ionline.sapo.ptMarta F. Reis - 12 out 11:26

Doze anos para nos importarmos

Doze anos para nos importarmos

“Falta a cruzinha da vontade política”, disse um dos responsáveis do painel de peritos da ONU que analisa o impacto das alterações climáticas. Virá a tempo?

Ter filhos pequenos faz-nos pensar mais vezes no longo prazo e ter mais preocupações, estados de alma difíceis quando o assunto é este lugar onde vivemos, o único, por agora. Por exemplo, quando está aquele tempo estranho, sem correr vento, o corpo já a pedir fresco, e ouvimos que o mês de setembro foi o mais quente desde que há registos – parece que nos últimos tempos estes recordes estão sempre a repetir-se –, a cabeça viaja logo para um futuro apocalíptico. Vemos secas intermináveis, intempéries, os fenómenos extremos cada vez mais frequentes, um planeta cada vez mais frágil, com comunidades mais frágeis, mais doenças, guerras e pobreza. Já assim é em muitas regiões do globo, as mais vulneráveis, onde a escassez de água causa mais desalojados do que os conflitos armados. Como vai ser quando eles tiverem, vá, a nossa idade? Pomo-nos a fazer contas e estamos em 2050, aquele ano redondo das projeções que nunca tinha feito realmente parte das nossas vidas.

Esta semana, um novo relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas veio tornar os cenários pessimistas um pouco mais reais e mais próximos. Cerca de 90 peritos de 40 países reviram 6 mil artigos científicos para perceber o impacto de conter o aquecimento global em 1,5 ºC face aos valores pré-industriais ou de garantir apenas que o aumento não excede 2 ºC, a base do compromisso internacional da cimeira de Paris. Concluíram que a diferença entre os dois cenários é significativa – em custos humanos, materiais e naturais. É uma questão técnica com uma resposta ainda mais técnica, mas a síntese foi disseminada à escala mundial na última segunda-feira: ficar pelos 1,5 ºC, que a este ritmo serão alcançados em 2040, será mau mas menos arriscado – pode reduzir a metade o desaparecimento de algumas espécies, diminuir em dez centímetros a subida do nível do mar até ao final do século, diminuir a pressão sobre as fontes de água potável e o risco de pobreza. O problema é que não dá para acenar que sim com a cabeça: se até 2030 não se cortarem substancialmente as emissões de CO2, se não se adotarem energias limpas, se não houver uma globalização do transporte elétrico como nos últimos anos aconteceu com os smartphones ou com as lâmpadas LED, se não se for mais longe do que os compromissos assumidos depois da cimeira de Paris, estaremos num ponto sem retorno. Portanto, já só temos 12 anos para mostrar que nos importamos com qualquer coisa mais do que com o agora e connosco. “Apresentámos aos governos escolhas bastantes difíceis. Apontámos os enormes benefícios de manter os 1,5 ºC e as alterações sem precedentes nos sistemas de energia e transportes que seriam necessárias. Mostrámos que isto pode ser feito no que toca às leis da física e da química. A cruzinha que falta é a da vontade política. Não podemos responder a isso, apenas aqueles a quem nos dirigimos”, disse Jim Skea, responsável por um dos grupos de trabalho do IPCC.

Trump, à frente do segundo país mais poluidor a nível mundial, respondeu mais uma vez de forma desconcertante: disse que ia ver quem fez este relatório porque há outros documentos que sustentam que as alterações climáticas vão ser fabulosas... O “Trump tropical” Bolsonaro, a ser eleito, também já prometeu abandonar o acordo de Paris. Por cá, o tema é levado a sério, mas foi nota de rodapé entre os casos opacos de Tancos e Ronaldo, como seria se fossem quaisquer outros a fazer correr tinta. Cá como lá fora, 12 anos são mais do que um ciclo político, um problema de todos e de ninguém. Mesmo quando 12 anos são já ali.

Jornalista

Escreve à sexta-feira

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