www.sabado.ptFlash - 16 set 01:00

As soluções à pressa

As soluções à pressa

A enorme degradação da qualidade das capas dos livros portugueses torna as livrarias uma monótona sucessão de imagens todas iguais, estereotipadas, entre o méli-mélo e umas recriações históricas que parecem cromos juvenis, para pior - Opinião , Sábado.

...estão à vista nos seus maus resultados. Foram as pressas de se fazer alguma coisa que explicam as falcatruas com as casas de Pedrógão, são as pressas para responder ao caos dos comboios que explicam uma bizarra compra de 23 comboios que só chegam daqui a muitos anos. Percebe-se que a compra, que nada indica, pelo discurso público, que estivesse prevista (se não fosse assim não seria antecedida pela novela dos empréstimos de comboios espanhóis, que se percebe era a solução prevista), foi decidida para responder à pressão política de alguns partidos que descobriram agora que os comboios estão mal.
Até pode ser a melhor solução e ter sido pensada à exaustão, mas custa-me aceitar que não haja no mercado mundial mais oferta de comboios a curto prazo, seja em segunda mão, para resolver os problemas que são de curto prazo. Sim, porque quem usa com frequência comboios, como este vosso autor, já de há muito, antes de o tema ficar na moda, escreveu e falou na Quadratura do Círculo, sobre a acentuada perda de qualidade dos comboios, desde a classe eufemisticamente chamada "conforto" até à classe ainda mais eufemisticamente chamada "turística". 

Degradação da qualidade das capas dos livros
Há excepções à regra, mas a regra é a enorme degradação da qualidade das capas dos livros portugueses, tornando as livrarias uma monótona sucessão de imagens todas iguais, estereotipadas, entre o méli-mélo e umas recriações históricas que parecem cromos juvenis, para pior. Esta degradação é ainda mais evidente quando se passa umas semanas a desenterrar, das suas caixas e do pó, uma biblioteca fechada há muitas dezenas de anos. E é a surpresa das capas, desde colecções comuns, policiais, de ficção, do "coração", pulp fiction produzida para ser barata e consumida ao ritmo da semana, infantil, tudo com capas originais, cuidadas para chamar a atenção, muitas vezes berrantes ao estilo das histórias de quadradinhos da época, produzidas por nomes que se tornaram conhecidos, ou já eram conhecidos e respeitados, mas também por um proletariado do desenho, da pintura, dos cartazes, que fazia capas, telas para os cinemas, publicidade, cromos de colecção, capas de fados e partituras. Mas tudo explodia de vigor, cor, imaginação, kitsch do bom. Uma exposição dessas capas seria um sucesso. Nada era deslavado, mortiço, esbatido e esmaecido, ton sur ton, aborrecido até ao limite. Lá dentro e cá fora. 

Era outro mundo de edição
Noutra altura falarei disso, não eram só as capas, mas o mundo da edição popular, com pequenos livros, mesmo fisicamente falando, em mau papel para serem muito baratos, que saíam todas as semanas para um público popular que hoje não lê.
Eram, para usar a terminologia da época, para "os magalas" e para as "sopeiras", mas aquelas editoras como a Agência Portuguesa de Revistas fundada no final dos anos quarenta e que publicava milhões de exemplares por mês de tudo, revistas de cinema, livros policiais, novelas amorosas, cromos, histórias aos quadradinhos, um mundo de leitura e de leitores que acabou. Sim, porque ler no Facebook não é ler, e o mito urbano de que a leitura apenas migrou de meio, é apenas um mito. 

O principal problema com Trump é que é perigoso, muito perigoso
O livro de Bob Woodward e o editorial anónimo do New York Times têm um ponto em comum, que transcende as circunstâncias do livro e do editorial. Trump é completamente desprovido das qualidades para ser quase tudo o que não seja um apresentador de reality show (sim, Trump não foi um homem de negócios de sucesso como se repete vezes de mais…) e, muito menos, para ser o homem mais poderoso do mundo. É ignorante, presunçoso, impulsivo, preguiçoso, superficial, agressivo, instável, narcisista, amoral e desprovido de qualquer respeito pela democracia e a lei. Tem uma intuição sobre os conflitos, em particular sobre como provocá-los e como alimentar uma clientela com esses conflitos, mas o seu mundo é escasso, tal como a sua linguagem. Por onde passa deixa um rastro de ordens contraditórias, de frases sem sentido, de ameaças e de afirmação da força dos cobardes. Quando as coisas ficam negras, lá hasteia a bandeira para McCain, ou desdiz-se com o que disse com Putin.

O livro e o editorial fazem um retrato sinistro de como funciona a Casa Branca de Trump, com aquele monstro no centro. Os detalhes transpiram todos os dias, e aqui nem sequer precisamos de encontrar o demónio nos detalhes visto que ele está no traço grosso. Os "adultos na sala", cada vez menos e cada vez menos adultos, podem contê-lo numa luta de exaustão, mas como diz Woodward, "livremo-nos de haver uma verdadeira crise".

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