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O Leslie soprou, assustou, feriu e deixou a EDP em modo “perturbado”

O Leslie soprou, assustou, feriu e deixou a EDP em modo “perturbado”

Furacão que passou por Portugal danificou mas não devastou. EDP deixou milhares sem luz e admitiu a gravidade da situação

Foi um sopro persistente e nervoso, desgastante e agressivo: o furacão Leslie encontrou caminhos imprevisíveis na breve passagem por Portugal, porque a rota que lhe traçaram não foi o rumo que percorreu, deixou danos complexos para cada um dos diretamente afetados - há feridos ligeiros, perdas materiais, gente retida em espaços públicos e outros sustos e temores - mas as consequências não são devastadoras para um país que sabe o que é perda quando a natureza fica irada. Centenas de milhares de clientes da EDP ficaram sem luz, houve um número de árvores por quantificar que não tiveram força para se aguentarem erguidas, as estradas - com a A1 na lista - tornaram-se intransitáveis e o céu também para os aviões que vinham, há muitos carros torturados pela tempestade e telhas que se perderam no ar, mas as autoridades destacaram sempre ao longo da noite que o Leslie foi domado pela prevenção e intervenção humanas. Este é o balanço até às 04h, hora a que acabou a fase crítica e a que este artigo foi publicado - depois de o vento ter mostrado ao país o que é acelerar a 176 quilómetros por hora.

Uma das vítimas maiores do Leslie é a EDP, censurada ao longo da noite nos diretos televisivos pela falhas de alimentação a milhares de casas. “Mais de 15.000 habitações sem fornecimento de eletricidade”, começou por noticiar a imprensa à entrada da madrugada. Piorou: “EDP incapaz de fornecer energia a centenas de milhares de clientes devido ao Leslie. Empresa admite que é ‘grave’”, titulava o Expresso a partir de um take da Lusa. A diretora de comunicação da EDP Distribuição, Fernanda Bonifácio, admitia que a situação era “muito grave e complexa” e anunciava que a empresa ia reforçar meios e recursos depois de ativar um módulo de intervenção com designação psíquica: “estado perturbado”. “O estado perturbado é superior ao estado de alerta. Estamos a mobilizar mais meios de outras partes do país para responder às ocorrências”: explicações de Fernanda Bonifácio, que apontava ainda que a empresa ia “naturalmente” dar prioridade a “aglomerados populacionais com maior densidade” na resolução dos problemas. Às zonas isoladas o Leslie mostrou-lhes naturalmente os custos do seu isolamento.

Alguns dos relatos humanos mais complicados chegaram do distrito de Coimbra: “Quedas de árvores, acidentes com carros, telhas que se soltaram e outros objetos fazem feridos ligeiros”, alertava o Expresso novamente a partir de um take da Lusa, que relatava também “o nível de destruição do Leslie” na região. A natureza virou-se contra si própria - “registaram-se muitas quedas de árvores, algumas arrancadas pela raiz pela força do vento”, contava o citado take - e mostrava a debilidade da construção humana - “andaimes e placas de sinalização” cederam às rajadas da tempestade. Além dos ferimentos, o Leslie deixou “dezenas de desalojados” no distrito (à semelhança do constatado em Alcobaça e na Marinha Grande) e provocou “uma destruição muito grande em telhados de habitações”.

A Figueira da Foz assistiu à infração maior do furacão, ventos de 176 quilómetros por hora. O IPMA tinha preparado o país para a eventualidade da transgressão chegar a 180 ou até 190 mas ninguém se prepara para ficar com mais de 800 pessoas retidas num mesmo espaço. Foi o que aconteceu no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, após um concerto da fadista Carminho - as árvores tombavam na rua e havia que proteger a multidão do Leslie, ele que começou há 20 dias e “é muito distinto das tempestades tropicais habituais no Atlântico norte”. Trata-se de explicações do investigador Ricardo Trigo na SIC Notícias, que trouxe de novo o léxico psíquico para uma noite de tempestade: “Há um sistema depressionário muito intenso na Península Ibérica que está puxar o Leslie para norte”. Depressionário como numa das canções de Carminho: “E quando o vento se agita / Agita-se o meu tormento / Quero esquecer-te, acredita / Mas cada vez há mais vento”.

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