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Premium: A ala do Hospital da Guarda que o ministro da Saúde não visitou

Premium: A ala do Hospital da Guarda que o ministro da Saúde não visitou

Internamento de cardiologia tem vidros partidos e cadeiras rotas e enferrujadas. Adalberto Campos apenas foi levado ao novo edifício.

Situada no edifício do antigo Sanatório Sousa Martins, a enfermaria de cardiologia que interna mulheres na Guarda está em condições deploráveis. Além das cadeiras enferrujadas na sala de duche, há paredes parcialmente destruídas junto à janela e a porta que separa as camas da galeria tem um plástico descolado no lugar do vidro. Isto já para não falar das cadeiras, igualmente destruídas, onde as doentes se sentam à hora das refeições ou quando têm visitas.

"É uma pouca-vergonha", disse ao JN o marido de uma das utentes que não quis ser identificado, mas que cedeu, inclusivamente, as fotos do local onde a mulher está internada. "Aqui é que o senhor ministro devia ter vindo!", desabafou.

De visita à Guarda, menos de uma semana depois do presidente da Secção Regional da Ordem dos Médicos ter dito publicamente que o ministro da tutela "se tinha esquecido da cidade e dos utentes da região", Adalberto Campos Fernandes esteve ontem no edifício mais recente e atravessou o antigo sem visitar qualquer enfermaria. Contudo, caso a Administração da Unidade local de Saúde(ULS) - que remeteu explicações para a semana -, quisesse mostrar algumas das debilidades da instituição e o ministro se deslocasse à enfermaria em causa veria também que, ao lado, a Unidade de Cuidados Coronários Intermédios, fechada em julho sem a anuência da diretora do serviço, tem nesta altura uma doente monitorizada. Tal como já recebeu um cidadão holandês que inspirava cuidados especializados. A ULS encerrou o serviço e eliminou quatro camas com o argumento de que a entrada em vigor da lei das 35 horas reduzia a disponibilidade de profissionais de saúde.

Demissões

Sobre as recentes demissões dos três médicos que integravam a gestão integrada dos blocos operatórios e área cirúrgica, o ministro optou pelo pragmatismo e respondeu com uma pergunta. "Faz algum sentido o ministro da Saúde estar a intrometer-se em questões que são da intendência administrativa local?" Na carta de demissão enviada à Administração, António Matos Godinho justificou a saída do bloco com "constrangimentos decorrentes das novas regras de gestão dos materiais cirúrgicos e da resistência da sua aceitação por alguns pares".

O diretor demissionário referia-se à ortopedia, onde o diretor de serviço também já se demitiu, e à cirurgia, onde o diretor interino, segundo foi reportado à Administração, usa próteses de uma empresa a quem vendeu a patente e de que é consultor não pago, informações que o próprio confirmou ao jornal "O Interior".

Enfermeiros entregam carta aberta ao governante

No dia em que era certa a reunião entre enfermeiros, em greve há três dias, e o Ministério da Saúde, a secção da Guarda do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses entregou uma carta aberta ao titular da pasta. Em traços gerais, a missiva dá conta da insuficiência de profissionais na ULS da Guarda e diz que Adalberto Campos Fernandes "tem o dever de disponibilizar meios". E a título de exemplo deu as falhas nos serviços de medicina, urgência médico-cirúrgica, bloco e serviço de cuidados intensivos.

Programa oficial

Adalberto Campos Fernandes teve um encontro com a Administração e o presidente da Comunidade Intermunicipal, que decorreu à porta fechada, entregou quatro viaturas destinadas às visitas domiciliárias dos centros de saúde e esteve numa sessão com funcionários do hospital e autarcas.

Ordem reúne médicos

É já no próximo dia 19 que a Secção Regional da Ordem dos Médicos reúne na Guarda todos os diretores de serviço da ULS. "Temos recebido muitas queixas e entendi que seria hora de fazer esta reunião que é inédita", sublinhou o presidente Carlos Cortes ao JN. " Há falta de recursos, de material e até a segurança dos utentes parece estar em causa", rematou.

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