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“No Brasil, a polícia acredita que o povo preto é o povo suspeito. E que ele deve ser executado”

“No Brasil, a polícia acredita que o povo preto é o povo suspeito. E que ele deve ser executado”

Cineasta, activista e educadora, Rosa Miranda integra uma nova geração de realizadoras negras brasileiras que fazem do cinema independente uma arma de intervenção política e de afirmação identitária. O presente (e futuro) do Brasil está a passar por

Rosa Miranda filma o Brasil que as elites do país tendem a querer apagar. O Brasil LGBTQI, o Brasil da juventude negra activista, o Brasil das tensões raciais e das opressões de género. Um Brasil que existe e resiste apesar das forças reaccionárias, que nos últimos anos têm sido em parte personificadas pelo governo do Presidente Michel Temer (“presidente golpista”, sublinha Rosa); nos últimos meses por Jair Bolsonaro, candidato de extrema-direita à presidência nas eleições de 7 Outubro.

Fundadora e directora do Kbça D’Nêga Produções, colectivo militante e produtora audiovisual independente nascida em 2014 no Rio de Janeiro, Rosa Miranda é a primeira mulher negra formada na licenciatura em Cinema & Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF). A cineasta, educadora e curadora do Cineclube Atlântico Negro passou por Portugal entre Julho e Agosto numa tour de 19 dias, com paragens no Avanca Film Festival, Porto e Lisboa, para apresentar o seu último documentário, Privilégios (2018), participar em debates, orientar uma masterclass e dar a conhecer os filmes das realizadoras negras brasileiras Leila Xavier, Marise Urbano, Milena Manfredini e Ethel Oliveira.

Encontrámo-nos com ela dois dias depois da sessão esgotada na Casa do Brasil, em Lisboa. Conta-nos como conheceu a vereadora Marielle Franco, meses antes de ter sido assassinada no Rio de Janeiro. As palavras de Rosa têm muita força, muita urgência. Muita vida e muita visão. Faz questão de sublinhar a importância do sistema de quotas raciais introduzido pelo governo de Lula da Silva, medida que permitiu aumentar o acesso às universidades de estudantes negros, pardos e indígenas de classes baixas. Num país onde há “um genocídio do povo preto”, diz Rosa, a educação é sinónimo de “ascensão social” e empoderamento.

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Também por isso está a fazer um mestrado em cinema. Quer ser a primeira professora negra do Instituto de Arte e Comunicação Social da UFF. Em breve começa a preparar o seu novo filme, uma curta-metragem de ficção inspirada na mãe e na avó e com uma equipa só de mulheres. Porque a representatividade e a mudança passam por quem está “por trás da câmara, não apenas à frente dela”. Tudo conta. “É preciso ter mulheres negras na direcção dos filmes, mas também é preciso ter um olhar sobre a nossa oralidade e sobre a fotografia do negro – a luz do cinema está pensada para o corpo branco, as próprias câmaras são calibradas pelo corpo branco”, nota Rosa Miranda. “No Privilégios inverti essa lógica: usei uma luz feita especialmente para os corpos negros serem valorizados.”

Como começou a estudar cinema?
Fiz um curso numa favela, no Morro da Babilônia, chamado Viajando na Telinha, de 2005 a 2006. Aí comecei a entender como era o cinema, mas ainda o cinema hegemónico, norte-americano e europeu, mais voltado para o mainstream. O curso era de graça, todos os dias das 18h às 22h. Eu saía do trabalho às 18h, chegava lá entre as 19h e as 20h. Comecei a ficar muito cansada e afastei-me do cinema até 2008, quando faço o vestibular [prova de acesso ao ensino superior] para o Estácio, uma universidade privada no Rio de Janeiro. Consegui uma bolsa para o primeiro ano. No segundo ficou complicado, tinha de pagar. Mas continuei a estudar e a trabalhar. Entretanto descobri a licenciatura em Cinema & Audiovisual na Universidade Federal Fluminense [UFF], que é pública. Na época ainda não havia quotas raciais e consegui entrar. Sou a primeira mulher negra formada nessa licenciatura.

A licenciatura era muito focada na epistemologia branca? Livros, filmes, professores…
Sim, tudo. Mesmo hoje, o instituto de que esse curso faz parte [Instituto de Arte e Comunicação Social da UFF] não tem professores negros. E no que toca aos alunos, mesmo com as quotas raciais ainda é um campus muito branco. Existe uma enorme quantidade de fraude nas quotas. Pessoas que dizem ser negras mas não são.

Como é que pessoas brancas passam por negras?
É através de uma autodeclaração, por escrito. A pessoa faz uma marcação. Depois, dentro das secretarias, não se confere, não se pergunta ‘você é preto, mesmo?’. Agora, na UFF, foi constituída uma comissão para averiguar estes casos de pedido de quota racial. Fizeram-se entrevistas presenciais e gravadas com as pessoas que se declararam negras e essas pessoas faziam coisas absurdas para passarem por negras.

Por exemplo?
Bronzeamento artificial antes da entrevista. As entrevistas eram previamente marcadas. As pessoas iam bronzeadas, faziam blackface, entrançavam o cabelo, faziam rastas. Na hora em que tinham de afirmar ‘eu sou negro’ para a câmara, não saía.

Essas fraudes acontecem também noutras universidades, em todo o Brasil?
Em todo o Brasil. Fico enraivecida. Isto é um crime e tem de ser encarado como um crime. As pessoas têm de entender que [o sistema de quotas raciais] é uma reparação histórica em relação a um povo a quem sempre foi negado o direito de chegar às universidades, incluindo com políticas públicas. Chegou a ser proibido o negro entrar na universidade e ainda hoje entrar lá é um tabu.

Isso vem de um discurso racista enraizado e legitimado politicamente de que as pessoas negras e indígenas têm um lugar secundário na sociedade?
Tem tudo a ver com a construção de nação do Brasil a partir da negação do negro. A total exclusão de uma população que é maioritária no país. Quando essa maioria não consegue ter acesso a dinheiro, a única possibilidade de ter ascensão social é através da educação. Quais são hoje as expectativas de um jovem negro favelado no Rio Janeiro? Ou vai para jogador de futebol ou vai para o tráfico. E as meninas? Vão para o tráfico também, ou tentam uma carreira como modelo, ou vão para a prostituição. Precisam de dinheiro, a fome não espera. Estas pessoas têm a pior educação, as piores escolas; não têm acesso a teatros, a museus. As quotas são uma das formas de essas pessoas ascenderem socialmente.

PÚBLICO - Foto "As pessoas têm de entender que [o sistema de quotas raciais] é uma reparação histórica em relação a um povo a quem sempre foi negado o direito de chegar às universidades"

Não se pode, portanto, falar em meritocracia. Pegando nas palavras da escritora brasileira Conceição Evaristo numa entrevista à BBC Brasil: “O discurso da meritocracia e os exemplos de pessoas negras que se acabam constituindo uma excepção são perigosos. Porque cria-se esse imaginário de que se a pessoa estudar, trabalhar, se esforçar, ela consegue. Isso é mentira.”
É mentira porque a corrida é desigual logo à partida. E nem todo o preto tem um amigo com dinheiro para investir na ideia dele. Nem todo o preto tem uma pessoa que vai dizer “tu vais conseguir”. Pelo contrário, as pessoas passam o tempo todo a dizer que não vais conseguir. É preciso uma força sobre-humana para acreditarmos em nós mesmos.

Como é que conseguiu?
Com muito post-it. Tenho vários post-its a dizer “você é capaz”, “você é linda”, “você é maravilhosa”. Na minha casa, no espelho, na cozinha. E assim sigo o meu dia. Cada “não” que ouço vai ser um “sim”. Eu sei da minha capacidade e quero que as pessoas negras saibam da capacidade delas. Trouxe várias mulheres negras a Portugal através dos seus filmes porque elas são capazes, e muitas outras também o são.

Foi também por isso que criou o Kbça  D’Nêga?
O Kbça é um colectivo que surgiu a partir de um site que eu ia fazer com portefólio meu. Chamei alguns amigos para fazer uma sessão de fotos numa tarde de domingo. Aí surgiu a ideia de fazer um filme. Avançámos. Mais tarde, em 2016, descobri através da comunicação social que um amigo meu, Diego Vieira Machado, tinha sido assassinado dentro do campus da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro]. Fiz então o filme Da Minha Pele [2016], em homenagem ao Diego. O filme estourou, foi para vários festivais de cinema no Brasil. E foi também nesse momento que o Kbça estourou. Nesse processo, um amigo meu, que também integra o Kbça, descobre que tem sida. 21 anos, negro, tinha acabado de conseguir entrar na universidade. Eu queria registá-lo, eternizá-lo. Então fizemos o Bixa Preta [2016]. Seguiram-se outros filmes, sempre numa produção colectiva feita no amor. Não recebemos dinheiro.

Tendo em conta a falta de recursos financeiros e as barreiras raciais, de género e de classe, quais são as estratégias desta nova geração de realizadoras negras brasileiras para fazer o seu cinema e para o divulgar?
As estratégias são as produções colectivas. E associações como a APAN [Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro], que mobiliza e divulga eventos sobre cinema negro, bem como os cineclubes. Mas ainda há resistência por parte das curadorias em apostar em filmes negros. No Kbça a distribuição é feita através de inscrições em festivais, mas é complicado. É um trabalho de formiguinha.

Fazer estes filmes é uma questão de sobrevivência?
Sim. É necessário. Não é mais permitido que estes assuntos não sejam debatidos. E quando chegamos a um determinado patamar, outras pessoas negras pensam: “Se ela conseguiu, eu também sou capaz”.

A representatividade.
É extremamente importante. Se não temos uma referência fica ainda mais difícil conseguir. Hoje sei que temos, pelo menos, mais de 30 realizadoras negras no Brasil, mas quando eu comecei não tinha referências. Elas existem, mas não lhes é dada visibilidade. E quando nós reivindicamos um lugar, é vitimização, ou é porque somos combativas – outro estereótipo da mulher negra. A mulher negra tem de ser guerreira, tem de aguentar qualquer coisa. Se aguenta qualquer coisa, aguenta até partos sem anestesia.

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"Eu tento fazer as pessoas reflectirem através da minha arte. Não sei se vou conseguir, mas estou a tentar"

Esse tipo de violência reprodutiva contra mulheres negras ainda é recorrente no Brasil?
É. As mulheres negras têm prescrição para receber menos anestesia porque supostamente são mais fortes. É este tipo de mitos eugenistas que sustentam o genocídio do povo negro no Brasil. A maioria das mulheres que morrem durante o aborto são mulheres pretas – as mulheres ricas e brancas vão fazer numa clínica particular, em segurança. As mulheres vítimas de maus-tratos durante o parto são sobretudo mulheres negras. Só na minha família conto, pelo menos, cinco casos de mulheres que morreram durante o parto. Sei de alguns casos que estão a acontecer agora, em São Paulo, de mulheres que chegam ao hospital para ter o filho e depois laqueiam-lhes as trompas. Quem são essas mulheres? São mulheres analfabetas, de populações muito pobres. Mandam assinar um documento sem elas saberem ler, no meio da dor do parto.

Esse genocídio de que fala estende-se também ao sector da política, como vimos com o caso do assassinato da vereadora Marielle Franco, em Março.
A Marielle… [suspiro profundo]. Lutamos tanto para ter alguém a representar-nos politicamente e essa pessoa é arrasada. Eu conheci a Marielle em Novembro, quando estava a fazer assistência de câmara do filme As Filhas de Lavadeiras. Depois, em Março, vejo que ela levou quatro tiros na cabeça. E até hoje os culpados ainda não foram presos. Toda a gente sabe que foi um crime político. O Brasil é o país onde mais se mata pessoas LGBT. É o país onde mais se mata pretos – a cada uma hora são assassinados três jovens negros. Quando soube do assassinato da Marielle fiquei uma semana sem sair de casa, com medo. Não consegui ir às manifestações. Às vezes parece que não adianta ter um post-it a dizer que você é maravilhosa quando a pessoa que representava tudo isso é assassinada. E quando no dia seguinte à morte dela é executada uma criança de um ano. E quando dois dias depois é assassinada mais uma jovem negra, de 20 e poucos anos, numa favela onde há helicópteros a atirar balas lá de cima. Ainda em Junho, Marcos Vinícius, um menino de 14 anos, foi baleado na Maré [favela no Rio de Janeiro] quando ia para a escola, durante uma operação da polícia com o apoio do Exército. O que é que essa criança fez de mal? Não é bala perdida, é bala certa. No Brasil, a polícia ainda acredita que o povo preto é o povo suspeito. E que ele deve ser executado. A maioria da população brasileira encarcerada é negra. O feminicídio de mulheres negras aumentou, enquanto o das mulheres brancas diminuiu. Como é que a gente consegue respirar? É um desespero.

Sente que ser activista negra no Brasil é estar sempre à beira da morte?
Mas também com esperança de que algo vai mudar. Eu não quero ser mártir. Ninguém quer. Só queremos que essa mudança aconteça o mais rápido possível. Eu tento fazer as pessoas reflectirem através da minha arte. Não sei se vou conseguir, mas estou a tentar. E quando vejo uma Casa do Brasil [em Lisboa] lotada, sei que estou no caminho certo.

PÚBLICO - Foto "As mulheres negras têm prescrição para receber menos anestesia porque supostamente são mais fortes. É este tipo de mitos eugenistas que sustentam o genocídio do povo negro no Brasil"

Nota algum progresso na consciencialização da população branca brasileira em relação à violência sobre as populações negras e indígenas?
Podem ter consciência, mas poucas pessoas brancas falam sobre isso. Têm dado algumas aberturas, mas, quando mexe com o privilégio delas, é difícil. É a questão da branquitude crítica, que critica esse sistema mas não revê o seu. E ainda há empresas que vendem esse país como um país branco, quando não é.

Relativamente às eleições que se aproximam: como explica, num país maioritariamente negro, que um político de extrema-direita e com um discurso racista como Jair Bolsonaro lidere as intenções de voto na primeira volta?
No Brasil existe uma junção entre a religião evangélica e a política. A bancada evangélica está a dominar, e muitos deles são grandes empresários também, o que prejudica ainda mais o acesso a informação independente nos media. Vemos um crescimento absurdo dessas igrejas. Muita da população que frequenta esses espaços é negra e não percebe o quão racista é essa religião. E há também a questão da milícia, que ameaça subliminarmente ou coage os moradores de favelas para votar em determinados candidatos. “Vou dar-te 50 reais para votares em mim”. Ou “se votares em mim dou emprego ao teu filho”. As pessoas são tão pobres que aceitam, por uma questão de sobrevivência.

Henrique Vieira é um pastor evangélico de esquerda, militante do PSOL, que se assume como feminista, anti-racista, activista pelos direitos LGBT e pela legalização do aborto. Segundo ele, se a esquerda não cultivar o diálogo com os evangélicos, não conseguirá ter um projecto popular. Concorda?
Estive numa conferência com Henrique Vieira e acho-o muito coerente. A sua figura é importante neste momento em que há tantos extremos. Porém, acredito que religião e política não se devem misturar, já que o Estado brasileiro é laico. [Como] o Henrique pode haver outros, mas não se posicionam [politicamente]. Como dizia Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem carácter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons.”

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