sol.sapo.ptNair Alexandra - 11 out 19:20

O meu tio Rolando

O meu tio Rolando

Rolando Tomás Ferreira, o «Capitão de Abril» falecido na última quarta-feira, dia 9, tomou parte na preparação da revolução que devolveu a Democracia a Portugal. Durante o «Verão Quente» de 1975, enquanto Eurico Corvacho comandou a Região Militar Norte, Tomás Ferreira foi o chefe de Estado-Maior daquela região. Ambos enfrentaram sobressaltos vindos de todos os lados. Mas, por trás da personagem tão importante deste momento histórico, quem foi Rolando Tomás Ferreira? Uma evocação, pela sua sobrinha

Nestas últimas semanas, desde que soubemos do agravar súbito do estado de saúde já frágil do meu tio e, com a minha mãe, fizemos as malas a correr para Penafiel, para o visitarmos naquela que eu não queria que fosse a despedida – contra toda a evidência – e em que cada vez que o telefone tocava sentíamos o coração ficar do tamanho de uma noz, nestas semanas com a espada de Dâmocles sobre a cabeça retive, naturalmente, muitos momentos. Tantos, como escolhê-los?

Logo, as memórias de infância: os aerogramas que eu escrevia ao meu tio Rolando, em Angola ou Moçambique, encontrava-se ele enleado numa guerra que não fazia sentido. Esteve em todas as frentes, Guiné incluída. Participando, sem o supormos, em reuniões conspiratórias que levariam à mudança do «estado a que chegámos», na expressão de Salgueiro Maia. Ao 25 de Abril e ao fim daquela guerra sem sentido. Ao golpe da madrugada libertadora dos cravos, onde ele esteve metido até aos cabelos.

Porque – é preciso dizê-lo – o meu tio pertenceu a uma das gerações que acordou para a política com a campanha de Humberto Delgado para as Eleições Presidenciais de 1958, as quais redundaram na farsa que sabemos. No final de Setembro passaram vinte anos sobre a iniciativa do Comboio da Liberdade, evocando aquele outro comboio que trouxe Delgado do Porto de regresso a Lisboa. Assinalavam-se os 40 anos dessa campanha. Eu vinha no comboio, como investigadora em História Contemporânea, então debruçada sobre o tema. O meu tio Rolando também ali veio.

Chegados a Santa Apolónia, ele convidou-me, à minha mãe, à minha irmã e a alguns amigos para almoçarmos juntos na Messe de Santa Clara. Durante esse almoço o meu Tio abriu-nos o livro das suas memórias políticas. Da sua participação nas manifestações maciças de 58, no Porto, contra o Estado Novo. Do que se lembrava da acção da PIDE em Tribunal. Estávamos no Outono de 1998 e eu já tinha feito as minhas escolhas ideológicas havia muito.

Houve, naturalmente, um período da minha vida em que eu já gostava muito do meu tio antes de aprender a admirar nele o homem do 25 de Abril e do período revolucionário que se lhe seguiu. Eram os tais tempos, de bibe, quando eu lhe escrevia, em letra infantil, que «os gatinhos já brotaram da “Pandilha” [a gata, que em minha casa, tinha ninhadas atrás das outras]». Nem mesmo a seguir ao 25 de Abril, quando eu, os meus pais e a minha irmã o fomos esperar ao aeroporto, a rádio a tocar Zeca Afonso o tempo todo, a alegria na rua, percebi bem quem era, realmente, o tio Rolando.

Nestes dias recentes de ansiedade dei comigo a pensar que o ambiente pós-Revolução (mesmo num meio não politizado, como aquele em que eu vivia), esse avesso do país cinzento e poeirento que eu conhecera e instintivamente estranhava, esse Sol de promessas fez-me nascer uma segunda vez. E o meu tio Rolando, sempre disponível para mim, sempre paciente, a dar-me tanta importância! Logo ele, que estava no centro das atenções, que cativava toda a gente com a sua simpatia natural e a expressão penetrante, arguta, dos seus lindíssimos olhos verdes, ele que tratava as pessoas de diferentes origens sociais com o mesmo respeito, mesmo, saídos que vínhamos, de um sistema social tão classista. Assim, ao longo dos anos eu vim constatando o quanto o meu tio era acarinhado, estimado, admirado - na doença recebeu visitas de soldados que estiveram sob o seu comando e que, tendo-o conhecido nessas circunstâncias, não o esqueceram. Assim, quando fiquei a saber que o meu tio era um «capitão de Abril», à amizade inicial acrescentei admiração e respeito. E criei com ele uma cumplicidade que nunca acabaria.

Dono de uma inteligência rara, com um sentido de humor fino e surpreendente, jamais desperdiçava palavras. Mesmo nestes últimos tempos de vida, doente e fragilizado, nos diálogos que mantínhamos pelo telefone, ele manejava a língua portuguesa com grande rigor, de forma despretensiosa e uma simplicidade só aparente. Foi assim toda a vida. Fazia largas leituras, aprendeu um pouco de Russo, colecionava máquinas de café antigas e cultivava plantas aromáticas que me dava a cheirar, revelando-se uma enciclopédia sobre o tema. Detestava a superficialidade, o culto da aparência.

Desenvolveu, a certa altura, uma paixão pela Astronomia – parece que estou a vê-lo com o telescópio, no quintal lá de casa! E ali, em Penafiel, discutíamos História, Religião, temas de política internacional, enquanto me mostrava álbuns de fotografias, armas antigas ou um objecto raro, em conversas que iam madrugada adentro. Interessava-se muito por Arqueologia e história local e, enquanto a saúde lho permitiu, manteve uma actividade cultural intensa na sua terra: fica, para exemplo, o facto de ter pertencido à Assembleia Geral da Associação de Amigos do (já premiado) Museu Municipal de Penafiel.

Guardo deste último encontro o apego com que ele segurava a minha mão. Claro que nunca mais os cravos de fogo de Abril irão trazer-me a mesma alegria, claro que as imagens do Portugal de 74 e de 75 vão reacender-me as feridas. Mas quero guardar o exemplo do melhor do meu Tio, deste Homem de Abril – o Abril de Liberdade, renascimento, luta e conquista de tantos direitos sociais. Ser digna do seu exemplo. Sobretudo nos duros tempos que vivemos.

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