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"O meu avô ensinou-me a focarmo-nos mais nas soluções e não nos problemas, a não ficarmos a martirizar-nos pelo que aconteceu de mal"

"O meu avô ensinou-me a focarmo-nos mais nas soluções e não nos problemas, a não ficarmos a martirizar-nos pelo que aconteceu de mal"

Leia ou releia a entrevista a Rita Nabeiro, CEO da Adega Mayor

A vindima, que este ano começou mais tarde no Alentejo, obriga-a a passar mais tempo em Campo Maior. Tem sido assim nos últimos quase sete anos, desde que Rita Nabeiro lidera a Adega Mayor, a casa com traço de Siza Vieira que alberga os vinhos de autor do grupo familiar. Aos 37 anos dá, tal como outros dois netos, continuidade ao testemunho empresarial do avô, Rui Azinhais Nabeiro (87 anos). Mas com marca própria: “Temos todos personalidades bastante diferentes”, ressalva. Numa época em que a igualdade de género é palavra de ordem nas organizações com a imposição de quotas, saúda a chegada das mulheres a lugares de topo, mas não vê que isso, isolado, acrescente vantagem ou formas diferentes de gerir. Numa conversa entre barricas e talhas, acredita na possibilidade de contribuir para a sociedade fora do arco dos partidos e dos governos – motivo que a levou a recusar um convite para ser candidata a deputada nas últimas eleições legislativas. “Acredito que o meu papel pode ser mais relevante como cidadã, dando o exemplo, não necessariamente sendo da cor laranja, rosa, vermelha ou até azul.”

Como é que tem evoluído, através da Adega Mayor, esta ligação à vinha e aos vinhos?

Cada vez se criam raízes mais fortes, sentimos um apego muito maior, sobretudo quando percebemos que trabalhamos com um produto que vem da Natureza, da terra, que cuidamos as plantas todo o ano. Tem as suas dificuldades: como eu costumo dizer, trabalhamos com o nosso escritório a céu aberto.

Mas nasceu, viveu e estudou em Lisboa. Como é agora desdobrar-se entre o Litoral e o Interior?

Costumo dizer que sou 100% lisboeta e 100% alentejana, porque toda a minha família é de Campo Maior. Sou um pouco nómada: mas uma nómada saudável. Faço aquilo de que gosto, por isso sou privilegiada. Tenho o bom dos dois mundos e este contacto com a Natureza. E não é assim tão complicado fazer os 200 quilómetros que ligam o Alentejo a Lisboa.

Quando cá vinha de férias em criança, o seu avô dizia-lhe: “Um dia vens para cá trabalhar”?

Não, nunca senti qualquer pressão para vir trabalhar com a família. Recordo-me de a fábrica [dos cafés Delta] ser construída e de ver crescer aquilo num monte alentejano igual a tantos outros. Foi preciso muito trabalho de muita gente, a dedicação total da família. E ver aquilo que está aqui hoje é orgulho, mas também responsabilidade.

Como a família é tão presente no negócio, conseguem ter momentos de separação entre família e trabalho?

Eu consigo. Não sei se o meu avô, que continua muito ativo, consegue tão facilmente. É difícil definir fronteiras, mas às vezes é importante criar espaço para estarmos e para sermos apenas família.

Mas há esse peso do nome Nabeiro. A que é que soa, quando é dito em Campo Maior?

[Pausa.] Acredito que há uma associação positiva. Há uns anos, eu estava com um grupo de amigos de Lisboa aqui na Festa das Flores e uma senhora, que não sabia quem eu era, começou a falar espontaneamente do meu avô. Disse que ele só não deu uns olhos ao marido dela porque não podia. Há uma proximidade muito grande. É o exemplo que ele passa, de não nos resignarmos, de trabalharmos, de termos um sorriso. Se há coisa que eu acho que o meu avô não é – e com a qual eu também não me identifico nada – é um empresário cinzento.

Transmitiu-o aos netos?

Temos todos personalidades bastante diferentes, mas para mim é muito importante ter alegria, energia e, acima de tudo, rigor e profissionalismo no trabalho. Como noutra profissão, há dificuldades e temos de lidar com isso. Quando comecei a trabalhar, o meu avô ensinou-me a focarmo-nos mais nas soluções e não tanto nos problemas, a não ficarmos a martirizar-nos pelo que aconteceu de mal e pensarmos que é uma oportunidade para melhorarmos.

Mas é uma mulher num setor ainda predominantemente masculino. Alguma vez teve de abdicar do sorriso de que fala para fazer valer a sua posição?

Não é só na gestão feminina. Uma coisa é sermos alegres, simpáticos, outra coisa é sermos assertivos e justos. Incomoda-me é a falta de sentido de justiça, de transparência. Quando isso acontece, tenho de mostrar uma face mais dura. Mais do que ficar irritada, tenho de encontrar formas inteligentes, nem que seja pelo humor, de desconstruir esse tipo de atitudes. Já passei por essas situações. Nem sempre é fácil.

E o que se faz numa altura dessas?

Sentimo-lo em coisas às vezes subtis, não precisamos que sejam declaradas para nos magoarem. Nesse momento é importante dizermos o que sentimos, de uma forma assertiva se houver razão.

Ser mulher traz vantagens à gestão?

Não nasci homem, por isso não sei o que é ser homem. Mas não acredito. Conheço muitos homens que são excelentes gestores e tratam as suas equipas com muito respeito. O problema é que vemos alguns exemplos muito errados de liderança antiga, do homem agressivo que trata mal as pessoas. Mas há o oposto. E não estou a falar de ser mulher ou homem.

Como é que vê a chegada recente de mulheres na liderança de grandes grupos nacionais – Sonae, Amorim, Semapa? São mudanças com significado para o País?

É positivo, mas não por si só, tudo depende do que fizerem nessas funções. Não é pelo facto de serem mulheres que vão fazer um trabalho melhor. É saudável termos mais diversidade seja no que for – idades, género, cultura. Dá-nos uma riqueza que não temos quando só vemos um lado.

E para si, no grupo, tem algum significado especial?

O meu pai será, se assim entender, um sucessor natural. Três dos quatro netos trabalham na empresa e o meu irmão [Rui Miguel Nabeiro], com formação em Gestão, está posicionado para ser um possível sucessor. Eu sou a única neta. Acredito nas minhas capacidades e estarei disponível se entenderem que devo ajudar na liderança. Mas nem todos temos de estar em posições de topo. Posso acrescentar no lado das pessoas, da sustentabilidade, de uma visão mais agregadora... Quero que a empresa continue por muitos anos a perpetuar o legado do meu avô. Mas tenho outras ambições, projetos pessoais. Não me reduzo a esta dimensão empresarial.

Por exemplo…

Agora que este projeto está cada vez mais sólido, quero começar a desenvolver outras áreas. A minha formação de base é em Design de Comunicação, tenho de tentar aplicar esta criatividade para escrever, fotografar.

E consegue compatibilizar com a gestão da empresa?

Temos de criar condições e, se calhar, ainda não o fiz até hoje, como quando temos uma equipa e lhe damos autonomia. Não sou agarrada ao poder, temos de dar passos para criar outros espaços novos e ajudar as pessoas a desenvolverem-se.

Estar numa empresa familiar tem desvantagens?

Obviamente. Podemos sempre achar que podemos ter uma vida paralela e ficar a questionar isso. O exemplo do meu avô levou-me a vir trabalhar com a família. Sentimo-nos a trabalhar para algo que também é nosso, o que, por estarmos sempre envolvidos no negócio, ocupa muito mais espaço mental. Sentimo-nos um pouco – por assim dizer – mais presos. Uma “prisão” que também tem coisas muito boas. Por outro lado, pode levar-nos a questionar se estamos aqui pelo nosso real valor ou apenas porque somos da família.

Questiona-se?

Todos os dias tenho de me questionar. Senão, não estarei a fazer bem o meu trabalho. Tento melhorar e, no que não sei, ir buscar conhecimento a outras pessoas, aprender. Tem de ser esse o nosso desafio, não ter medo de errar, mas tentar criar condições para nos tornarmos, no bom sentido, substituíveis. Hoje estou aqui, mas amanhã posso não estar.

Como é que vê o atual momento económico?

Fico satisfeita quando se sente um clima de otimismo no País e isso se traduz nas pessoas. Quando se sentem bem, trabalham melhor e acabamos por ter bons resultados. Não podemos é ser demasiado ingénuos e deixar-nos acomodar neste otimismo porque poderá criar uma falsa ilusão de segurança.

É o caso?

Não sinto. Mas é importante termos a consciência de que, para não voltarmos ao passado, é preciso não cometer os mesmos erros. Se tivermos de cometer erros, que sejam outros. No entanto, a memória às vezes é curta – quer para os políticos quer para quem nos governa.

Vê sinal disso em quem governa?

[Pausa.] De uma forma transversal, não vejo. É preciso ter alguns cuidados, dar oportunidade a novos rostos que não apenas os que estão nos partidos, neste caso com ideias novas.

Alguma vez pensou entrar nesse mundo?

Desafiaram-me nas últimas legislativas e declinei. Acredito que o meu papel pode ser mais relevante como cidadã, dando o exemplo, não necessariamente sendo da cor laranja, rosa, vermelha ou até azul.

Era rosa a cor que a convidou?

[Risos.] Sim. Quando nos fechamos e dizemos que somos de determinada cor, começa a criar-se fossos demasiado grandes. Quem nos governa tem de pensar no que é melhor para o País como um todo. Como cidadãos, temos de ouvir. Há sempre coisas boas num lado e no outro, não podemos fechar-nos numa campânula. Em Portugal, felizmente, isso não acontece, mas há casos noutras geografias em que isso me assusta.

Fechou a porta à política?

Vejo-me a contribuir de outra forma. A política é uma coisa boa porque pensa em algo um bocadinho maior do que nós enquanto indivíduos – no bem de toda a sociedade. Nesse sentido, estaria disponível. Porém, não tem de ser só dentro de um partido político ou do Governo.

Fora do País, é dos extremismos, dos nacionalismos, da falta 
de diálogo, que fala?

Vivemos um momento estranho, há uma falsa tranquilidade que pode desequilibrar-se. Um Presidente norte-americano que é muito instável e imprevisível e que, do ponto de vista dos valores, é o contrário do que vimos até hoje. Vivemos num “egossistema” muito estranho. Os egos têm-se sobreposto muito ao que é uma dimensão humana e mais justa. Estamos a aprender com todas estas mudanças, podem ser usadas para veicular bons ensinamentos e mensagens, mas também para o contrário.

Na sua geração, quem vê a emergir como líderes em Portugal?

Há pessoas que eu admiro do ponto de vista político ou ativista, mas tenho ao mesmo tempo alguma crença na geração seguinte, no início dos 30 ou no final dos 20 anos. Podem chamar--lhe a “me, me, me generation”, mas às vezes nascem com outro tipo de preocupações. E devia-se dar mais voz a outros jovens que têm feito um bom trabalho e a quem não é dado o devido destaque. Alguns têm mais visibilidade natural pelas suas famílias ou pelos cargos que ocupam.

Como será Portugal em 20 anos?

O turismo veio para ficar, mas tem de haver planeamento, antes que alguma ganância destrua coisas, e tem de se preservar o que é único e genuíno. Gostava que, na natalidade, se invertesse um pouco ou se começasse a equilibrar mais a pirâmide. E também se reinventassem tradições para puxar as novas gerações.

Pode ser a oportunidade para o Interior?

Tem de se criar condições. As pessoas estudam cá, mas a tendência é para procurarem empregos no Litoral – não é necessariamente mau, podem ir buscar experiências lá fora, mas que tragam essa sabedoria, essa nova energia, para estes locais. Não há fórmulas mágicas, às vezes a dificuldade é conseguir dar às pessoas uma perspetiva de longo prazo e que as empresas tenham um caráter atrativo para que as pessoas se sintam a crescer.

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