www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 12 out 09:00

O pagode do Brasil

O pagode do Brasil

Quando a música começou foi como se o mundo, que normalmente se separa entre os que podem e os que não podem tudo e ainda mais alguma coisa, se juntasse - porque o samba pode castigar as pernas mas rejuvenesce a cabeça quando ela tem alma. - Opinião , Sábado.

Há filas que nos ensinam tudo sobre a coragem. Uma hora antes de a festa começar, naquela fila, centenas de pessoas estavam dispostas a aprender. A noite ia ser de pagode e se ninguém arrancava cabelos com a demora da abertura das portas era porque já se desconfiava, pela brisa que trazia o samba e mandava a má energia embora, que o concerto ia ser de arrepiar.

Novos e velhos caminhavam ordeiramente para dentro do Coliseu, mas os mais velhos só disfarçavam - com o sangue a ferver-lhes mais depressa nas veias, o que eles queriam de verdade era correr para a plateia, deixar o balcão para os envergonhados, desengonçados e menos animados e esperar pelos artistas de braços abertos (digo abertos mesmo, de maneira a fazer corar o inquilino mais famoso do Corcovado).

Quando a música começou foi como se o mundo, que normalmente se separa entre os que podem e os que não podem tudo e ainda mais alguma coisa, se juntasse - porque o samba pode castigar as pernas mas rejuvenesce a cabeça quando ela tem alma. Vi homens de 70 e muitos rirem e chorarem ao mesmo tempo, vi jovens de 30 e poucos abraçarem-nos e pularem com eles e até vi mulheres serem mulheres sem medo de serem mulheres.

Do palco, ouvimos de repente o mesmo: "Brasil, se cuida. Se cuida, Brasil." E então vi homens de 70 e muitos, jovens de 30 e poucos e mulheres de todas as idades benzerem-se literal e figurativamente. Faltavam poucos dias para a primeira volta e todos ali sabiam o que queria dizer: "Brasil, se cuida." Quando a música voltou, a alegria voltou com ela e trouxe a fé.

Quando o espectáculo acabou, a festa ainda ia a meio. Deixei o Coliseu com a sensação de dever cumprido - aquele povo tinha acabado de cumprir um dos seus desígnios: tinha sido livre, tinha sido alegre, tinha até olhado para o futuro. Ontem à noite acompanhei a primeira volta. E, claro, pensei no que disseram os artistas: "Brasil, se cuida. Se cuida, Brasil."

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