observador.ptobservador.pt - 14 out 01:50

O furacão Portas foi a Peniche sem passar por Portugal

O furacão Portas foi a Peniche sem passar por Portugal

Antigo líder centrista falou em Peniche na Escola de Quadros do CDS onde o furacão se previa forte, mas os ventos eram de Europa e levaram-no para outras geografias. Eis Portas, o euro-desiludido.

Paulo Portas é um furacão político, mas nem o facto de estar em Peniche nem os ventos no exterior o empurraram para a política nacional. Num debate na Escola de Quadros do CDS perante cem alunos da “jota”, o antigo líder dos centristas previa falar sobre a Europa no Mundo e não fugiu do guião. Não foi euro-cético, como nos anos 90, nem euro-calmo, como se definiu nos anos 2000, mas mais um euro-desiludido: a defender que a Europa tem de continuar unida, mas a criticar a forma como a União Europeia está atrasada na economia digital ou na forma como olha para as migrações.

Paulinho das férias. Assim continua. De férias da política. Nem a demissão de um ministro de uma pasta que já ocupou, nem a crítica de Cavaco Silva, que lhe chamou “infantil e pouco patriótico” num livro de memórias que aí vem o espicaçaram ao ponto de abrir a janela da política nacional. Como noutros anos e, como tem feito no comentário semanal TVI, preferiu falar só de política internacional.

Só mesmo forçando muito se consegue encontrar uma graçola política, quase inofensiva. Quando refletia sobre o envelhecimento da população mundial, Portas mostrou um gráfico nos ecrãs em que a fatia azul (que representava a Europa) decrescia quase para níveis irrelevantes nos próximos anos, enquanto a fatia laranja (que representava África) crescia. O antigo líder foi rápido a evitar outras leituras: “No queijinho muda, essencialmente, o bocadinho laranja, sem ironias políticas”. Noutros contextos, Portas desejará, claro, que o azul (CDS) suba mais que o laranja (PSD).

Mas a noite era de Europa, Europa, Europa. Paulo Portas explicou, por isso, que a próxima semana será “de alto risco e stress na Europa”, já que é uma semana em que há eleições na Baviera (dif��ceis para Merkel), em que os Estados-membros entregam os orçamentos a Bruxelas e também termina o prazo para um acordo para Brexit. Para o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros seria “aterrador” que não houvesse acordo para o “Brexit” já que “o Reino Unido precisa do continente e o continente precisa do Reino Unido”. Quanto à União Europeia, a grande dependência de Londres é, para Portas, ao nível da “segurança”. Isto porque, neste momento, “só existem duas potências nucleares e militares na Europa e uma vai sair”, disse o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, que aproveitou para umas farpas a Theresa May a Emmanuel Macron: “São potências militares e não se deve a nenhum destes políticos que governam para os likes. Deve-se ao De Gaulle e aos conservadores britânicos”.

Sobre as migrações, Portas criticou o facto de a Europa estar velha e com falta de visão para ter mais recetividade à imigração: “A Alemanha foi uma exceção”. Para logo lançar um pequeno elogio a Angela Merkel, perante uma plateia de jovens democratas cristãos e num painel onde também estava um orador alemão, Wilhelm Hofmeister, diretor da Fundação Konrad Adenauer (financiada e associada da CDU de Merkel) para Portugal e Espanha: “A chanceler teve a reação que é própria de uma pessoa cristã”.

Ainda sobre migrações e para contrariar a ideia de que o fenómeno é negativo para a economia, Paulo Portas lembrou que “58% das empresas de Silicon Valley foram criadas por imigrantes ou filhos de imigrantes“, acrescentando: “Isto nenhum populista vos vai dizer”. Enquanto falava de migrações — e defendia os países que acolhiam imigrantes — o powerpoint desligou-se dos ecrãs, o que motivou mais uma graça: “Foi o Salvini“. Lembrou também a “crise terrível” que se vive na Venezuela — sem considerações sobre o regime de Maduro —  e destacou que dos 1,6 milhões de venezuelanos que saíram do país desde 2015, cerca de um milhão foram para a Colômbia.

Sobre competitividade na Europa e o atraso face à concorrência (em particular os Estados Unidos) na economia digital, lembrou o antigo líder centrista que “se a Europa se fragmentasse só a Alemanha estaria no Top 10, só a Alemanha contava e mesmo assim longe dos primeiros lugares”.

Sempre a fugir a leituras nacionais, o antigo vice primeiro-ministro lá deixou uma reflexão sobre um dos fenómenos da política moderna: o uso das redes sociais. Para o antigo presidente centrista este uso político é “inevitável”, mas advertiu que “para tomar boas decisões e fazer uma boa governação é essencial ter memória”. O que com as redes sociais praticamente não existe. “A memória foi ontem à tarde, é o máximo que consegue”, lamentou. Para Portas, existe atualmente o “totalitarismo do imediato, não do essencial, mas do urgente”, em que há “a prevalência do emocional sobre o racional.”

Antes de Paulo Portas falar, o coordenador da Escola de Quadros do CDS, Diogo Feio, anunciou que o nome indicado pela Juventude Popular para as Europeias é o braço-direito e vice-presidente do líder Francisco Rodrigues dos Santos, Francisco Laplaine. Para “Chicão”, Portas deixou uma ou outra referência durante a intervenção, como quando mostrou um mapa em que prevalecia o verde: “Este verde é uma cor para o ‘Chicão’. Em rigor, para mim e para o Chicão”. Era uma referência ao facto de serem ambos do Sporting. Até de futebol se falou numa intervenção que contornou sempre tudo o que pudesse ser lido como referência à política nacional. Os ventos continuam a soprar para outros lados.

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