24.sapo.ptPatrícia Reis - 8 nov 10:36

Não digam que não sabem, digam que não querem saber

Não digam que não sabem, digam que não querem saber

Não pensamos muito no assunto, mas a verdade é que qualquer pessoa pode ser apanhada nas malhas da escravatura, não é um cenário estrambólico, é a realidade. A escravatura ...

Vejamos as formas de escravatura moderna, sendo que algumas são tão velhas quanto o mundo, o que só comprova que não mudámos significativamente: prostituição, doação forçada de órgãos, mendicidade, servidão doméstica, exploração laboral, exploração sexual infantil, sexo forçado em lugar fixo, sexo forçado em localizações distintas, participação forçada em crimes, trabalho forçado, trabalho criminal forçado, barriga de aluguer forçada.

No novo filme de Bruno Gascon, que deu origem ao livro "Carga" da autoria de Vasco Cortese, temos a exploração de um dos temas mais aterradores do mundo: tráfico humano. Uma mulher que crê embarcar numa viagem para ser modelo e que acaba nas mãos da máfia russa, obrigada a prostituir-se. Não é um livro nem um filme com pinceladas românticas, com desculpas ou ilusões, é uma realidade dura que, mesmo que ficcionada, reflecte o que se vive diariamente nos cinco continentes.

Na apresentação do filme, Julia Immonen da Justice and Care (o filme teve ainda o apoio da organização portuguesa Associação para o Planeamento da Família), uma organização que procura combater este pesadelo que é o tráfico humano e outras formas de escravatura, contou a história de Alejandra, educada no seio de uma boa família, que foi enganada com uma promessa falsa de trabalho no fim da adolescência. “Chorei enquanto ela me contava como foi “quebrada” – violada repetidamente até a sua mente “quebrar” –, com os traficantes a ameaçar de morte a sua família e cobri-la de urina, degradada, forçada a fazer coisas que nenhum ser humano deveria ter de fazer. Ela era violada vinte vezes ao dia”. Alejandra foi a primeira sobrevivente que Julie Immonen conheceu. E, no seu discurso de alerta e de despertar para o assunto, Julie Immonen contou como fez a rota transatlântica dos escravos, refazendo a jornada de cerca de 12 milhões de escravos, para terminar a dizer que hoje são três vezes mais. Repito: três vezes mais.

Dessas estimadas 40 milhões de pessoas escravizadas, um milhão e 200 mil vivem em países europeus. A cada 30 segundos, uma criança é raptada. Adolescentes enganados, iludidos em promessas de vidas melhor, são milhares por ano.

O tráfico humano é um negócio que rende milhões, apenas suplantado pelo negócio da droga. Em 2015, ONU previu que o comércio internacional de seres humanos era um negócio de cerca 31,6 mil milhões de dólares. Todos os dias, seres humanos são vendidos e feitos escravos. Em 2012, a Organização Internacional do Trabalho estimou que 20,9 milhões de pessoas são vítimas de trabalho forçado.

Não, não é "A Cabana do Pai Tomás", livro da escritora norte americana Harriet Beecher Stowe, publicado em 1852, livro que contribuiu grandemente para o movimento abolicionista, não é Hollywood, é a vida nas grandes cidades, Lisboa, Londres, Roma... E, tomem nota, trata-se de um negócio em ascensão.

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