observador.ptJoão Pires da Cruz - 12 out 10:35

Fascista!

Fascista!

É verdade que não devemos dar a democracia como adquirida. Mas é bom não esquecermos que nunca houve nenhuma ditadura que não tivesse um enorme suporte popular, a começar pela nossa.

Nestes tempos de indiscutível sucesso de populistas como Bolsonaro, Trump, Iglésias e tantas outras personagens do mesmo tipo mais próximas de nós e que me abstenho de nomear, gostaria de fazer uma singela reflexão sobre o fenómeno e, talvez, meter um pouco de racionalidade no assunto. Só isto me parece suficientemente original para justificar que alguém se dê ao trabalho de escrever sobre o assunto, porque tudo o que lemos e ouvimos são, ou ofensas aos eleitores, que são corridos a quase tudo abaixo de imbecil; ou ofensas aos protagonistas, que sem prejuízo do tradicional imbecil, vai de tudo até ao bigodinho quadrado por cima da beiça superior fazendo lembrar um filho de outra mãe.

Se me é permitido, gostaria de começar pelos últimos, pelos fascistas-imbecis-nazis-populistas-xenófobos-racistas-homofóbicos. Vamos admitir que não é particularmente inteligente da nossa parte admitir que um empresário caído muitas vezes e tantas outras levantado, como Donald J. Trump, ou um académico de sucesso, como Pablo Iglésias, sejam burros. Burros é que não são de certeza e o seu sucesso pessoal mostra isso de forma gritante. Repare-se que tanto um como o outro poderiam fomentar o ódio aos brócolos, aos baixotes ou aos pezudos. Do ponto de vista teórico da tática populista continuavam perfeitamente nos limites da craveira e no que ao fomento do ódio diz respeito, no mesmo nível que estão hoje. Mas não, eles sabem perfeitamente onde colocar os ódios. E repare-se que nem precisam de ser particularmente coerentes. Veja-se o caso Iglésias, tantas vezes enterrado em escândalos de financiamentos de estados estrangeiros para o combate à monarquia espanhola e passa a vida a clamar contra os financiamentos ilegais dos políticos de direita, ou os casos de “amizade” de Trump com a cleptocracia russa, o seu suposto inimigo externo, ou as suas cruzadas moralistas que tropeçam nas barreiras da sua própria vida pessoal. Se virmos bem, são grotescamente incoerentes e tão mentirosos que só por superlativa boa vontade se deixam passar tais pecados. Mas de onde vem tanta boa vontade?

Isto traz-nos aos primeiros, aos eleitores que os sustentam. E se já é suficientemente estúpido assumir que os fascistas-imbecis-nazis-populistas-xenófobos-racistas-homofóbicos são burros, então partir do mesmo princípio relativamente aos eleitores é perfeitamente irracional. Como Trump e Iglésias sabem bem, a política é feita de escolhas, mas de escolhas finitas. Ao eleitorado não é dado o inteiro domínio de possibilidades, mas apenas uma pequeníssima amostra daquilo que, no abstrato, poderia ser a gama de escolhas. Liderada por um académico brilhante que soube colocar as prioridades das pessoas à frente das modernices que lhe eram vendidas, ainda que com isso arrastasse para a infelicidade milhares de outras. As pessoas não esperam muito para lá daquilo que lhes é devido e que não vai muito para lá de lhes permitir viver como podem e em paz. E se acham que Trump ou Bolsonaro são fascistas, esperem pelo próximo se estes não forem bem-sucedidos na satisfação das prioridades das pessoas.

(As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente o seu autor)
PhD em Física, Co-Fundador da Closer, Vice-Presidente da Data Science Portuguese Association

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