que estão mais do que outros e outros que não estão, de todo, ligados. Além disso, o acesso não garante as ferramentas e conhecimento para a utilizarmos, como nos sujeita à desinformação, pelo excesso de informação . Ou conteúdo, para ser mais precisa. Gostei de ler uma citação de Berners-Lee nos jornais que dizia que precisamos ligar a metade que ainda não está online e, depois, consertar as duas metades para uma web e um mundo melhor. Novamente, estaremos (mesmo) melhor assim, conhecendo o que se passa na nossa aldeia sem saber o que se passa no mundo?

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