sol.sapo.ptDinis de Abreu - 13 out 13:59

O foguetório eleitoralista…

O foguetório eleitoralista…

A girândola eleitoralista assentou arraiais, até o poder instalado convencer os portugueses a ‘corrigirem’ o voto que derrotou um candidato a primeiro-ministro nas últimas legislativas… que mesmo assim o é, graças ao golpe de rins com o qual amarrou à cintura o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, transformando-os em ‘guarda-costas’ e salvo-conduto.

A ‘geringonça’, convém não esquecer, é a tradução desse gesto ‘iluminado’ de António Costa para enganar o fiasco nas eleições de 2015, que não foi por ‘poucochinho’. 
O estratagema funcionou, com o Bloco desejoso de meter a sua gente no aparelho de Estado e nos media – públicos e privados –, e o PCP a retomar a mão nos sindicatos que estavam a ‘perder o pé’, designadamente nos transportes, vitais para paralisar as rotinas urbanas sempre que der jeito.

É certo que nem tudo foram rosas. O PS confrontou-se com a desastrosa gestão de António Costa, desde os incêndios de Pedrógão aos de Monchique, passando pelo roubo de material de guerra em Tancos, pela novela dos prejuízos da Caixa Geral de Depósitos – e da mudança de administração – ou, ainda, pela degradação dos hospitais públicos, sujeitos às cativações a eito. 

O Bloco também bateu no fundo e perdeu a virgindade ao defender o indefensável no caso Robles, para além de outros disparates arvorados em ‘causas’ em que se envolveu. E o PCP, fustigado pelo rombo nas autárquicas, ‘encostou às boxes’ em Almada e noutros bastiões que há muito tinha como conquistados. Acabou enfraquecido e humilhado. 
Ironicamente, estes revezes vieram ‘lubrificar’ a ‘geringonça’ – e, percebendo-o, Costa abusou disso, atuando no Governo com as costas quentes, quer pela incapacidade dos parceiros em romperem o acordo, quer pela proteção de Belém, nunca negada. 

Com este lastro, o primeiro-ministro em exercício parte confiante para os próximos atos eleitorais, presumindo que não será incomodado, nem à esquerda, por motivos óbvios, nem à direita, onde Rui Rio transformou o PSD num deserto de ideias, e Assunção Cristas tarda em descolar no CDS.

Todavia e à cautela, não vá o diabo tecê-las, Costa avia a receita do costume, oferecendo umas ‘migalhas’ para calar o funcionalismo público e os pensionistas, cujo voto é fundamental, e inventa passes sociais para as famílias, com preço bonificado, à boleia de Medina que lançou o ‘isco’ em Lisboa. 

O certo é que, tanto o PCP como o Bloco, acossados pela caça ao voto do PS, não lhe querem ficar atrás e reclamam benesses, como se o país não fosse um dos três mais endividados da Europa, ao lado da Grécia e da Itália, fazendo vista grossa ao agravamento continuado dos impostos indiretos. 

Enquanto a esquerda se aninha no poder e disputa o eleitorado, Rui Rio duvida das sondagens que lhe vaticinam o afundamento eleitoral – hipótese que, aparentemente, não lhe tira o sono.

Valha a verdade que este Governo nunca foi afoito em planos, esgotando-se nas ‘reversões’ e numa navegação errática. Teve a sorte de Portugal estar na moda como destino turístico, o que permitiu melhorar as receitas, baixar o desemprego e reanimar a economia. Calhou. 

Um exemplo flagrante desse desgoverno é o recuo total na transferência do Infarmed para o Porto, que António Costa prometera a Rui Moreira, na ressaca da candidatura frustrada a sede da Agência Europeia do Medicamento, ganha por Amesterdão. 

A recusa generalizada do pessoal do Infarmed, e os argumentos invocados, puseram a nu a impreparação da medida, anunciada a trouxe-mouxe, sem o menor estudo prévio. 

Com o à-vontade que lhe é peculiar, António Costa deu o dito por não dito, deixando o ministro da Saúde a fazer uma triste figura, a somar a outras em que tem sido pródigo. 

Costa não quer ter problemas nesta fase do campeonato, muito menos com corporações – sejam farmacêuticas, militares ou outras –, concentrado como está no único objetivo que lhe importa, que é captar o eleitorado central, sem ter maçadas que ensombrem os próximos meses. 

O foguetório está para durar, no Orçamento do Estado ou em ‘rebuçados’ avulsos, enquanto o ‘Retrato de Portugal’, apresentado há dias em Bruxelas, exibe um país na cauda da Europa nas estatísticas da Educação: mais de metade dos empregadores (54,6%) não frequentou o ensino secundário ou superior (UE 16,6%). Está tudo dito.

Nota em pé de página: O Presidente tem uma relação complicada com microfones e câmaras de TV – não sabe evitá-los. E expõe-se, tanto a perguntas idiotas sobre as suspeitas que atingem Ronaldo e os seus os affaires sexuais, como às impertinências de Mário Nogueira nos festejos do 5 de Outubro na Praça do Município. Em ambos os casos fez mal em pôr-se a jeito. A popularidade não justifica tudo. 

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