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Ambiente: Em Setúbal queremos tudo ao mesmo tempo

Ambiente: Em Setúbal queremos tudo ao mesmo tempo

Há muito que Setúbal tem uma identidade fortíssima. Não é fácil afirmar-se como uma grande capital de distrito paredes meias com a capital do país, em que parte da sua população pendula quotidianamente para lá, ou encosta-se à margem Sul do rio Tejo

em busca de melhores oportunidades.

Mas é pelo menos desde a celta Cetóbriga que a foz do rio Sado e o estuário por ela formado moldam a forma como se viveu e se vive em Setúbal. Primeiro como meio de comunicação e como fonte de alimento, mais recentemente como depurador natural ou plataforma de lazer, o rio Sado, do qual não podemos dissociar a serra da Arrábida, fornece-nos, a título gratuito, muitos serviços aos quais chamamos serviços dos ecossistemas, e dos quais dependem muitas actividades económicas da região.

Quando zelamos pela saúde destes ecossistemas, estamos a perpetuar o futuro das actividades económicas que deles dependem, e este é por certo o maior desafio que temos pela frente no Sado e na Arrábida. As actividades económicas que põem em causa o bom estado de funcionamento dos ecossistemas não são de forma alguma sustentáveis: nem ambientalmente, nem socialmente, nem economicamente. Tão-só porque a sustentabilidade que não envolva todas estas parcelas não se chama sustentabilidade.

Governar é escolher um caminho e em Setúbal sempre existiu muita dificuldade em escolher esse caminho: em Setúbal queremos continuar a ter uma indústria pesada numa das mais importantes zonas húmidas da Europa, queremos candidatar a Arrábida a património natural da UNESCO com uma cimenteira co-incineradora em laboração, queremos ter um porto de águas profundas num estuário de enorme dinâmica sedimentar com golfinhos aos saltos, ao mesmo tempo que promovemos a pesca artesanal e as praias maravilhosas.

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Em Setúbal queremos tudo ao mesmo tempo. Queremos sol na eira e chuva no nabal. Queremos mas não podemos. E quem disser o contrário, ainda que convicto, está a enganar-nos, a enganar-se a si mesmo, ou ambos. Em Setúbal, como em qualquer outro sítio, temos de optar. E as opções devem ser claras e não escondidas sob falsas promessas de prosperidade a qualquer custo, que depois quem cá estiver logo resolve como entender. E é isso que devemos exigir a quem toma as decisões em nosso nome. E é isso que devemos às geraç��es futuras.

Pelo atrás exposto, pela minha parte, há muito que estas opções estão tomadas.

Biólogo

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