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Fotografia. Adolescentes finlandeses sacodem o tédio em ralis no gelo

Fotografia. Adolescentes finlandeses sacodem o tédio em ralis no gelo

O silêncio níveo que cobre a superfície gelada de um dos muitos lagos de Korpilahti, na Finlândia, é quebrado por rugidos

O silêncio níveo que cobre a superfície gelada de um dos muitos lagos de Korpilahti, na Finlândia, é quebrado por rugidos de motores. Junto à linha de partida, aglomeram-se várias peças de sucata em estado funcional conduzidas por adolescentes que aguardam, nervosos, o sinal de largada.

O ruído atinge níveis ensurdecedores. Os veículos plissam ao longo da pista improvisada, lado a lado, cuspindo fumo e gelo. Alguns vão perdendo o controlo das viaturas e chocando contra as margens de neve macia do lago; outros “dão gás” na esperança de alcançar, antes de todos, a linha de meta. Durante a corrida, pilotos e espectadores sacodem o tédio mortal que domina as suas vidas. “As aldeias e vilas finlandesas podem ser um local difícil onde crescer”, assegurou o fotógrafo Ossi Piispanen ao P3, em entrevista por Skype. “Na maior parte do tempo, não há nada para fazer.” O finlandês cresceu em Saarijärvi, na região central da “terra dos mil lagos”, e sentiu na pele esse vazio.

O Rokkiralli – como é denominada, na Finlândia, a corrida de carros personalizados – é um hobbie à escala nacional. Os automóveis em corrida não podem ter um valor comercial superior a 650 euros, motivo pelo qual os resultados competitivos estão sobretudo indexados à perícia dos condutores — e não à qualidade da carroçaria. “A perícia ao volante é importante, assim como os conhecimentos de mecânica, mas o poder económico não entra nesta equação.” Foi esse factor que atraiu Ossi, um confesso não-simpatizante da modalidade em si. “Alguns destes miúdos são extremamente pobres, tendo em conta o standard finlandês. Claro que se fores um adolescente sem-abrigo não poderás ter um carro, mas isso não acontece na Finlândia. Ainda assim, alguns miúdos não têm dinheiro nenhum, mas adoram correr. Faltam às aulas para estarem no exterior, muitas vezes sob temperaturas de -20 graus centígrados, a melhorar os seus carros. Por outro lado, há miúdos que têm tudo: quatro carros, plataformas elevatórias para trabalhá-los e uma garagem coberta. Mas isso não influencia o resultado final das corridas. O que conta mesmo são as aptidões e o engenho de cada um.”

No Verão, há corridas todos os fins-de-semana por todo o território finlandês. Os pilotos mais dedicados não falham uma corrida. “Fora do circuito dos ralis, as pessoas juntam-se com os amigos quando calha, sobretudo depois do trabalho, mas também aos fins-de-semana.” Os mais novos normalmente conduzem nas vilas onde vivem – nos seus carros ou no carro dos amigos – ao som de música muito alta, enquanto bebem. “Este fenómeno juvenil chama-se pilluralli, em finlandês; em inglês pode traduzir-se para pussy rally.”

O mundo do Rokkiralli é muito masculino, mas, para confirmar a regra, existem algumas excepções. A piloto Taru Mikkonen dominava a liga júnior e, com o mesmo carro, passou a dominar a liga sénior. “Para ela, inicialmente, correr era uma forma de sair de casa, não ter de lidar com os pais chatos. Era uma forma de passar o tempo.” Actualmente, é encarada por muitos pilotos da modalidade como imbatível, “mortífera”.

Ossi Piispanen vive em Londres há uma década, onde trabalha como fotógrafo de publicidade para marcas como a, Adidas, a Nike a Levi’s, a Sony; contribui assiduamente para a Huck Magazine e VICE. E, além de fotógrafo, Ossi é videógrafo e documentarista, descrevendo-se como “um simples rapaz do campo que tem uma paixão genuína por fotografar pessoas de todos os estilos da vida”.

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