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A censura da omissão e a agrura do boato

A censura da omissão e a agrura do boato

Em liberdade, não há lápis azul, mas há esta poderosa forma de censurar, num aparente jogo democrático de escolhas.

Com o 25 de Abril, percorremos já 43 anos sem o “lápis azul” da censura. Recordo-me de, com 14 anos, ir mensalmente a casa de um senhor bem vestido e, ao que me lembro, coronel, numa rua perto daquela em que vivia em Ílhavo, para que lesse e visasse quatro inofensivas e ingénuas folhinhas de um “jornal” então chamado Giboia, de que eu era o “director”. Uma publicação de pequenos textos de um grupo de amigos e de notícias sobre o nosso desporto, na altura o andebol.

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Todavia, com o tempo, surgiu, sorrateira, uma forma censória não consagrada em lei. Refiro-me à omissão, mais ou menos deliberada, mais ou menos selectiva. Em liberdade, não há lápis azul, mas há esta poderosa forma de censurar, num aparente jogo democrático de escolhas, não escrutinável quanto à decisão (e decisor) da omissão. O silêncio que transporta é, não raro, uma forma sibilina de esconder, suprimir, reduzir o que se passa.

Na sociedade de informação, o que não é noticiado ou divulgado não existe. E, pelo contrário, o que não existe, mas é amplamente espalhado, passa à categoria de facto, sem necessidade de evidência. Nessa matéria, há até mestres e agências especializadas... A omissão deliberada ou consentida tem-se revelado cirurgicamente como uma forma perversa de “fazer notícias” ou “alinhar noticiários”. E nem se pode falar de falta de espaço ou de tempo, num tempo de jornais online sem limite e de jornais televisivos de hora e meia.

PUB IPSIS VERBIS

CITAÇÃO I: “O menor desvio inicial da verdade multiplica-se até ao infinito à medida que avança” (Aristóteles)

CITAÇÃO II: " Uma garrafa de vinho meio vazia está meio cheia. Uma meia mentira nunca será uma meia verdade” (Jean Cocteau)

EUFEMISMO: Inverdade (em vez de mentira), ainda que não se diga “inmentira” (em vez de verdade)

HIPÉRBOLEMentiu com todos os dentes que tem na boca (para um desdentado)

CATACRESEA mentira tem pernas curtas ou longas, conforme o meio usado

IRONIA: “Se disseres a verdade, vais ver que, mais tarde ou mais cedo, és descoberto” (Oscar Wilde)

Estamos num tempo em que é ténue a fronteira entre a verdade e a mentira, entre a invenção e a omissão. Em que a verdade factual é suplantada pelas múltiplas formas da mentira: a meia-verdade, a notícia falsa, o rumor, a dilação, o exagero, a quimera, a publicidade encapotada, a ilusão, a insinuação, a manipulação, a agora chamada pós-verdade e outras formas capciosas de abastardar a factualidade, na “magia” de se dividir a verdade para multiplicar a mentira.

Há mais informação, a notícia corre célere, a imagem documenta até em excesso, e, todavia, também o boato e o rumor florescem, a cada instante, em toda a parte, tornando-se uma espécie de nova especiaria comportamental de organizações ou de pessoas mal com a vida e carentes de algo que lhes quebre o círculo rotineiro pelo qual se deixam aprisionar.

Ilustro estas considerações com dois assuntos surgidos nas últimas semanas. O primeiro é um monumento à omissão. Realizou-se no Porto uma conferência internacional com intervenientes que contestam o predomínio da influência humana nas alterações climáticas, tendo a geógrafa portuguesa responsável pela organização defendido que, apesar de não negar a existência das alterações climáticas, a acumulação de CO2 na atmosfera não é o seu motivo fulcral, até porque – disse – “é uma pequeníssima parte dos gases na atmosfera e a maior parte nem é produzido pelos humanos”. Sobre o que se passou no evento, quase nada soubemos. A excepção foi este jornal. Ao invés, foi sistematicamente noticiado o repúdio de cientistas protestando contra a realização desta conferência. Nos mesmos dias, realizou-se a Marcha Mundial do Clima, amplamente noticiada em Portugal embora com escassa presença por cá.

SCIENTIA AMABILIS <i>SCIENTIA AMABILIS</i> Foto

BELADONA (Amaryllis belladonna, L.)

A beladona é uma planta herbácea rústica e bolbosa. Quando surge nos campos, faz parte do anúncio do Outono. Dela transporto sempre a memória da minha infância, anunciando então o início da escola. Em certas zonas (sobretudo nos Açores) é chamada “meninas para a escola”. Noutras por “despedidas do Verão”. Na minha terra sempre as conheci por açucenas. Originária da região do Cabo na África do Sul, a sua bela floração surge antes das folhas no cimo de longas hastes de uma cor expressivamente purpúrea. A inflorescência dispõe-se em conjuntos que vão de seis a doze flores, trombetadas e com belos tons de branco e rosa mais ténue ou mais vivo, de uma fragrância muito intensa. Um outro nome muito curioso por que é também popularmente conhecida é o de "sogras-e-noras", que se deve à posição das flores, de costas voltadas umas para as outras. Algumas partes da planta, designadamente os bolbos (que atingem 10 cm, quase parecendo cebolas), são muito tóxicas.

Pessoalmente, tendo a concordar com a predominância dos efeitos da acção do homem nas alterações climáticas, mas sempre tenho a curiosidade e o interesse em ouvir opiniões divergentes. “Há quem pense que já sabe tudo e por isso não precisa de aprender nada”, disse a geógrafa citada. O progresso não é compatível com o unanimismo forçado e com a omissão do que não se enquadra no pensamento instalado. A omissão é, não raro, a arma da incompetência.

O outro caso é mais um da avalancha de boataria e de infâmia alimentada pelas redes sociais. No próprio dia em que foi conhecida a nova PGR Dra. Lucília Gago, surgiu, profusamente, uma fotografia de um encontro quando José Sócrates saiu da prisão e em que – suponho – se viam amigos e familiares, entre os quais uma pessoa do sexo feminino. Eis que alguém se lembrou de pôr a circular aquele momento com a legenda “adivinhem quem é a única mulher na foto? A nova procuradora!”. O incrível é que a ignomínia se espalhou virulentamente, reencaminhada, como agora é recorrente, por meio-mundo, de um modo completamente acéfalo, amoral, preguiçoso e irresponsável. Mais um boato que medra no anonimato e na perversão da (a)responsabilidade, com o ímpeto que resulta de ser informe, insidioso, larvar. O problema é que o seu desmentido perde no confronto, porque, ao contrário do rumor, tem de ser rigoroso na forma e exigente na substância. O boato é o mensageiro sem rosto da falsidade, da insinuação torpe, da meia-verdade. Na sua origem latina, boatus, significa um grito forte. Não nos decibéis, mas na sua capacidade de auto-reproduzir-se. Veja-se o que por aí vai nas redes sociais, onde se junta o progresso social do seu benefício com o retrocesso ético do seu malefício. A Internet deu voz aos imbecis, já dizia Umberto Eco.

Ah, quase me esquecia... Quer a omissão, quer o rumor têm, quase sempre, a companhia de um qualquer “alegadamente”.

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