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Vikash Dhorasoo, a angústia do jogador que não joga

Vikash Dhorasoo, a angústia do jogador que não joga

Perdeu a titularidade para Zidane na selecção francesa que disputou o Mundial 2006 e fez um documentário sobre como foi ser um suplente que quase não sai do banco.

Estão na moda os documentários dos bastidores de uma equipa de futebol. O Manchester City, por exemplo, vendeu à Amazon o acesso total à campanha na época passada por dez milhões de euros, e o resultado foi uma série documental em oito episódios a mostrar as explosões de Pep Guardiola, entre outras coisas, durante a caminhada triunfal dos “citizens” rumo ao título da Premier League. Juventus e Boca Juniors fizeram negócios semelhantes com a Netflix, e estes são só alguns casos no futebol. Talvez tenha sido essa a intenção de Vikash Dhorasoo no Mundial de 2006. O médio era um dos 23 convocados da França e levou para a Alemanha uma câmara de Super 8 para ir filmando os bastidores da campanha dos “bleus”, mas ele pouco jogou nesse Mundial, a França perdeu a final e o filme acabou por ser um retrato melancólico da vida de um suplente que não sai do banco.

Substitute” foi o filme que saiu das filmagens de Dhorasoo e de um amigo, o músico Fred Poulet, que lhe deu a câmara de filmar. São 70 minutos em que quase não se vê futebol. Zinedine Zidane nem sequer aparece (já lá iremos), e são raras as aparições de outros jogadores franceses e do seleccionador Raymond Domenech. Então, o que se vê e ouve neste documentário que chegou a passar no festival de cinema de Berlim em 2007? Corredores vazios, quartos de hotel, conversas de Dhorasoo com ele próprio ao espelho e ao telefone com o amigo, a sua camisola 8 pendurada no cacifo ou em cima da cama, o médio sentado no banco de suplentes e do qual só iria sair duas vezes (jogou um total de 16 minutos) durante um torneio em que a França seria derrotada pela Itália na final, o infame último jogo de Zizou pelos “bleus” em que foi expulso após uma cabeçada a Marco Materazzi.

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Dhorasoo foi um médio centro com técnica e excelente capacidade de passe, mas que teve sempre fama de conflituoso. Nascido nas Maurícias, mas de origens indianas, Dhorasoo cedo chegou à primeira equipa do Le Havre e chamou a atenção de Raymond Domenech, então seleccionador francês de sub-23, integrando a equipa que estaria nos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996. Em 1998, ano em que uma grande geração francesa seria campeão mundial, Dhorasoo foi para o Lyon, que estava a formar uma equipa que iria dominar o futebol francês no início do século XXI – sete títulos consecutivos entre 2002 e 2008. Na ressaca do título mundial, Dhorasoo teve as suas duas primeiras internacionalizações A em 1999, mas só voltaria à selecção em 2004. Neste período, depois de um empréstimo ao Bordéus (onde coincidiu com Pedro Pauleta), foi bicampeão francês, foi eleito o melhor jogador da Ligue 1 em 2004 e mudou-se para o gigante AC Milan na época seguinte.

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Não foi muito feliz em San Siro porque tinha uma concorrência galáctica no meio-campo – Gattuso, Seedorf, Rui Costa, Pirlo ou Kaká, e nem saiu do banco naquela fantástica final da Champions de 2005 que o Liverpool ganhou nos penáltis após um empate 3-3 – e voltou a França, desta vez para representar o PSG, onde reencontraria Pauleta. Ao mesmo tempo que fazia uma grande época na equipa parisiense, Dhorasoo, já um trintão, era um fixo na selecção francesa durante qualificação para o Mundial 2006. Esteve em sete dos dez jogos do apuramento (marcou um golo) e parecia ter a confiança de Domenech, mas o apuramento estava a decorrer aos soluços e o seleccionador foi recuperar alguns que se tinham retirado dos “bleus”, Zidane e Makelele. O espaço de Dhorasoo começou a ser mais curto, mas ainda houve um lugar para ele nos 23 convocados. Para ele e para a sua câmara.

Ninguém na comitiva sabia que Dhorasoo estava a fazer um filme. Para todos os efeitos, era só alguém que andava com uma câmara a captar momentos para consumo doméstico. Mas seria mais que isso. Dhorasoo já era um jogador no ocaso da carreira que iria ter, aos 33 anos, a sua única oportunidade de estar num palco internacional. Mas o regressado Zidane reduziu os seus minutos na selecção quase à insignificância, tirou-lhe, como diz a certa altura, “a sobremesa”. “Fiz quase todos os jogos, participei nesta bela aventura, mas não tive direito à sobremesa. É essa a imagem. Comi bem, mas fiquei sem o meu ‘fondant’ de chocolate. A minha sobremesa é este filme”, confessa o jogador já no último dia do torneio, no autocarro a caminho do estádio olímpico de Berlim, em que a França perderia com os italianos nos penáltis.

Ao contrário de outros documentários “backstage” de desporto, não há aqui depoimentos, nem imagens de arquivo, ou excertos de jogos. São sequências atrás de sequências a mostrar a solidão e a melancolia de alguém que se sentia na periferia de tudo. Não se vêem golos, nem grandes jogadas, mas vêem-se as placas a indicar as substituições. Vê-se Dhorasoo quase sempre sozinho, à parte dos colegas, seja nos festejos ou na desilusão final – há, no entanto, dois secundários portugueses, Pauleta e Tiago, que jogavam na altura no futebol francês, e que conversam durante alguns minutos com Dohrasoo antes da meia-final com a selecção portuguesa.

É um filme feito com duas câmaras de Super 8 e com a sua típica imagem cheia de grão, como se fosse um filme caseiro, com o som próprio da câmara a ser muitas vezes o som que se ouve. Também tem uma banda sonora, que vai de “Substitute”, dos The Who, a “Another Sunny Day”, dos Belle and Sebastian. Jogadores como Zidane e Patrick Vieira não aparecem porque não deram autorização para que a sua imagem fosse utilizada e mesmo Domenech só se vê ao longe, num plano do balneário após a final em que David Trezeguet está a ver-se ao espelho e a ajeitar a gravata.

Jogadores e equipa técnica não levaram a bem a intenção, entretanto revelada, de Dhorasoo em fazer um filme e os minutos que ele fez frente à Suíça e à Coreia do Sul foram os seus últimos nos “bleus”. A sua carreira também não seria a mesma após o Mundial. Foi despedido do PSG por problemas com o treinador Guy Lacombe, não lhe correu bem nova aventura italiana (Livorno) e terminou a carreira em 2008, tornando-se jogador profissional de póquer e activista em causas sociais. Mas nunca escondeu algum rancor em relação a Zidane, o melhor jogador francês de sempre que lhe “roubou” a última oportunidade - “quando ele voltou, toda a gente ficou contente, menos eu, que iria deixar de jogar”. Mas o filme que ele e o amigo deram ao mundo é o que acontece em todos os campos onde se joga futebol, como referia numa entrevista em 2012 à ESPN: “Quem joga, quem não joga, quem está no banco, quem está certo, quem está errado. Não é apenas a minha história, é a de todos.”

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