www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 12 out 07:45

Lucília Gago falou alto e bem

Lucília Gago falou alto e bem

Lucília Gago está ali para trabalhar, para aprofundar o combate à corrupção e seguir em frente no caminho de um Ministério Público autónomo e independente do poder político. - Opinião , Sábado.

A nova procuradora-geral fez um discurso de posse muito importante. Quando se esperava a habitual proclamação e reafirmação de princípios, Lucília Gago veio claramente dizer quais são os trabalhos concretos que reserva para si e os aliados escolhidos. Na primeira oportunidade, deixou uma extraordinária impressão, que põe a fasquia da exigência muito alta, é certo, mas não engana ninguém: está ali para trabalhar, para aprofundar o combate à corrupção e seguir em frente no caminho de um Ministério Público autónomo e independente do poder político.

Assumiu de frente o combate à corrupção e disse, sem papas na língua, que é necessário reforçar as perícias financeiras e informáticas, em particular da PJ, que lhe mereceu uma referência especial, na pessoa do director-nacional, Luís Neves, e na necessidade de reforçar a Unidade de Combate ao Crime Informático.

Na prática, ficou claro o recado ao Governo: não asfixiem financeiramente uma instituição decisiva para defender o Estado de Direito. E esse não é um problema despiciendo. A PJ já teve 300 inspectores na área do combate à criminalidade económico-financeira e hoje tem 70. A mais importante polícia de investigação criminal do País não tem carros nem computadores decentes. No caso concreto das perícias financeiras sofre a concorrência do próprio Estado: muitos dos seus quadros são contratados pelo Ministério das Finanças com salários claramente superiores.

Ao dizer o que disse sobre a PJ na cerimónia de tomada de posse, Lucília Gago dá a mão a esta polícia numa altura decisiva, em que está a ser apresentado o Orçamento de Estado, e em que só António Costa ou o ministro das Finanças, Mário Centeno, podem resolver os problemas financeiros que quase paralisam a instituição dirigida por Luís Neves. Mas, também, numa altura em que, no contexto dos dois processos sobre as armas de Tancos se fala numa guerra de polícias para justificar as detenções dos oficiais da PJM. Ora, Lucília Gago foi clara ao dizer que o Ministério Público será leal com todos os órgãos de polícia criminal mas que a PJ tem um lugar especial entre eles.

Depois, afastou especulações e temores: a distribuição da chamada Operação Marquês ao juiz Ivo Rosa não vai afastar o Ministério Público do seu caminho. Pelo contrário, a instrução vai ser milimetricamente acompanhada por esta magistratura. Por fim, não muda uma linha numa instituição essencial como o DCIAP. Manifestou grande confiança no magistrado que a o dirige, Amadeu Guerra, que, depois de ontem, só sairá em Março, no fim da comissão, se quiser. Péssimas notícias para quem já rejubilava com a ideia de que vinha aí o fim do Ministério Público ‘mau’ e ficava um eternamente ‘bom’. Afinal, a parte da justiça que está agora sob a liderança de Lucília Gago não distinguirá entre cidadãos de primeira e cidadãos de segunda. Ainda bem!

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