expresso.sapo.ptIsabel Moreira - 13 out 08:00

Cansei

Cansei

Opinião de Isabel Moreira

É tempo de trincheiras. “Cansei”, como se diz na terra onde nasci. É mesmo tempo de trincheiras. Os fascistas são meus inimigos, deles não me canso, com eles não falo.

Cansei da cumplicidade e da abertura do caminho para a negação da democracia.

Cansei do discurso simplista, e com fins evidentes, que vê na esquerda a culpada da ascensão do fascismo, sim, cansei daquela gente que diz que Bolsonaro não é culpa do Bolsonaro, mas culpa do PT e das minorias “contraproducentes” a dizerem #eleNão em vez de ficarem caladas. Esperam, imagino, que mulheres, negros, gente favelada, índios, homossexuais, transexuais, toda essa “minoria que deve vergar-se à maioria” (Bolsonaro) se cale, negue a luta, esqueça a execução de Marielle Franco e nessa execução a morte de tanta coisa.

Cansei de fazer autocrítica e de ver tanta da direita que nos rodeia sem pingo de capacidade de olhar um espelho. A direita que negou uma e todas as vezes todos os direitos de todas as minorias, que contribuiu ativamente para um discurso de ódio contra famílias de carne e osso, tentando mesmo referendar crianças, lançando assim o discurso legitimador do extermínio legal de famílias (estou a falar do serviço que Hugo Soares, apoiado pelo seu Partido, prestou na coadoção).

Cansei de ser ok ouvir discursos homofóbicos na casa da democracia, cansei de ser tido por normal defender-se (como o fazem CDS e PSD) que o casamento (e a procriação legalmente reconhecida) é para homem e mulher e o resto que se resigne ao apartheid onde o Estado Novo o tinha deixado, sem ruído e sem o embaraço de tanta visibilidade.

Cansei de Venturas não travados pelo PSD, antes fervorosamente apoiado aquando da sua candidatura autárquica e agora capa de um jornal anunciando o seu fascismo na crista da onda.

Cansei de gente calada perante a discriminação diária de tantas pessoas e doente de ativismo por causa de um exercício isolado de uma escola que perguntava o que não devia ser perguntado.

Cansei de explicar a “história toda” do sexismo cada vez que o tema da violação vem a debate.

Cansei da frase “é a democracia”, como se não houvesse uma responsabilidade coletiva por cuidar da mesma contra os seus inimigos.

Cansei de não chamar aos meus inimigos isso mesmo: inimigos.

É tempo de trincheiras. Sei quem são os meus inimigos. É o Papa Francisco, que afirma que “o aborto é como contratar um assassino”, talvez feliz com a sua contribuição pessoal para a manutenção da morte diária de mulheres na Argentina. É o Bolsonaro e são também todos os fascistas em crescimento na Europa. É quem cala quem luta. É quem consente no calar.

É tempo de trincheiras. Não voto, não votarei, nem quero qualquer contacto com quem seja misógino, homofóbico, transfóbico, racista ou xenófobo. Sim, isso inclui “achar” que há pessoas que não deviam ter o direito a casar ou a ver os seus filhos e filhas reconhecidos como tal.

Cansei.

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