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Está a crescer uma “ciência autónoma” que avalia os pés na sua plenitude

Está a crescer uma “ciência autónoma” que avalia os pés na sua plenitude

Miguel Oliveira, um dos primeiros a licenciar-se em Podologia em Portugal, já há muito que trabalha directamente com atletas de alta competição. “Poucos são os desportos que podem negligenciar os pés”.

A uma velocidade constante, Eduardo Cunha caminha para a frente e para trás sobre uma plataforma rectangular formada por cinco quadrados pretos. Tem que colocar só um pé no terceiro, que tem por debaixo de si mais de 2000 sensores que estão a enviar informação para o computador que indica onde é que o pé, seja o direito ou o esquerdo, está a fazer pressão. O atleta já praticou futebol, em clubes como Felgueiras, V. Guimarães e Rio Ave, mas também já fez natação, kickboxing e corrida. O que é comum a todas a estas actividades desportivas é o papel fulcral que o pé desempenha. E em Portugal existe uma profissão em crescimento que olha para esta parte do corpo na sua plenitude: o podologista.

“O pé é o que capta informação e que a dá ao organismo: como é que estou a fazer força, como é que estou apoiado, como é o meu equilíbrio, como é que estou a executar o movimento. Então, a partir daí produzo o movimento”, explica ao PÚBLICO Miguel Oliveira, podologista especializado na área da podoposturologia, que avalia “as implicações que o pé possa ter no resto do organismo e do corpo”.

A primeira vez que Eduardo, de 29 anos, visitou o consultório de Miguel Oliveira, em Felgueiras, foi em 2011, quando praticava futebol e lhe começaram a aparecer “umas dores na parte posterior do pé”. “Vim aqui fazer uma consulta para tentar perceber o que poderia ser. Foi-me indicado que poderia estar a ocorrer uma fractura de stress”, relembra o atleta. Depois de realizados todos os testes, começou a usar palmilhas e as dores “foram aliviando”. “Não tive problemas a seguir a isso”.

Em Portugal, o primeiro curso de Podologia nasceu em 1994, na Cooperativa de Ensino Superior Politécnico Universitário (CESPU) devido a “uma carência muito grande”. “Não havia uma formação graduada que tratasse os pés e olhasse para os pés na sua plenitude. Havia muitas coisas desgarradas nas diferentes especialidades, mas que não se interligavam”, aponta Miguel Oliveira, que fez parte da primeira geração a licenciar-se na área. A profissão, a “mais recente na área da saúde no país”, foi regulamentada em 2014.

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Vários clubes em Portugal passaram, entretanto, a integrar um podologista, como é o caso de Sp. Braga, Sporting ou FC Porto, mas, na opinião de Miguel Oliveira, o caminho a percorrer ainda é longo. “Todos os clubes de um certo patamar precisavam de ter um podologista”, sustenta. “Poucos são os desportos que se podem dar ao luxo de dizer que podem negligenciar os pés. Acho que todos os clubes têm de ter essa consciência”.

Miguel Oliveira trabalha com o FC Porto desde 2009 e, dentro do clube, avalia praticantes de futebol, basquetebol, andebol e hóquei em patins. Viaja até ao Olival e Dragão Caixa para os exames de início de época, regressando semanalmente para acompanhamento. No caso do futebol, a tarefa intensifica-se se a equipa estiver na Liga dos Campeões. “Andamos ali numa lufa-lufa”, reconhece.

Aos 46 anos, Miguel Oliveira está “muito ligado à área do desporto” e é no seu espaçoso consultório que recebe atletas de diferentes modalidades, que são tratados com a especificidade da actividade que praticam. “Se pensarmos no atleta de futebol, ele tem que colocar qualquer tratamento ortopodológico dentro de uma bota. Então, temos grandes limitações de espaço. Um atleta de basquetebol usa um calçado diferente que tem outras condições. Muitas vezes, até o diferencial das alturas da parte posterior para a parte anterior é muito diferente”, exemplifica.

Condicionantes diferentes

“Estás com quanto peso agora?”, pergunta o clínico. “89”, responde Eduardo. Uma consulta de Podologia começa com uma anamnese, um rastreio do historial clínico do paciente. No caso dos atletas, serve para perceber do que se queixam e há quanto tempo. “Começamos logo a ter uma ideia do que pode estar a acontecer. Um bom rastreio do historial é importante para conseguirmos direccionar o caminho que temos a trilhar”, descreve Miguel Oliveira.

Depois, Eduardo deita-se numa marquesa, onde são avaliados dados como a rotação da simetria dos membros, amplitude dos movimentos, textura da pele e volume dos dedos. Um dos dedos do atleta tem um volume maior do que o mesmo dedo do outro pé, o que leva Miguel Oliveira a formular uma hipótese: “Por aqui, podemos pensar que no calçado existem condicionantes diferentes”. Durante esta fase, o podologista faz-se acompanhar de um tablet onde vai apontando os resultados que, no caso de atletas que pertencem a clubes, são partilhados com os departamentos médicos para criarem um “plano específico”. “A partir daqui, já têm uma orientação do que vão encontrar”.

Na plataforma dos 2000 sensores, Eduardo faz uma análise postural e de dinâmica respiratória, em que fica de pé parado durante 51 segundos a olhar em frente. O processo é depois repetido com os olhos fechados. Porquê? “Quando fecho os olhos, estou a colher informação dos pés e do resto do corpo, e consigo estar mais estável. Aí temos que ver se não há um problema de integração da informação dos olhos”, refere Miguel Oliveira. Neste ponto, também se observa a forma como o corpo se equilibra, e, outra vez, os olhos voltam a influenciar. “É normal que com os olhos fechados haja maior oscilação, porque os olhos também nos dão uma informação de equilíbrio importante, mas não pode passar um certo parâmetro”.

Com palmilhas sensoriais inseridas nas sapatilhas, Eduardo caminha pelo consultório e corre numa passadeira. Em tempo real, Oliveira filma o atleta e recebe no computador informação sobre onde é que está a ser aplicada força. Este processo é muito vantajoso, porque serve para depois avaliar o que foi feito. Eduardo está a demorar pouco tempo a tirar o pé do chão, e isso é algo que também pode ser trabalhado numa consulta de Podologia. “Ou por via das ortóteses plantares ou por via da estimulação muscular do grupo de músculos que está mais activo nessa fase, para perceber se existe alguma debilidade”, diz Miguel Oliveira.

Estes testes fazem parte da primeira fase de uma consulta de Podologia virada para a competição. A fase seguinte é pensada de acordo com a patologia e a modalidade praticada pelo atleta."Haveria um trabalho em que o Eduardo teria que cá voltar para fazer um tratamento", conclui Miguel Oliveira. Diagnosticada a patologia, o clínico faz um esforço para que o tratamento seja aplicado até um máximo de oito dias

No laboratório adjacente, o clínico explica ao PÚBLICO algumas formas de tratamento: “Há os cuidados primários, que são os cuidados da pele e dos anexos que são sempre necessários, para não deixar que essas situações se traduzam num problema. E existem os tratamentos de correcção funcional dos pés com base em ortóteses e palmilhas personalizadas que vão permitir ajustar algumas assimetrias”, acrescenta, antes de mostrar o molde de um pé de um atleta que foi feito numa primeira visita.

O especialista ressalva a importância de um bom tratamento com o objectivo de fazer com que o atleta se sinta “confiante” e resume a importância da sua área de trabalho recorrendo à seguinte ideia: “Os pés são a única forma de ligar toda esta massa que é o corpo ao resto do meio. Têm de ter boa fixação.”

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