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Quando a América do medo tomou o lugar da América do rock’n roll

Quando a América do medo tomou o lugar da América do rock’n roll

Quando Thurston Moore admitiu, a um jornal inglês, que gostaria de cercar, na companhia de outros músicos, a Torre Trump, em Nova Iorque, e destruí-la com o som das guitarras, exprimiu um velho sentimento: o de que o rock ainda pode ser veículo de p

rotesto e luta política, de que conserva uma história e um imaginário com que é sempre possível inventar, senão mesmo, ajudar a construir um país. Essa possibilidade (utópica) já tinha sido sublimada em Teenage Riot, o tema de abertura de Daydream Nation, o álbum-duplo que agora celebra o seu 30º aniversário. Recordem-se as figuras que apareciam no respectivo videoclip: Bob Dylan, Beach Boys, Black Flag, Iggy Pop, Tom Waits, Patti Smith, Neil Young, Mark E. Smith, Joni Mitchell, Nick Cave e os Birthday Party, Harvey Pekar, Jack Kerouac, Elvis Presley, Dinosaur Jr., Minor Threat, Minutemen, Sun Ra, Jimi Hendrix e, finalmente, uma personagem de ficção, a Jane Henderson (Nastassja Kinski?), de Paris, Texas. Todos com os Sonic Youth, na mesma promessa improvável, mas sedutora, de um país governado pelo rock & roll, com colunas de som e guitarras nas mãos.

Essa utopia não era outra senão a da cultura com que os EUA se inventaram perante o mundo, e em particular perante a Europa. Uma cultura pop em aliança íntima com a arte, feita de discos, livros, filmes, pinturas, poemas, romances, canções, imagens de concertos. Uma imagem da América que muito de nós receberam, acarinharam, cultivaram e protegeram. Que formou imaginários e inspirou biografias, e nos deixou obras e personagens. Daydream Nation está cheio delas: Andy Warhol, Joni Mitchell, todas as declinações do punk, os Velvets, a literatura, as memórias visuais e musicais anos 60, as liberdades das vanguardas nova-iorquinas. Mas está também, e talvez sobretudo, nos músicos. Thurston Moore, Kim Gordon e Lee Ranaldo representaram, porventura como poucos na segunda metade do século XX, um tipo particular de músico rock americano: letrado, curioso, cosmopolita, ávido de leituras. Filhos da classe média (todos tiveram pais professores), cresceram entre a Califórnia e Nova Iorque num ambiente cultural sensível à arte, à música, distante cultural e geograficamente da América rural e do interior. A América dos Sonic Youth é ou foi a de Obama e, já agora, de Hillary Clinton.

Do ponto de vista dos músicos, podemos concluir que uma ideia da América, mais radiante, livre, artística fez Daydream Nation. Já se escutarmos as canções, estas deixam emergir o seu inverso, numa imagem sombria, sinistra, feia. Nesse retrato, estão a pobreza, a objectificação dos corpos, a redução da vida à mercadoria e a violência sexual sobre as mulheres. Importa mencionar que a sedução pela delinquência, por ambientes e histórias violentas não era inédita e no disco manifesta-se em canções como The Wonder, Eliminator JR ou The Sprawl. Mas os Sonic Youth foram sempre observadores distantes dessas realidades, nunca as conheceram em primeira mão (nos primeiros anos, muitos jornalistas estavam convencidos que a banda era composta de junkies violentos e doentios). Essa distância, quase diletante, permitiu-lhes ver o que outros não puseram em canções, falar de histórias que ainda não sabíamos escutar. Procurem ouvir Kissability. Nesta canção, Kim Gordon fala de um ponto de vista que podia ser o de Harvey Weinstein, numa situação assédio sexual a uma mulher. Alguns excertos: “Look into my eyes, don’t you trust me? You’re so soft, you make me hard I’ll put you on a movie, don’t you wanna? You could be a star, you could go far, You’ve got kissability”. Em The Sprawl, os versos replicam frase ouvidas, na rua, a prostitutas, mendigos e toxicopendentes: “Come on down to the store, You can buy some more, and more, and more, and more”. Há algo de sinistro e triste nesta súplica. Era a outra América que o disco passava: infernal, niilista, decadente, consumidora, vulgar. Submersa na faixa inicial, assomava quase inseparável daquela que Teenage Riot celebrava e da qual os Sonic Youth foram excelsos representantes. Luz e trevas, alegria e medo.

Terá sido essa América, a do medo, que tomou o lugar da outra, mais benigna e livre, que a conquistou, impedindo ou dificultando qualquer reconciliação com a sua imagem presente? Ou quando os Sonic Youth citavam a literatura de James Ellroy ou assassinato cometido por Robert Chambers em 1986 estavam a dizer-nos que ela esteve sempre lá?

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Desde Daydream Nation deram-se vários fenómenos e acontecimentos.  A ascensão do hip-hop, nem sempre alheio ao culto do neo-liberalismo, o 11 de Setembro, e a eleição de Donald Trump (um alter-ego político de Axl Rose, não de Kurt Cobain). De um momento para o outro, os próprios Sonic Youth terão tido dificuldade em reconhecer o país e a cidade que habitavam. Resta saber se esse não reconhecimento, esse desconforto, esse recuo, não é já o sinal de um declínio cultural dos EUA. Nada nos autoriza a pensar assim.

Se a torre de Trump continua onde está, e se já se teme a reeleição do homem que quer tornar a América grande outra vez, aquilo que fez um disco como Daydream Nation não desapareceu: o espírito do-it-yourself, a cooperação generosa entre músicos, editores e públicos, enfim, toda uma história da arte, da música e da cultura que herdámos da América, uma América que não é, nem tem de ser, a de Trump ou Harvey Weinstein.

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