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António Fragoso e a nostalgia do futuro da música portuguesa

António Fragoso e a nostalgia do futuro da música portuguesa

Um concerto com adaptações sinfónicas de algumas das melhores obras de António Fragoso (1897-1918) assinala este sábado em Coimbra o centenário da morte do compositor que se tornou uma “figura de culto” da música portuguesa.

No dia 13 de Outubro de 1918, há precisamente cem anos, na aldeia da Pocariça (perto de Cantanhede), morria subitamente o compositor e pianista António Fragoso com a idade de apenas 21 anos, vítima da epidemia de gripe pneumónica. Nesse ano fatídico, a mesma doença tirou a vida a três dos seus irmãos, ao pintor Amadeo de Souza-Cardoso, ao maestro e violoncelista David de Sousa e a mais de uma centena de milhares de portugueses. 

Apesar da sua curta existência, Fragoso deixou um conjunto de obras que tem exercido grande fascínio junto dos músicos e melómanos e que o coloca entre as figuras de relevo da história da música em Portugal dos inícios do século XX. Foi o criador de páginas pianísticas admiráveis como a Petite Suite e os Sete Prelúdios, de refinadíssimas canções (como as Canções do Sol Poente e os Poèmes Saturniens, a partir de Paul Verlaine) e de várias obras instrumentais de câmara, que têm despertado crescente interesse por parte dos intérpretes e que foram objecto de especial atenção no âmbito da programação comemorativa do centenário, promovida pela Associação António Fragoso (AAF).

Criada em 2009 pelos herdeiros do compositor e presidida por Eduardo Fragoso Martins, esta associação promoveu no último ano concertos e conferências em mais de 40 localidades de Portugal, assim como o lançamento de um CD com a integral da obra para canto e piano pela soprano Carla Caramujo e pelo pianista João Paulo Santos. O concerto de encerramento das comemorações, que se realiza neste sábado à noite (às 21h) em Coimbra, no Grande Auditório do Convento de São Francisco, parte da eterna questão: “Que música poderia ter Fragoso escrito se tivesse vivido mais tempo?”

Nessa perspectiva, vários compositores foram desafiados a fazer adaptações sinfónicas de algumas das melhores páginas do compositor, que serão interpretadas por Inês Andrade (piano), por Tamila Kharambura (violino) e pelo Ensemble MPMP, dirigido por Pedro Neves. O programa é constituído por La ville Automne (arranjo de Sérgio Azevedo), Petite Suite (arranjo de Edward Luiz Ayres d’Abreu), Concerto Romântico (arranjo de Sérgio Azevedo), Nocturno (versão orquestral do próprio A. Fragoso) e Sonata em mi menor (arranjo de Rui Paulo Teixeira). Ainda no âmbito do centenário, foi realizado por Laurent Filipe o documentário A Vida Breve de António Fragoso, que irá ser transmitido em breve pela RTP2.

PUB “Objecto de um luto sem fim”

O facto de não ter tido tempo para amadurecer em pleno a sua linguagem contribuiu para a criação de um mito em torno de António Fragoso e alimentou a nostalgia de um suposto génio da música portuguesa, cujo talento e curiosidade pelas correntes estéticas europeias do seu tempo poderiam ter aberto novos caminhos. Essa ideia saudosista percorre a recepção do seu legado e encontra-se explicitamente no título da primeira monografia que lhe foi dedicada: António Fragoso: um génio feito saudade (1968), de Leonardo Jorge.

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Conforme assinala o musicólogo Paulo Ferreira de Castro no livro António Fragoso e o Seu Tempo (CESEM-AAF, 2010), Fragoso converteu-se ao longo do último século numa “figura de culto” e no “objecto de um luto sem fim, que parece por vezes estender-se à própria música portuguesa no seu todo”. Apesar das iniciativas que têm promovido o estudo da sua obra e da sua personalidade de forma mais distanciada, com destaque para o colóquio realizado em 2008 na Culturgest, continua a ser difícil fugir à tentação da especulação sobre a música que Fragoso não teve tempo de escrever. “Se para alguns a música de Fragoso se identifica com o Romantismo que não chegáramos a ter (tornando-a por isso mesmo vulnerável à suspeita de um relativo anacronismo), outros haveriam de reivindicar a sua obra como emblema de uma ânsia de actualização das referências técnicas e estéticas no domínio da composição no limiar do século XX”, refere Paulo Ferreira de Castro.

Para este musicólogo, actualmente coordenador do departamento de Ciências Musicais da Universidade Nova de Lisboa, Fragoso foi “uma personalidade dividida entre dicotomias múltiplas e pulsões contraditórias — nacionalismo e cosmopolitismo, melancolia e modernidade, culto platónico do absoluto musical e consciência da historicidade da arte”, mas também “um espírito ávido de cultura e particularmente inclinado à reflexão”, uma atitude pouco vulgar entre os músicos portugueses da sua geração e um sinal de maturidade intelectual.

Nascido a 17 de Junho de 1897 no seio de uma família ligada à magistratura, António Fragoso manifestou desde a primeira infância forte inclinação para a música, tendo iniciado a sua formação musical com o seu tio, António dos Santos Tovin, médico de profissão e amador de música entusiasta. Depois de completar a instrução primária, foi viver para o Porto a fim de frequentar o liceu, e continuou os estudos musicais como aluno de piano de Ernesto Maia. Cedendo à pressão da família, frequentou o curso superior de comércio, mas acabaria por o abandonar dois anos depois. Fixou-se então em Lisboa e inscreveu-se no conservatório, onde estudou com Tomás Borba (harmonia), Luís de Freitas Branco (acompanhamento e leitura de partituras) e Marcos Garin (piano).

Pianista dotado e compositor de talento, apresentou-se pela primeira vez em público em 1916, na Academia de Amadores de Música, num concerto integralmente preenchido com obras da sua autoria. Quando morreu, tinham apenas passado três meses após a conclusão do curso superior de piano com a nota máxima de 20 valores. No entanto, o conservatório causou-lhe impressões contraditórias, quer pelos resultados pouco satisfatórios obtidos no exame de harmonia quer pelo ambiente rotineiro e propenso a favoritismos. Numa carta ao pai (22-3-1916) expressava a sua vontade em “sair daquela ilustre agremiação de músicos cuja inteligência (com raras excepções) é absolutamente incompatível com a ideia de progresso, da evolução da Arte, e cujo espírito é simplesmente mesquinho”. Nalgumas das suas notas pessoais pertencentes ao seu espólio, mas também em artigos e cartas, Fragoso mostra poucas ilusões a respeito do meio musical lisboeta, que acusará ocasionalmente de pedantismo e ignorância: “Enfim, faz pena, mas tenho esperança [de] que lá para o ano 2000, pouco mais ou menos, o público português esteja capaz de gostar de música moderna.”

Revela-se também céptico em relação ao tratamento erudito de temas populares portugueses devido à sua insuficiente variedade harmónica, ao contrário do que sucedia com as músicas tradicionais húngaras, norueguesas ou espanholas, que tinham inspirado Liszt, Grieg ou Albéniz. Chega mesmo a escrever num artigo no jornal Correio de Cantanhede, publicado poucos dias antes da sua morte, que os compositores portugueses “nunca poderão servir-se dos temas populares para base das suas composições, sem caírem num ridículo estúpido e numa banalidade chata”.

Nos seus últimos anos de vida, Fragoso desenvolveu uma intensa actividade criativa e uma curiosidade insaciável pelas correntes musicais estrangeiras da época, sobretudo as de origem francesa. Com raízes na expressão romântica, a sua linguagem musical caracteriza-se por atmosferas poéticas e texturas delicadas, mostrando afinidades com os primórdios do Impressionismo. Compositores como Debussy, Ravel e Fauré exerceram um forte fascínio sobre o jovem compositor, que durante os poucos anos em que viveu não fazia mais do que “estudar música, falar de música, comer música, dormir música e pensar em música”, conforme escreveu numa carta à irmã (27-1-1915).

Com a excepção das Toadas na minha Aldeia (canto e piano), a obra de Fragoso foi produzida em apenas quatro anos (1915-1918). Compôs um trio para piano, violino e violoncelo, uma sonata para violino e piano (incompleta), obras corais, uma dezena de Lieder e cerca de trinta peças para piano. Entre as suas obras pianísticas mais representativas encontra-se a já referida Petite Suite, Pensées Extatiques, Prelúdios, Nocturnos e a Sonata em mi menor. Entre as peças para canto e piano, destacam-se as Canções do Sol Poente (sobre poemas de António Correia de Oliveira) e as melodias sobre poemas de Verlaine Fêtes Galantes e Poèmes Saturniens, reflexo da sua adesão ao universo simbolista como fonte de inspiração. Estas últimas são páginas de grande subtileza, marcadas por uma relação texto-música cuidada que tira partido das particularidades fonéticas e da sensualidade da língua francesa.

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