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O que acontece se as temperaturas subirem mais de 1,5°C?

O que acontece se as temperaturas subirem mais de 1,5°C?

Relatório da autoridade científica da ONU diz que temos 12 anos para limitar a catástrofe anunciada

O relógio já começou a fazer tiquetaque e a janela de tempo para meter o planeta nos eixos é cada vez mais apertada. O alerta vem no último relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, divulgado esta semana.

Aquando do Acordo de Paris, em 2015, já se sabia que as ações propostas pelos signatários não impediriam que as temperaturas médias globais subissem mais de 3° C até ao final do século e que era preciso um esforço maior. Foi então acordado que o aumento não poderia ir além de 2°C, ou de preferência 1,5°C. Agora é claro que 1,5°C é o limite máximo aceitável num planeta cujos termómetros médios globais já subiram 1°C desde meados do século XIX. “As alterações climáticas estão a avançar mais rapidamente do que nós”, alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres, há um mês, lembrando que se não as travarmos “as consequências serão desastrosas”.

No documento agora divulgado, os cientistas sublinham a importância deste meio grau de diferença: uma subida adicional de 10 cm no nível médio do mar pode colocar mais 10 milhões de pessoas em risco; um aumento de 50% das pessoas expostas a stresse hídrico; ondas de calor mais severas; o dobro de plantas e animais vertebrados perderão metade do seu habitat; ou ainda a total destruição dos corais.

“O relatório vem confirmar que meio grau pode representar centenas de milhões de pessoas a mais que poderão ser afetadas”, sublinha Pedro Matos Soares, físico da atmosfera do Instituto Dom Luiz (FCUL). O investigador lembra também que “o que se vai passar em Portugal está em linha com o que se projeta a nível global”. Os estudos em que colaborou apontam, por exemplo, “para uma diminuição de 30% da precipitação nalgumas regiões”. Já na UE, “o impacto das secas pode atingir mais 20 milhões de pessoas”.

Para evitar estes cenários, os países têm de acelerar os roteiros para a descarbonização. O IPCC recomenda que as emissões de dióxido de carbono e de outros gases de efeito de estufa (GEE) sejam cortadas em 45% até 2030 — 3 a 4% ao ano, quando a média da década de 2000-2009 era uma subida de 3% — e cheguem a zero em 2050. As mudanças serão drásticas, mas os custos de nada fazer serão mais elevados, alertam os cientistas, lembrando que só restam 12 anos para agir.

Portugal está a fazer o seu Roteiro de Baixo Carbono para tornar neutras as emissões de GEE até 2050. As medidas passam por atuar em todos os sectores, dos transportes à agricultura, construção, indústria, produção de energia e gestão de resíduos. “Este roteiro nacional que está a ser feito pelo Governo é uma oportunidade única que tem de ser concretizada pelos próximos, num consenso alargado de todas as forças políticas e assumido por toda a sociedade”, reforça Francisco Ferreira, presidente da associação Zero, salientando que “o país precisa de uma Lei do Clima”.

Para se chegar a uma descarbonização global rápida, um grupo de cientistas — entre os quais Johan Rockström (vice-diretor do Instituto Potsdam para a Investigação sobre os Impactos Climáticos) — assinou um artigo na revista “Science” com propostas claras, mas drásticas: por exemplo, a redução para metade das emissões brutas de CO2 em cada uma das próximas décadas por comparação à anterior ou a utilização de tecnologia que remova este gás da atmosfera para que as concentrações recuem para 380 partes por milhão (ppm) em 2100 (já ultrapassou os 400 ppm). Lembram ainda que “os subsídios aos combustíveis fósseis, que custam 500 mil milhões de dólares por ano, têm de ser eliminados até 2020 e não 2025 como proposto pelo G7” e que os carros produzidos a partir de 2030 não podem ter motores de combustão interna. Sublinham ainda a importância de reduzir o desperdício alimentar e alterar a nossa dieta, já que mais de 10% das emissões de CO2 vêm da produção alimentar, sobretudo de carne.

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