www.dinheirovivo.ptRicardo Reis - 16 set 08:12

Ramos vs. Williams ou Europa vs EUA

Ramos vs. Williams ou Europa vs EUA

Afinal feminina do open de ténis dos EUA de 2018 vai ficar na história.

A tenista Serena Williams violou regras por três vezes e protestou violentamente contra o árbitro Carlos Ramos. No final do jogo, acusou-o de racismo e sexismo, tornando um caso desportivo normal numa discussão que dominou debates nos dois lados do Atlântico. A maioria das análises extrapolou este confronto entre um homem branco e uma mulher negra para discutir a questão maior da discriminação. Mas este caso fascinante expõe também o confronto entre tradições socioeconómicas nos EUA e na Europa de duas formas.

Primeiro temos a diferença entre regras e critério individual, que é tão profunda que está enraizada até nos sistemas legais. Na Europa continental, predominam as regras. Leis extensas são aplicadas sempre que possível com pouca ambiguidade por juízes profissionais. Nos EUA, os julgamentos são antes decididos por júris de pessoas comuns tiradas à sorte da população. Tão importante quanto a regra é o contexto. As discussões concentram-se no bom senso do julgador, no uso do seu critério em cada caso em concreto.

Os defensores de Ramos esta semana repetem insistentemente que a sua conduta foi irrepreensível na aplicação correta das regras. No Expresso ele é citado dizendo que “arbitragem à la carte não existe”. Do outro lado, comentadores acham inacreditável que ele tenha tirado um jogo a Williams no segundo set da final do open dos EUA. Criticam-no por não ter usado a sua discrição para a acalmar e avisar que a punição podia vir a caminho. Algumas pessoas acham inadmissível que Williams tenha gritado que era uma mãe e uma mulher para dar força aos seus argumentos, enquanto que outros acham uma loucura que no ambiente atual americano com os movimentos “Black Lives Matter” e “MeToo”, Ramos não tenha tratado com mais cuidado uma das mais famosas mulheres negras.

Em segundo lugar está a diferença entre privilegiar a igualdade ou o sucesso. Sugerir que dentro do campo o Bruno Fernandes do Sporting deve ser tratado pelos árbitros de forma diferente do Bruno Monteiro do Tondela leva um português à loucura. Acontece com frequência ter as maiores estrelas suspensas ou expulsas numa final de futebol, mesmo que se saiba que sem o Ronaldo em campo as audiências e receitas vão baixar. Já nos EUA, é lugar comum que um árbitro da NBA não vai marcar uma sexta falta por carga ofensiva ao Lebron James numa final, a não ser que a violação da regra seja grosseira. O público americano acusa Ramos de ter estragado a final, enquanto o público europeu se choca ao ver Williams ameaçar um árbitro em pleno court, afirmando que ele nunca mais vai apitar um jogo dela.

A maior parte das pessoas que li esta semana estava agressivamente de um lado ou do outro desta disputa. Mas, nos dias tristes que correm marcados pela incivilidade e incapacidade de ouvir os outros, era bom parar para tentar perceber porque é que as opiniões sobre este caso são tão instintivas e fortes.

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