www.publico.ptpublico.pt - 14 out 06:43

O fogo, uma ferida profunda num corpo frágil | Incêndios florestais

O fogo, uma ferida profunda num corpo frágil | Incêndios florestais

Há feridas que demoram muito tempo a sarar. Principalmente as que afligem corpos debilitados. Como os do interior de Portugal. Um ano depois d

as tragédias de Mação, de Pedrógão ou de Alijó, as suas marcas continuam intensas, profundas, dolorosas, como que a simbolizar a persistência de uma memória intensa, profunda e dolorosa. Vai demorar muito tempo até que a natureza faça o seu caminho e imponha as tonalidades do verde ao negrume das árvores mortas ou ao esbranquiçado da terra calcinada. Será uma luta sem gente. Há muito que as pessoas dessas comunidades fragilizadas pelo esquecimento e pela idade desistiram de recuperar o que quer que seja. Mesmo que pudessem, dificilmente teriam energia e ânimo para o conseguir.

O que estas fotografias captadas por Nelson Garrido com recurso a um drone nos revelam é a impossibilidade de um regresso. O fogo consumou uma fatalidade que vinha de trás, talvez desse país rural que se extinguiu no êxodo dos anos de 1960, e deixou como testemunhas os últimos sobreviventes de aldeias que, em muitos casos, são já hoje os derradeiros fiéis depositários de cultivos, trilhas, espaços silvo-agro-pastoris que persistiram séculos sem fim. Os geios que as labaredas devastaram há muito que não eram agricultados e jamais o voltarão a ser. O mato há-de impor-se à floresta. Os pequenos pomares ou as pequenas vinhas que ainda persistiam poderão ter acabado para sempre. Depois dos fogos de 2017, deu-se mais um passo, certamente fatal em muitos casos, para o abandono.

É verdade que a regeneração natural fará o seu caminho e, dentro de cinco ou dez anos, os matos voltarão a definir as margens dos caminhos tal como hoje os choupos que resistiram às chamas definem o curso do ribeiro que, perto de Alijó, segue em direcção ao rio Tua. Os fetos já auguraram o renascimento, os rebentos do eucalipto comprovam a resiliência dessa árvore à destruição, em breve os pequenos pinheiros começarão a crescer nas zonas onde os solos ainda conseguem acolher uma réstia de vida. Mas, um ano depois, o que podemos ver nesse cenário desolador é ainda uma ferida aberta à espera que o tempo sirva de panaceia.

No futuro, quando o verde se impuser de novo na paisagem, talvez a memória dos incêndios de Pedrógão ou de Mação se comece finalmente a dissipar. Os geios, as pequenas vinhas e os pequenos pomares terão talvez sido abandonados para sempre. A natureza essencial do mundo rural do interior, sinal de um tempo onde tantas vezes o romantismo se confundia com a pobreza, ficará ainda mais distante e incompatível com o admirável mundo dos robots ou da inteligência artificial. A terra que já é de pouca gente tornar-se-á uma terra de ninguém.

As feridas dos incêndios não serviram apenas para destruir a floresta e calcinar o solo já de si esquelético e frágil. Serviram também para provar que há vastos espaços do mundo rural português que só existem nas palavras eventuais dos políticos. Na realidade, hoje são e continuarão a ser no futuro o corpo debilitado no qual os incêndios abrem feridas que apenas cicatrizam. Não há cura para tamanho mal. O preto que persiste nesses lugares é a cor mais precisa para nos lembrar desse país que o país foi incapaz de incorporar.

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