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O “pecado original” dos mercados emergentes: o exemplo turco

O “pecado original” dos mercados emergentes: o exemplo turco

Desde o início do ano, a lira turca já perdeu cerca de 40% do seu valor em relação ao dólar americano.

Segundo a doutrina católica, nos primórdios da humanidade, Adão cometeu o “pecado original” ao comer o fruto proibido, lançando o ser humano na perdição. Em 2003, numa definição popularizada pelos economistas Barry Eichengreen e Ricardo Hausmann, “pecado original” passou a ser conhecido no âmbito da economia como a "incapacidade de um país de pedir empréstimos no estrangeiro, denominados na sua própria moeda" [1]. Aparentemente sem qualquer relação com a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden, o pecado original da economia foi assim designado por ter em comum as mesmas consequências, a perdição da humanidade, ou, neste caso, de países. Em 2018, é esta a história da Turquia.

Desde o início do ano, a lira turca já perdeu cerca de 40% do seu valor em relação ao dólar americano [2].

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No centro da crise estão as políticas governamentais do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. O mesmo defende a teoria invulgar de que taxas de juro baixas são necessárias para impedir a subida dos preços (o oposto é verdade). As baixas taxas de juro levaram a um crescimento exponencial do crédito, incentivando o consumo público e privado. A economia turca cresceu cerca de 7,5% em 2017 [3]. Mas a que custo? Ao mesmo tempo que a economia crescia, empréstimos estrangeiros eram utilizados para financiar défices fiscais e da balança corrente (défice para com o exterior). A dívida externa aumentava. A taxa de inflação chegou a 17,9% no mês de agosto [4], tendo o banco central turco por várias vezes hesitado em subir as taxas de juro, para acalmar a subida dos preços.

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Consequentemente, houve uma quebra de confiança dos mercados nas políticas empregues pelo governo turco que, juntamente com sanções económicas impostas pelos EUA, provocaram a depreciação da lira. Sucedeu-se uma venda agressiva da mesma numa altura em que os investidores desejavam despejar-se de um ativo que perdia valor diariamente. Este efeito "bola de neve" provocou a depreciação ao longo de 2018.

PÚBLICO - Aumentar Qual a relação entre uma depreciação cambial e o “pecado original”?

No caso da Turquia, devedora para com o resto do mundo, uma depreciação da moeda provoca um efeito negativo na riqueza externa do país. Desde 2001 que tem vindo a apresentar défices contínuos na balança corrente, o que, simplificando, significa que tem vindo a comprar mais bens e serviços ao resto do mundo do que os que vende.

Para obter financiamento necessita de recorrer a países externos, e é aqui que o “pecado” é cometido. A dívida contraída é geralmente denominada em moeda estrangeira e tem-se acumulado ao longo do tempo, sendo já mais de 400 mil milhões de dólares, representando cerca de 50% do PIB [5]. Se pensarmos, por exemplo, que no dia 10 de agosto a lira depreciou 16% em relação ao dólar, isso implica que este stock de dívida ficou cerca de 16% mais elevado, só nesse dia. Eventualmente, uma depreciação cambial tornar-se-á insustentável.

PÚBLICO - Aumentar Que soluções para o pecado original?

É verdade que as políticas turcas foram algo desadequadas face à situação económica, mas o “pecado original” agravou severamente as consequências. Estas crises de desvalorização cambial são frequentes em mercados emergentes. Além de muitos destes países empregarem políticas incorretas, existem também outros com problemas de competitividade, que não conseguem evitar défices na balança corrente, tendo invariavelmente de contrair empréstimos denominados em moeda estrangeira. Acresce a necessidade de se encontrarem soluções.

Existem dois rumos, ou o país se torna credível através das suas políticas e ganha capacidade para pedir emprestado na sua própria moeda, ou se altera algo nos mercados de capitais, para permitir que os mercados emergentes tenham acesso a uma fonte de financiamento mais segura. Relativamente ao primeiro caso, para ser possível receber empréstimos em moeda nacional de países estrangeiros, é necessário estes terem confiança que a divisa do país a quem emprestam não vai desvalorizar. Para manter um câmbio estável, ou até um regime cambial fixo, são necessárias instituições credíveis, política monetária e fiscais rigorosas, inflação controlada e uma balança corrente positiva por certos períodos de tempo (o país necessita de reservas estrangeiras para manter a sua taxa de cambio relativamente estável). Porém, nem todos os países em desenvolvimento têm esta capacidade. Um mercado emergente assim o é por não ter muitos dos atributos de uma economia estável, embora tenha potencial de crescimento. Para tal esse país necessita de investimento. E isto implica uma balança corrente negativa e a contração de empréstimos a estrangeiros.

Uma solução universal passaria por uma mudança no mercado de capitais. Já foi proposta, por exemplo, a criação de um índice constituído por uma média ponderada de moedas de mercados emergentes, com economias diferenciadas. O objetivo seria popularizar a transação do mesmo nos mercados mundiais, e que este fosse presença comum no portfólio de mais investidores. Haveria assim uma maior quantidade de moedas "exóticas" no mercado, permitindo empréstimos em maior escala a países do índice, agora em moeda nacional. Estas transações poderiam ser mediadas por um banco de investimento que executasse a cobertura do risco cambial do investidor. O banco de Investimento teria de ser compensado por possíveis perdas por uma instituição supranacional como o FMI, para ter incentivo a participar nas mesmas. O FMI também supervisionaria os países de modo a que estes não se excedessem na quantidade de dívida contraída.

Este tipo de solução não deixa de ser utópica e de difícil implementação. Para uma iniciativa do género suceder, teria de partir de instituições supranacionais como o Banco Mundial ou o FMI e ser apoiada pelos países desenvolvidos. Os incentivos para tal são poucos. Até lá, o problema persiste e os países, invariavelmente, vão dando dentadas na maçã de Adão.

Vox Nova é uma parceria entre o PÚBLICO e o Nova Economics Club, o grupo de estudantes de Economia da Nova School of Business and Economics. Um membro deste grupo escreve quinzenalmente

[1]? Eichengreen, Hausmann and Panizza (2003), Original Sin: The pain, the mistery and the road to redemption.
[2] Yahoo Finance
[3] Banco Mundial
[4] OCDE
[5] FMI

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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