observador.ptRuth Manus - 13 out 01:55

O que resta do meu Brasil

O que resta do meu Brasil

Atravessaremos as labaredas, protegeremos uns aos outros e, num dado momento, reconheceremos o Brasil. O Brasil da fruta doce, do samba e da poesia.

Não vou negar, nós- alguns- brasileiros estamos exaustos. Exaustos de ter que repetir o óbvio, de ter que defender a democracia, os direitos fundamentais e de lutar contra a onda fascista. Mas tudo bem, a gente segue na luta, perdendo uns fios de cabelo, uns amigos do passado e a paciência, de vez em quando.

Todavia, essa semana, por coincidência ou destino, recebi um convite para a inauguração da exposição A Língua Portuguesa em nós, no MAAT. Cheguei lá meio abatida, como tenho estado desde que o Estado Democrático de Direito passou a estar em jogo, mas pouco a pouco fui recuperando alguma cor no rosto pálido.

Sou de São Paulo e me lembro bem da primeira vez que fui ao museu da Língua Portuguesa, no ano da sua inauguração, quando eu era adolescente. Nem sonhava em ser escritora, mas já fiquei absolutamente apaixonada. Perdi as contas de quantas vezes visitei todos aqueles andares coloridos, interativos, com poesia que ecoava pelos quatro cantos, bem como as exposições temporárias que por lá passaram. Minha última visita foi exatamente uma semana antes do incêndio de 2015, que destruiu dois andares do museu. Caipirinha, churrasco e museus incendiados, especialidades brasileiras.

Quando o incêndio aconteceu, boa parte do mundo, sobretudo da comunidade lusófona, se solidarizou e muitos se mobilizaram para ajudar na reconstrução do museu, que deve reabrir no ano que vem. E a exposição itinerante que fui visitar no MAAT, promovida pelo próprio Museu da Língua Portuguesa, é como uma linda miniatura do museu rodando o mundo.

Conforme andava por ali, ia reconhecendo o Brasil que carrego dentro de mim. Ouvi a voz do Chico Buarque e de Dorival Caymmi, li Drummond, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Oswald de Andrade. Por alguns instantes, senti de novo meu Brasil com cheiro de manga fresca e de goiaba, meu Brasil de rima rica e da poesia fácil, meu Brasil da música boa e não do discurso de ódio. É esse Brasil que, na exposição, dialoga com Fernando Pessoa e com Sophia de Mello Breyner Adresen. Não poderia ser esse outro, que nos assombra nas noites de outubro.

Lembro-me da tristeza que me invadiu quando eu soube do incêndio no museu. Penso na tristeza que se instalou em mim desde que descobri o rosto obscuro que o Brasil vinha  escondendo há tantos anos. Mas penso no museu se reerguendo, se reconstruindo e levando beleza itinerante para o mundo todo. E a esperança acaba por renascer no meu peito no momento mais improvável de todos.

Atravessaremos esse incêndio. Não sei quanto tempo ele vai durar, nem quantos perderão a vida a exemplo do bombeiro Ronaldo Ferreira da Cruz- que morreu tentando proteger o acervo do museu- enquanto tentam proteger seus direitos e os direitos dos próximos. Marielle Franco, Mestre Romualdo Rosário, quantos mais? Não sei. Mas atravessaremos as labaredas, protegeremos uns aos outros e, num dado momento, reconheceremos o Brasil. O Brasil da fruta doce, do samba e da poesia. O Brasil de verdade e não esse, sangrento, intolerante e irreconhecível.

(a exposição A Língua Portuguesa em Nós é uma iniciativa do Itamaraty, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, a Fundação Roberto Marinho, o Museu da Língua Portuguesa, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, a Fundação EDP e o Instituto Camões e vai até o dia 21 de outubro de 2018, das 11 às 19 horas no MAAT, não deixem de visitar)

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